Violência contra a mulher começa em casa, passa pelo MasterChef e desagua nas redes sociais

Foto: CMYKane / Creative Commons

A edição mirim do MasterChef começou no dia 20 com uma de suas participantes, Valentina, de 12 anos, sendo alvo de comentários sexistas nas redes sociais. Cinco dias depois, o tema da redação do ENEM abordou justamente a violência contra as mulheres, e novamente o assunto inundou a Internet. Sempre acredito que o debate enriquece ideias, mas o que eu vi nesses dois casos é assustador.

No caso de Valentina, apenas uma criança, os impropérios dirigidos gratuitamente a ela já seriam imperdoáveis por si só. Mas o que se viu foi as redes sociais funcionando como caixas de ressonância para as barbaridades. Pessoas curtindo tudo aquilo e outras engrossando o caldo do horror, sem a menor preocupação de serem identificados a partir de seus perfis.

Os assediadores acham que tudo isso é mais que normal: seria perfeitamente aceitável pela nossa sociedade. E essa sensação tem origem no fato de que, no Brasil, a coisa é mais ou menos assim mesmo. A culpa recai sobre a vítima, como se ela fosse culpada pelo problema.

Fico imaginando o que Valentina teria feito para ser alvo de tudo aquilo e simplesmente não consigo encontrar nada. A começar porque nada justificaria o fato.

Meu sentimento foi reforçado pelo ENEM. Muita gente, candidatos ou não, se sentiu ofendida com a proposta da redação, como se estivessem sendo forçados a assumir uma posição “feminista” (a menos, é claro, que quisessem levar um zero) e isso fosse uma ofensa a sua honra, talvez sua masculinidade. Era como se escrever um texto combatendo à violência contra as mulheres, o que pode ser facilmente extrapolado para violência contra seres humanos, fosse algo penoso, que lhe fosse suprimir algum direito bizarro.

As aspas em “feminista”, no parágrafo anterior, foram propositais. Fica muito claro que a maioria das pessoas não entendem o que o termo significa (vou dar uma ajudinha com duas boas definições, do site Significados e da Wikipedia). De volta às redes sociais, assisti perplexo a pessoas com seu discurso de ódio contra a prova, baseado nas premissas acima. Também vi gente dizendo que a prova era uma doutrina “da esquerda” e que até se tratava de uma ameaça à família. Mas a minha esperança de uma sociedade melhor foi realmente abalada quando eu vi mulheres dizendo isso tudo.

Mulheres criticavam publicamente uma crítica à violência contra a mulher.

 

Impunidade e idiotismo

As redes sociais despertam características curiosas em alguns indivíduos.

A primeira delas é uma falsa sensação de impunidade, quase como se não pudéssemos ser alcançados em nossa “vida online”. Nela, fazemos coisas que jamais faríamos “presencialmente”, e essa característica se manifesta com bastante força nas redes sociais. Sempre gosto de usar, como exemplo, um álbum de fotos da família. Quem iria a uma praça e ficaria mostrando as fotos de seus filhos a desconhecidos? Então por que fazem isso nas redes sociais?

Isso explica parcialmente porque as pessoas publicaram tudo o que foi dito acima sobre o ENEM e sobre Valentina com os seus perfis reais. Estão lá para serem inequivocamente identificados, mesmo quando o que diziam poderia ser considerado crime em diferentes artigos do Código Penal. É verdade que muitos trogloditas diriam tudo aquilo também presencialmente, mas outros o fizeram apenas por se sentirem protegidos por esse véu inexistente da “vida online”.

Acontece que não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”. As duas são apenas diferentes expressões de uma única realidade. Somos seres indivisíveis e, como tal, respondemos pelo que fizermos em qualquer lugar, mesmo no ciberespaço.

A segunda característica, prima da anterior, é uma espécie de ciberidiotismo. Assim como estar online causa a algumas pessoas a sensação de estar acima da lei, também destrava em um grupo o pior de sua personalidade, derrubando qualquer limite moral que tenham para fazer valer suas premissas.

Entendo que muita gente não goste do atual Governo Federal, e não estou aqui julgando ninguém por isso. Mas de repente notei que esse posicionamento político legítimo se misturou ao tema da redação. Afinal, por esse raciocínio, se o ENEM é feito pelo Ministério da Educação, logo tudo que ele propõe deve ser ruim, uma “doutrinação de esquerda”, uma “lavagem cerebral terrível” e, portanto, até mesmo combater a violência contra mulheres na redação deve ser algo condenável.

É triste ver a tecnologia sendo usada em atitudes que pioram a nossa sociedade, a despeito de seu potencial para melhorá-la. Para casos como os descritos acima, vejo o Direito e a Psicologia como as disciplinas do conhecimento humano necessárias para corrigir os excessos e os desvios.

Sobre a prova do ENEM, só posso dizer que ela cumpriu bem o propósito de levantar uma discussão tão importante na sociedade, ainda que o caminho tenha sido mais tortuoso que o que seria necessário. E, para Valentina, espero que o amor e o carinho de familiares e amigos a ajudem a passar por esse assédio da melhor maneira possível.

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3 Respostas

  1. […] Violência contra a mulher começa em casa, passa pelo MasterChef e chega às redes sociais […]

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  2. […] para o Brasil só pode ser moldado por uma ótima educação. Para isso, temos que exercitar uma das mais nobres características humanas: a […]

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  3. […] pouco mais de duas semanas, usei este espaço para fomentar o debate sobre como estar online afrouxa os limites morais de algumas pessoas. Naquela ocasião, eu me […]

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