“O conteúdo é rei” é uma tremenda balela

Redação de The New York Times em 1942 - Foto: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA

Redação de The New York Times em 1942

Há quase vinte anos, eu ouço a tese do “conteúdo é o rei”, que um bom editorial seria suficiente para levar um veículo ao sucesso, dito pelos coleguinhas quase desprezando outras áreas da empresa, como o comercial e a estratégia. Mas um extenso documento interno de The New York Times, que vazou na semana passada, mostra que isso é um engodo, mentira, bullshit.

Não estou dizendo, jamais diria, que o conteúdo editorial não é importante. Porém a queda contínua dos veículos tradicionais, principalmente os impressos, diante de produtos digitais inovadores escancara a realidade de que um ótimo conteúdo está longe de ser suficiente para o sucesso. Nem mesmo The New York Times, casa de um jornalismo premiadíssimo, escapa dessa verdade.

O referido documento do Times, que muito bem serve para praticamente todos os grandes veículos impressos, pinta uma empresa que sofre para se adaptar à realidade digital, e experimenta grandes perdas em audiência e receita por conta disso. Mais dramático ainda, o relatório demonstra que o fato de o jornal se preocupar muito com o seu jornalismo, relegando a um segundo plano a evolução de uma estratégia digital robusta e consistente, corroi a sua credibilidade e ameaça sua sobrevivência.

Produzido por um grupo liderado por Arthur G. Sulzberger, filho de Arthur Ochs Sulzberger, publisher do NYT, o documento coloca o dedo em várias feridas, começando pelo fato que toda a sua estrutura de produção continua girando em torno da versão impressa. A ideia de ser “digital first”, que muitos veículos enchem a boca para promover em eventos e peças de marketing, não passa de um discurso vazio, que não encontra eco no dia a dia. E a resistência maior vem da Redação, que encara propostas de mudança em seu produto e na maneira de realizá-lo como uma “ameaça a sua independência”, o que poria em risco a qualidade.

O relatório chega a mencionar a dificuldade de integrar as equipes editoriais, técnicas e de estratégia, quase como se fossem concorrentes. O velho mantra da “separação igreja-estado” é invocado. Para quem nunca ouviu falar disso, o conceito visa impedir que interesses comerciais interfiram nos editoriais. O exemplo clássico é garantir à Redação a prerrogativa de publicar notícias ruins sobre uma empresa, mesmo que ela seja o maior anunciante do jornal.

Mas, nesse caso, isso não se aplica. Ninguém está propondo que a qualidade do jornalismo seja minimamente ameaçada por interesses “obscuros” de outros departamentos da empresa. Pelo contrário, os jornalistas precisam ter, antes de tudo, a humildade de aceitar que outros profissionais podem indicar o caminho que toda a empresa deve trilhar, diante de movimentos não apenas dos concorrentes, mas também de seus próprios clientes: os leitores.

Curiosamente, a única grande inovação do NYT nos últimos anos não veio da Redação, e sim da área de negócios: o seu “paywall poroso”. Resumidamente, permitindo que qualquer um tenha acesso gratuito a uma quantidade restrita de notícias a cada mês, eles propuseram uma maneira criativa que garantiu que 90% de seus internautas continuassem acessando suas páginas sem qualquer mudança (o que garantiu a manutenção da receita publicitária vinculada à audiência), enquanto aumentou consideravelmente o total de assinaturas digitais e até mesmo do jornal impresso.

O problema é que, de março de 2011 para cá, o conceito de assinatura, que já andava bem mal das pernas, se enfraqueceu ainda mais. Com a consolidação do consumo ubíquo de conteúdo em dispositivos móveis, as pessoas não querem mais se sentir “aprisionadas” a um veículo, pagando antecipadamente por muita coisa que não usarão. O consumidor de conteúdo atual, que absorve isso vorazmente como nunca, quer que tudo chegue a ele com qualidade, onde estiver, quando quiser e ainda referenciado pelos seus amigos. Se essas exigências forem atendidas, pouco importa a origem do conteúdo: pode ser o NYT ou um completo desconhecido que domine o assunto.

Não é de se espantar, portanto, o sucesso de agregadores, como o Flipboard. Da mesma forma, não é nenhuma surpresa a derrocada dos veículos tradicionais. E a culpa disso não cabe à Internet, aos agregadores, ao Google ou ao Facebook. Cabe aos próprios veículos, que continuam produzindo e distribuindo seu conteúdo como nos tempos em que eram a única fonte de conteúdo de qualidade.

Felizmente (para os usuários) ou infelizmente (para os veículos tradicionais), esse tempo é passado.O jornalismo do NYT é algo memorável e espero sinceramente que a “dama cinzenta” consiga reagir e promover as mudanças necessárias para continuar existindo. Cabe apenas a eles mesmos –e a todos os veículos agonizantes– a solução.

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Ainda sobre a cobrança pelo conteúdo

Depois de meu post anterior, alguns colegas argumentaram comigo sobre a importância de se cobrar pelo conteúdo jornalístico. Concordo, mas não vejo com bons olhos a maneira como esse debate vem acontecendo. Essa campanha , patrocinada principalmente pelos jornais, é vazia, pois se apoia em uma premissa falsa. Portanto vale a pena retomar o assunto na tentativa de jogar um pouco de luz sobre ele.

A tal premissa é a de que as pessoas não querem mais pagar pelo conteúdo, querem consumir tudo de graça. Desculpem, isso não é verdade. As pessoas consomem hoje conteúdo em volume e em diversidade jamais vistos. E –pasmem!- elas pagam por muitos deles. Um bom exemplo é o cinema, que se recuperou de uma fase ruim, iniciada com a popularização do VHS. Hoje as salas estão cheias, e as pessoas pagam mais caro pelo ingresso para ver as sessões em 3D.

Outro bom exemplo é a Apple. Ela está (também) dominando o mundo sobre os cadáveres de outra indústria que cometeu suicídio por se recusar a aceitar as mudanças no comportamento dos usuários: a fonográfica. Enquanto as vendas de CDs batem no chão e as lojas praticamente os retiraram das prateleiras, o iTunes ultrapassou, em fevereiro de 2010, a incrível marca de 10 bilhões de faixas vendidas, com um modelo que combina qualidade (as músicas tem qualidade superiores às de CD), comodidade (você compra só a faixa que quiser, quando e onde estiver, com um clique) e preço baixo (ninguém pensa muito antes de gastar um único dólar).

Podemos tirar algumas lições desses dois exemplos. A primeira é que a Apple não acabou com a pirataria de músicas: estima-se que cada iPod e similares dos adolescentes americanos tenham cerca de 800 músicas baixadas ilegalmente, em média. Mas a função da Apple não é acabar com a pirataria: é vender. E ela faz isso para uma em cada quatro músicas vendidas nos EUA.

Quanto aos cinemas, ao invés de ficarem chorando sobre o videocassete, investiram na experiência que ofereciam. Quem vai ao cinema hoje, não faz isso apenas para assistir a um filme. Paga para ter isso em uma tela enorme, muitas vezes em 3D, com um som incrível, em salas confortáveis e comendo alegremente uma pipoca que custa quase tanto quanto o ingresso. Trata-se de uma experiência envolvente e positiva, que não existe em outro lugar.

Portanto, caros colegas, as pessoas querem –sim– pagar pelo conteúdo que consomem. Apenas não querem pagar por aquilo que lhes é oferecido pelos jornais, pois sua percepção indica que esse produto não merece ser pago.

Mesmo com a popularização dos tablets, os jornais ainda não perceberam que o problema reside no seu modelo de produto e de negócios, ultrapassados. Querem embarcar nesta plataforma popularizada pela Apple, sem entender o que fez da empresa o sucesso nos negócios, empurrando aos consumidores a mesma coisa que já ofereciam no papel.

E aí ficam se debatendo diante da recusa das pessoas em pagar, e combatendo quem realmente entendeu o novo momento da mídia, como o Google Notícias ou o Flipboard, só para ficar em dois exemplos básicos. Resistem bravamente ao futuro do seu negócio, que passa por “destruir” o seu produto, para recriá-lo com seu elemento primordial: jornalismo de qualidade.

Isso nos leva de volta ao post anterior. The New York Times e The Wall Street Journal vêm colhendo bons frutos com seus paywalls. Mas conseguem isso com um conteúdo que é realmente um diferencial. Além disso, o primeiro, desde que o jornalismo começou a flertar com a Internet, sempre se destacou por iniciativas criativas do uso da tecnologia, nem sempre bem-sucedidas.

O usuário paga pelo conteúdo. É só lhe oferecer algo que valha a pena.

Depois do “paywall”, o “freewall”

Desde que o The New York Times lançou, em março do ano passado, o seu “paywall”, os jornais elegeram esses sistemas de controle de cobrança pelo seu conteúdo digital como a tábua de salvação de sua indústria em forte declínio. Não falam de outra coisa, como uma criança que encontrou antes da hora um presente escondido. Mas Raju Narisetti, vice-editor executivo do The Wall Street Journal, classifica os paywalls como “negativos”.

A declaração foi feita no 9º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) nos dias 20 e 21 de agosto. Ironicamente o WSJ de Narisetti é o melhor exemplo de sucesso conteúdo digital fechado. Se quiser ler, tem que assinar. Muito mais “duro” que o modelo do NYT, que vem habitando os sonhos dos publishers, em que o leitor pode acessar páginas livremente até determinada quantidade, antes de ser convidado a pagar.

Como entender essa aparente contradição do executivo? O próprio Narisetti explica: o WSJ sempre cobrou pelo seu conteúdo, ao contrário de praticamente todos os demais jornais, que acostumaram seus usuários a consumir o conteúdo de graça. Agora precisam convencer seu público a pagar pelo que sempre foi grátis. Além disso, o conteúdo do WSJ é um verdadeiro diferencial, raramente equiparado por outros veículos, o que cria uma justificativa pela cobrança.

“Vocês devem descobrir o que funciona para o seu negócio e encontrar formas de beneficiar seus sites e seu jornalismo”, disse no evento. Traduzindo: não há nenhuma garantia de que os sucessos dos modelos de paywall do NYT e do WSJ possam ser reproduzidos em outros veículos. Mais: para que isso tenha a mínima chance de acontecer, os veículos têm que oferecer um produto que mereça ser pago.

Problema: diferencial é algo que os jornais, os brasileiros com destaque, têm cada vez mais dificuldade de oferecer. Em época de cortes dramáticos de custos, as redações ficam povoadas de “focas”, imaturos e com formação deficiente. E um bom jornalista só aparece ao longo dos anos, forjado na reportagem e na edição. Nossos veículos se tornaram reféns de sua falta de criatividade da inexperiência dos novos colegas, dependendo do denuncismo e do jornalismo palaciano, duas pragas que tentam mascarar essa triste realidade.

Apenas para exemplificar, vejam as primeiras páginas de hoje do Estadão e da Folha:

 

 

Os dois jornais têm a mesma manchete, com o mesmo sujeito, mesmo verbo e mesmo objeto; a foto principal também retrata o mesmo personagem; três das outras principais chamadas também tratam do mesmo assunto.

Caramba: até o anúncio é o mesmo!

Mais dramático ainda: nada, absolutamente nada do material chamado nas duas páginas exigiu grande esforço. É material de assessorias, de agências, de pesquisas. E tudo isso também está disponível igualmente (e muito mais rápido) em portais como Terra, MSN e outros, que não dão a menor pinta de que passarão a cobrar pelo seu conteúdo. Sem falar na televisão aberta.

Fica a pergunta: quem vai pagar por isso? Ou ainda: quanto vale isso? Disse Suzana Singer, ombudsman da Folha, na sua coluna do dia 24 de junho : “para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede.”

Os paywalls mudarão magicamente isso? O próprio Narisetti responde: “paywalls são inerentemente negativos. Estamos dizendo ao leitor que ele tem, por exemplo, 20 matérias grátis e que, quanto mais ele lê, mais perto fica de ter que pagar para nós.”

“Freewall”?

O executivo do WSJ propôs então uma ideia no mínimo curiosa: talvez os jornais devessem considerar a alternativa de um “freewall”, como ele mesmo chamou.

É como um programa de milhagem. Para ver o conteúdo, o usuário precisa pagar. Mas, quanto mais “engajado” esse usuário for com o veículo, menos pagaria, até chegar a uma eventual gratuidade.

A proposta tem seus méritos. Um usuário que participa ativamente do jornal –comentando, compartilhando, sugerindo– traz vários benefícios ao veículo, inclusive novos usuários. Compartilhamentos comentados aos amigos de redes sociais são uma forma complexa e eficiente de marketing, de uma maneira que o próprio veículo não consegue fazer por si só.

Claro, é apenas uma ideia: ninguém falou ainda em como implantar tal coisa, ou quais seriam as regras de descontos, por exemplo. Mas o embrião do paywall poroso também era só uma ideia no NYT há três anos, quando começou a ser discutido internamente. Pode se tornar uma alternativa interessante a jornais que não sejam competentes o suficiente para ter sucesso com o paywall.

E por que então o WSJ não adota o freewall então? Bom, porque seu conteúdo é um diferencial e eles nunca deram isso de graça. Fecha-se o círculo.

O fim dos jornais

Homem olha jornais expostos em uma banca argentina

Os jornais precisam olhar para mundo e encontrar maneiras criativas de cobrar pelo seu conteúdo, ou acabarão sumindo

Há alguns dias, enquanto almoçava com colegas, a decisão da Folha de S.Paulo de restringir, desde o dia 21 de junho, o conteúdo de seu site a assinantes virou assunto. As opiniões eram praticamente unânimes: a novidade representaria um enorme erro, fruto de falta de visão e desespero pela incapacidade de se adaptar às mudanças do mercado, e os resultados seriam negativos. Na verdade, o tom dos comentários chegava a ser jocoso: “quanto vão ganhar com isso, mil reais?”

Argumentei que os colegas da Barão de Limeira estava seguindo uma tendência internacional chamada “paywall poroso”, popularizada pelo The New York Times –que, aliás, vem colhendo frutos interessantes, aumentando consideravelmente a sua base de assinantes digitais e até mesmo do impresso. Mas isso só serviu para aumentar ainda mais a chacota: “é muita pretensão querer se comparar ao The New York Times, que diferenciais eles têm para querer cobrar algo?”

Essa conversa agregou vários pontos que há muito discuto aqui. É um fato que as pessoas só pagam por aquilo em que veem valor. “Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede”, afirmou a própria ombudsman da Folha, Suzana Singer, na sua coluna do dia 24 de junho.

Os jornais estão em posição cada vez mais desfavorável nesse cenário: as tiragens e as receitas dos grandes títulos minguam, sendo substituídas por jornais gratuitos e por outras fontes de informação, mais notadamente a digital. E os colegas acima trabalham justamente em portais. Ironicamente, muita da informação oferecida por esses sites –assim como em redes sociais– vêm desses mesmos jornais. E produzir conteúdo custa e, dessa forma, precisa ser remunerado.

Cobrar de quem vê valor

A Folha reproduziu aqui um dos maiores acertos do NYT: a grande maioria dos usuários do site nem perceberá a existência do paywall, pois eles supostamente consomem menos notícias por mês que o necessário para disparar o mecanismo de cobrança (40, no caso da Folha). Dessa forma, a novidade não afugentaria usuários, mantendo os ganhos com publicidade. Paga apenas quem ultrapassam esse limite, o que, em tese, indica que a pessoa vê valor no produto, justificando assim a cobrança.

Mas as pessoas não querem mais pagar. Não vem de hoje e os culpados por esse conceito são os próprios jornais, que fomentaram isso em nome de construir uma presença online desde meados da década de 1990. Como também escreveu Suzana, “acostumados a se informar de graça na rede e incomodados com um monte de anúncios que saltitam sobre a tela, (as pessoas) não entendem por que devem colocar a mão no bolso.”

Nessa insustentável e aparentemente insolúvel contradição pode residir a saída para essa indústria, crítica para uma sociedade livre. Em setembro de 2010, conduzi um estudo e concluí que, de todos os custos de um grande jornal, apenas 20% se refere, de uma forma ou de outra, ao jornalismo em si, entrando, nessa contabilidade, os salários, equipamentos, suporte a reportagem e o que mais fosse necessário à produção de conteúdo. Os outros 80% vão para comprar papel, manter a gráfica, distribuir os impressos e manter a enorme infraestrutura dessas empresas.

Oras, o que as pessoas efetivamente consomem está nesses 20%. Colocando de outra maneira, é possível continuar fazendo jornalismo com a mesma qualidade gastando apenas vinte de cada cem reais investidos hoje. Claro que essa é uma visão propositalmente simplista, pois as agências publicitárias não querem depositar nas operações digitais dos jornais o que (ainda) colocam em seus impressos. Mas, se a fatia do impresso está diminuindo no bolo publicitário, então esse dinheiro está indo para outro lugar.

“Perderam o barco”

Está indo para jornais gratuitos e mídia digital. A televisão continua nadando de braçada com uma folgada liderança, mas sem mudanças significativas para mais ou para menos em seu share. Rádio e mídia externa consolidaram-se na rabeira. A briga séria está no “pelotão intermediário”, justamente onde está o impresso –jornais e revistas– e o digital.

O impresso vem se sustentando com a ajuda dos jornais gratuitos, como o Metro e o Destak, que puxam as métricas –leitores, tiragem e receita publicitária– para cima, mascarando a queda dos grandes títulos. E a mídia digital, no melhor estilo “de grão em grão, a galinha enche o papo”, aumenta continuamente o seu share, com anúncios infinitos a preços irrisórios.

Sobre meu post “O incômodo charme dos agregadores”, Rodrigo Mesquita, responsável pela Agência Estado ser o que é, e membro da família proprietária do Estadão com uma excelente visão do casamento da mídia com as TIC, comentou no Google+: “Não dá mais tempo, meu caro. Os jornais perderam o barco. Vão ficar com um papel residual.”

A possível solução para o dilema da mídia exige, portanto, abandonar o modelo de negócios que conhecem tão bem. A mídia impressa precisa entender que o papel era apenas um veículo para entregar o conteúdo que produzia. Não apenas não é mais necessário, como se tornou obstáculo a sua sobrevivência. E não me refiro apenas aos altos custos associados a ele, mas também porque engessa o produto em um formato autocontido, unificado e finito, que não encontra mais espaço hoje.

Descentralização

“Nada foi feito em direção a nada na grande maioria dos jornais”, afirmou Mesquita, que concluiu: “caminhamos para uma nova sociedade, que terá uma nova forma de interagir e articular seus interesses, de uma forma muito menos centralizada que a do tempo da indústria.”

As casas editoriais aprenderam o discurso de que são produtoras de conteúdo, que deve ser entregue da forma que o usuário quiser. Mas o discurso não combina com seus atos, que buscam resgatar o velho “jornalão”, esse sim entregue em todas as plataformas, em que o usuário assina tudo ou nada. Tem que levar o caderno de cultura e o de esportes, mesmo que queira apenas ler o de economia.

A Folha deu o primeiro passo para romper esse pensamento tacanho e antiquado, imitando o paywall do NYT. Mas isso não liberta ainda o usuário fiel do conceito de assinatura (ele pode ser fiel sem ser assinante). Nisso, os portais, a indústria de games e, mais recentemente, as lojas de aplicativos mobile estão muito à frente, com formatos de distribuição –e remuneração– completamente pulverizados, fragmentados, “indolores” e sob demanda.

Trata-se de um mundo com ganhos mínimos multiplicados em milhões de microtransações, que transformam definitivamente qualquer conteúdo em serviço. Os players acima aprenderam essa lição e, mesmo que muitos deles não tenham as receitas dos grandes jornais, ostentam operações mais saudáveis e até mais lucrativas. Afinal as suas despesas são muito menores e eles possuem muito mais consumidores que os jornais.

Não é de se admirar, portanto, que empresas de tecnologia liderem hoje os ganhos publicitários e já tenham até se tornado gigantescas –e inovadoras– produtoras de conteúdo. Felizmente o eventual fim dos jornais não significará o fim do jornalismo. Apenas de empresas que se recusaram a se adaptar a uma nova ordem econômica e social, mediada pela tecnologia.

Treine um dragão e salve seu jornal

Nos últimos dias, participei de conversas com vários grupos sobre o assunto mais odiosamente preferido dos executivos de mídia: como salvar o nosso negócio. E me deparei com as mesmas teses de sempre: conteúdo aberto versus conteúdo fechado, paywalls, assinatura ou compras avulsas, veículos organizados em edições ou continuamente atualizados, entre outros. E as conclusões, da mesma forma, acabavam sendo as velhas conhecidas, que, na prática, tentam perpetuar o modelo de negócio de jornais, que se forjou no século 19, se refinou no 20 e não encontra mais espaço no 21.

O que não entendo é: por que ninguém pensa em treinar um dragão para salvar o seu jornal? Claro, treinar um bicho desses não é fácil, mas a animação “Como Treinar Seu Dragão”, do trailer acima (não viu ainda? veja!), mostra que, muito mais difícil que encontrar ou treinar uma enorme besta voadora e cuspidora de fogo é acreditar que isso é possível. Mais difícil ainda é querer fazer isso quando se vive em uma aldeia viking cujo propósito maior é matar dragões.

O fato é que a mídia impressa só pensa em matar os dragões que roubam as suas ovelhas cada vez mais. Existem várias espécies deles, como a publicidade insuficientemente barata, o “jornalismo-cidadão” e a blogosfera, os internautas que se recusam a pagar pelo conteúdo, o Google News e, mais recentemente, os agregadores.

Mas e se tudo que soubermos sobre esses dragões estiver errado? Com essa conclusão, um protótipo de viking salvou a sua aldeia. Mas, para isso, arriscou tudo. Sorte da aldeia, pois, se ninguém pensasse diferente, nunca venceria as feras.

Como é de amplo conhecimento público, o principal dilema da mídia, especialmente a impressa, é que a receita que eles conseguem angariar com a Internet nem de longe compensa as perdas que a mesma lhe provoca. E produzir bom jornalismo custa dinheiro, isso é um fato! E as pessoas devem pagar por isso! Bem… pode ser… mas certamente não da maneira como se quer lhes impor.

Já que estamos fazendo citações cinematográficas, selecionei a cena abaixo, que muitos fãs de Star Wars devem conhecer as falas de cor:

Uma sequência de Yoda vale ser retirada dessa cena: “So certain are you. Always with you it cannot be done (…) You must unlearn what you have learned.”

Claro! Estarmos muito certos de algo é uma das piores coisas que pode nos acontecer. Na incerteza, experimentamos as alternativas e tateamos os nossos limites, nos permitindo ser melhores. Já na certeza, nos acomodamos em nossas crenças e tentamos impor aos outros o nosso modelo de mundo “certo”. Se o mundo discorda de nós, desqualificamos os seus argumentos; se se recusa a nos aceitar, tratamos de eliminá-lo. E aí continuamos achando que dragões são malévolos e naves são muito grandes para se levitar.

Enquanto isso, fedelhos nórdicos cavalgam dragões e criaturinhas verdes e enrugadas tiram naves de pântanos. O mundo se move rápido, vivemos em tempos exponenciais, como disse no último post. Quaisquer que sejam as soluções adotadas pela mídia para sair do lamaçal em que se encontra, elas começarão ao aceitar que deve conduzir seu negócio de maneira drasticamente diferente.

Acha tudo isso uma bobagem? Não acredita que possa ser feito? “That’s why you fail!”

Separando a Igreja do Estado e pagando a conta dos veículos

No último dia 26, durante o seminário de comunicação digital “Os desafios éticos e legais nas empresas jornalísticas”, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), meu colega Marco Chiaretti disparou: “o problema é que está entrando muito dinheiro nas redações”. Não, ele não sugere que o jornalismo deixe de ser uma atividade remunerada. O que ele quer dizer é que as áreas de negócios das empresas de comunicação estão tendo muito influência sobre as pautas dos seus veículos, uma interferência perigosíssima ao livre exercício do jornalismo.

Assim como a liberdade diante de governos, a liberdade econômica é uma premissa básica do bom jornalismo, daquelas que se aprende no primeiro ano da faculdade. Afinal, o veículo tem que poder noticiar uma enorme falcatrua de uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante. Corre-se o risco de perder o anunciante? Claro! Mas daí vem uma frasesinha muito conhecida no meio: “a separação Igreja-Estado”, que diz que decisões de negócios não devem interferir nas editoriais e vice-versa (só não me perguntem quem é a Igreja e quem é o Estado).

Se isso for respeitado e a Redação fizer seu trabalho direito, constroi-se o maior bem do jornalismo: a credibilidade. E, pelo menos no mundo perfeito, isso deveria ser suficiente para o negócio seguir adiante.

Mas não estamos no mundo perfeito! Há alguns dias, zapeando despreocupadamente pela TV, dei a sorte de cair no começo de “O Informante”, com Al Pacino. Para resumir bastante a história, o filme conta o caso verdadeiro de uma reportagem do “60 Minutes”, da norte-americana CBS, em que um ex-alto executivo da indústria tabagista vem a público e explica, com todas as palavras, como seus antigos colegas deliberadamente manipulam as substâncias químicas nos cigarros para viciar seus consumidores.

Bem, como pode ser visto no trecho abaixo, depois de tudo pronto, a área de negócios da emissora tentou barrar a todo custo a entrevista com o informante, pois ela seria prejudicial à empresa. Só não conseguiu devido à sagacidade e –permitam-me a expressões– aos culhões do produtor, vivido por Pacino.

Realmente, fica difícil quando aquela que possivelmente foi a maior reportagem do ano só foi ao ar depois de muita confusão. Mas não sejamos inocentes em acreditar que isso não acontece.

Caímos então em um dilema: no mesmo seminário da ANJ, vários participantes disseram que é necessário que a imprensa volte a ser mais mantida pelo seu próprio público que por anunciantes, mas vivemos uma época em que as pessoas não querem pagar pelo conteúdo que consomem. Trata-se de uma discussão que não cansamos de tratar nesse blog.

Quase cegos

Também participando do evento, Caio Túlio Costa conclamou que as “empresas deveriam fazer operação de catarata!” Não se trata mais de discutir mudanças no modelo de negócios, e sim aceitar e entender que todo o negócio –em muitos de seus itens essenciais– mudou. “Os veículo ainda não entenderam essa nova realidade da informação”, concluiu.

Traduzindo: pode ser razoável que o público mantenha, ainda que não totalmente, a atividade jornalística, garantindo assim a independência e um jornalismo de qualidade (o que, aliás, é de interesse do mesmo público). Mas não dá para simplesmente pedir –ou pior, tentar impor– que as pessoas paguem pelo conteúdo: elas precisam ver valor naquilo, entender por que estão pagando e encontrar um preço que lhe pareça justo. É por isso que simplesmente fechar conteúdos é uma burrice.

Nesse teatro em que os atores não sabem suas falas, vem o The New York Times há alguns meses com uma proposta de “paywall” que, de início, foi motivo de chacota de muita gente. Basicamente, ele permite que se leia, de graça, 20 textos do site a cada 30 dias. Depois disso, tem que se pagar. O desprezo inicial se deve ao fato de o sistema ser facílimo de burlar, além de possuir várias “liberalidades” em seu conceito. Apesar disso, o NYT vem comemorando resultados muito surpreendentes: de um lado, a queda na visitação de seu site foi considerada aceitável; do outro, aumentou consideravelmente o volume de assinantes do site… e do jornal impresso!

Como isso foi possível? Pela combinação do melhor jornalismo independente do mundo com preços muito baixos. US$ 0,99 por semana para ter acesso ilimitado a todos os produtos digitais do NYT nas primeiras quatro semanas e US$ 35 por mês depois disso? E você ainda recebe o jornalão impresso em casa! É um valor razoável. Não obstante, eles realizaram uma pesada campanha de conscientização para justamente demonstrar que o jornalismo independente precisa do apoio do seu público.

As empresas de comunicação, especialmente a mídia impressa, estão rezando para essa “moda” pegar. Afinal, o dinheiro vindo da publicidade não para de minguar e fica cada vez mais difícil fechar as contas. São necessárias outras formas de fomentar o negócio. Mas temo que vejam apenas a parte do “conteúdo fechado” sem ver todo o resto do trabalho da turma do NYT. Repito: apenas fechar o conteúdo e esperar que o usuário pague por ele é um tiro na cabeça. Sempre existirá conteúdo grátis (e –sim– de qualidade) na rede.

No dia 5 de outubro, enquanto dava uma aula em um curso de extensão da PUC-SP, um aluno me indagou se esse modelo daria certo no Brasil?

Acho que sim. Você não pagaria R$ 1 por semana para garantir um jornalismo de qualidade para você?

A aposta de Murdoch no iPad

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Nos últimos dias, a mídia especializada deu grande destaque ao novo veículo que Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal, está criando. Batizado de The Daily, o periódico deve ser lançado no início de 2011, será tocado por uma redação de cem jornalistas, alguns deles grandes nomes do mercado americano, e começa com uma injeção inicial de US$ 30 milhões.

Até aí, no big deal. O que torna The Daily realmente único é o fato de que ele será publicado apenas no iPad. Nada de versão na Web e muito menos em papel. Murdoch, um sujeito que, se pudesse, acabaria com a Internet só porque ela atrapalha o que ele realmente gosta de fazer, que são os jornais, e que vem buscando há meses (anos?) um modelo de negócios substituto para o papel, parece tê-lo encontrado no incensado tablet da Apple.

The Daily pode dar certo. Primeiramente porque o mogul australiano da mídia conta com o apoio do próprio Steve Jobs, CEO da Apple, para criar um produto que realmente tire proveito dos encantadores recursos do iPad, fugindo da mesmice, das limitações e da sem-gracisse dos produtos editoriais lançados até agora para o tablet (nota do editor: Jobs publicamente detesta o aplicativo para iPad do The New York Times, arquirrival do The Wall Street Journal).

Além disso, usuários do iPad adoram consumir aplicativos que tornem a sua experiência com o tablet melhor. E, nesse ponto, os US$ 0,99 que o veículo cobrará por semana são uma pechincha. Como conseguiram a mágica de cobrar tão pouco? Bom, como expliquei no meu post anterior, 80% dos custos de produção de um jornal são “desperdiçados” em coisas como papel, impressão, distribuição, infra-estrutura monumental… Apenas 20% são investidos naquilo que as pessoas realmente consomem, ou seja, conteúdo editorial. Criando um veículo que roda apenas no iPad, Murdoch elimina a maior parte desses custos “extras”.

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

A expectativa da News Corp. é chegar a 500 mil assinantes do The Daily em cinco anos. Se isso acontecer, isso passa de US$ 25 milhões em receitas de assinaturas anuais. Ok, um terço deve ficar com a Apple, mas, somadas às receitas de publicidade, The Daily deve ser financeiramente saudável. Se a Apple ainda trouxer o aplicativo pré-instalado no iPad, a quantidade de usuário pode ser ainda maior (tai a Microsoft que não me deixa mentir quando o assunto é pré-instalar programas no sistema operacional para ganhar mercado).

Mas nem tudo são flores no novo rebento de Murdoch. Se, por um lado, o modelo de negócios parece consistente, não posso dizer o mesmo do produto em si. Especialmente porque se trata de um jeito novo de se entregar notícia velha. Apesar de não ser impresso em árvores mortas, The Daily insiste no velho modelo do jornal diário de abrangência nacional: você baixa a edição de hoje, que traz notícias de ontem. As atualizações só virão amanhã… e com notícias de hoje. Nada de noticiário atualizado ao longo do dia. E muito menos pense em um noticiário personalizado, outra demanda que está explodindo entre os internautas.

Além disso, ele não oferecerá link para nada na Internet: todo o conteúdo será fechado nele mesmo. E, claro, ninguém dará link para ele, já que se trata de um aplicativo, e não de um site. De novo, The Daily fica mais parecido a um impresso e menos digital.

Por fim, The Daily pode enfrentar concorrência no próprio iPad de sites com conteúdo de qualidade e grátis, assim como os jornais de Murdoch enfrentam há anos na Web. Já se observam sites que começam a oferecer na Web produtos criados especificamente para iPhone e iPad, o que implica inclusive em alternativas ao uso do Flash, que os irritantes da Apple baniram de seu ecossitema. E aí, The Daily ficará ainda mais com cara de um jornal lento e pesadão.

Moral da história: por mais bem feito que a turma da Apple consiga criar o The Daily, eu diria que as suas chances residem muito mais em seu modelo comercial que editorial, que não me convence. É uma tremenda aposta de Murdoch, um dos maiores representantes de uma indústria que, especialmente nos EUA, agoniza. Mas eu sinto cheiro de naftalina: Naftalina for iPad.

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