Você vai abandonar o PC em 2017? E a sua empresa?

Imagem: reprodução

No dia 4, a Qualcomm lançou o Snapdragon 835, o mais poderoso processador para celulares já criado. Mais que simples curiosidade tecnológica, a novidade coloca mais um prego no caixão dos PCs e deve impulsionar ainda mais o poder de smartphones. Não é de se estranhar, portanto, que tanta gente esteja literalmente trocando seus computadores por celulares! Mas e as empresas (inclusive a sua), estão preparadas para lidar com essa mudança de hábito dos consumidores? Resposta: a esmagadora maioria não!

A substituição de computadores por smartphones está tão consolidada, que até já aparece nas estatísticas do IBGE. No fim de 2016, o órgão divulgou resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios que demonstraram que, pela primeira vez na história, a quantidade de residências brasileiras com computador diminuiu de um ano para o outro. Em sentido contrário, o número de domicílios com internet cresceu 20% em dois anos.


Vídeo relacionado:


Até há alguns anos, essas duas conclusões seriam contraditórias. Hoje fazem todo sentido. Isso porque a imensa maioria dos computadores comprados para residências no pais destinam-se a atividades simples, como pesquisas na Internet, conversas online e produção de textos. Até bem pouco tempo atrás, um computador era a única possibilidade de se fazer isso. Hoje os celulares cumprem essas tarefas tão bem ou até melhor que os PCs e trazem duas vantagens inegáveis: não precisam ser compartilhados com outros membros da família e estão conectados e prontos para uso o tempo todo, onde quer que estejamos.

Nossa vida está de tal forma integrada aos celulares que, se esquecemos nossa carteira em casa, damos um jeito para passar o dia sem ela, mas, se esquecemos o celular, voltamos para buscá-lo. Afinal de contas, as tarefas que desempenhamos com ele estão cada vez mais diversificadas e essenciais. Tanto que a GM usou esse comportamento no comercial abaixo, ainda em abril 2014:



É uma propaganda de carro, mas a coisa mais importante parece ser o celular! Ou seja, a capacidade de se conectar ao seu smartphone se transformou em um argumento de venda do Ônix, “um carro feito para os dias de hoje”.

E como ficam os PCs diante desse avanço dos celulares?

 

Agonia lenta

Não estou dizendo que o PC vai sumir totalmente ou que isso vai acontecer de uma hora para outra. Mas até um cego vê que as vendas de computadores despencando. Segundo o IDC, no Brasil, elas caíram 35% no terceiro trimestre de 2016 em relação ao mesmo período de 2015. Nas residências, o tombo foi de 38%.

O que ainda garante uma sobrevida aos computadores? Existem muitas tarefas que ainda são difíceis de ser executadas em dispositivos móveis, como smartphones e tablets.

Os empecilhos podem ser agrupados em três grandes grupos: interface (um mouse é muito mais preciso que nosso dedo), tamanho da tela e capacidade de processamento. Mas os primeiros vêm sendo resolvidos criativamente pelos designers de interface, enquanto que, para os segundos, as telas estão ficando cada vez maiores. Quanto ao poder da máquina, lançamentos como o da Qualcomm minimizam continuamente a vantagem dos PCs, até que ela desapareça por completo

Mas, como dito acima, para a imensa maioria das pessoas, os celulares atuais já dão conta do recado. Para elas, a conectividade é a coisa mais importante que existe.

Mas então o que as empresas estão fazendo para tirar proveito disso?

 

Primeiro no celular

Quando eu trabalhava no Estadão, lá pelos idos de 2010, começou a ficar popular o conceito de “digital first”, especialmente entre os veículos de comunicação (talvez para tentar compensar o seu imperdoável atraso nisso). Ele preconizava que as empresas, ao pensar em seu negócio, deveriam considerar, desde o primeiro momento, que ele deveria funcionar bem nos meios digitais. Na verdade, se fosse para escolher entre o online e o off line, o primeiro deveria ser privilegiado.

De lá para cá, o “digital first” foi substituído pelo “mobile first”. Ou seja, não basta funcionar bem nos meios digitais: tem que funcionar bem nos celulares. E aí a coisa fica feia.

As empresas já sabem, por exemplo, que precisam ter um bom site. Mas a maioria continua pensando nos computadores quando produzem seus sites. Então possuem uma ótima presença online na Web, mas apenas quando o site é visto em PCs. Se for aberto em um celular, muitas vezes fica inutilizável.

Um erro clássico é insistir em tecnologias ultrapassadas, como, por exemplo, o Flash. É verdade que ele foi fundamental para tornar a Web muito mais bonita e interativa há uns 20 anos, mas se tornou pesado e inseguro, acabando sendo banido dos celulares. Além do mais, hoje é possível fazer a mesma coisa com HTML 5, mais estável e leve. Então por que insistir no Flash?

O negócio é tão sério, que o Google penaliza sites que não aparecem bem em celulares, jogando-os para baixo nos resultados de seu buscador. Outro bom exemplo é The New York Times, que bloqueia o próprio site nos computadores da empresa. O objetivo: forçar os funcionários a usar os produtos nos celulares, para terem a mesma experiência que a maioria dos clientes.

Mas há ainda um outro tipo de erro comum na presença das companhias nos celulares.

 

Use bem a plataforma

Smartphones e tablets são equipamentos incríveis, que permitem aos desenvolvedores criar soluções inovadoras e muito úteis aos usuários, graças a uma enorme quantidade de sensores (como geolocalização), ao fato de se integrar com muitas bases de dados do proprietário (como informações do Facebook e do Google) e por estar continuamente online. Então por que muitas empresas insistem em oferecer aplicativos que se limitam a transpor para a telinha o que eles oferecem na Web?

Fazer isso é muito desperdício de potencial tecnológico! É como ter uma Ferrari e usá-la apenas para ir à padaria da esquina!

Aplicativos de e-commerce são um mau exemplo disso. A maioria não oferece nada além do que está em seu site. Francamente, para que desenvolver um app então?

Mas peguemos o exemplo da Amazon. Seu aplicativo tem um recurso bastante interessante:  quer comprar um produto que você está vendo na sua frente ou em uma imagem? Basta fotografá-lo com o aplicativo! Afinal, todos os celulares têm uma câmera. Em segundos ele o reconhecerá o item e dará o link direto para comprá-lo. Há ainda o caso da Amazon Go, as novas lojas físicas da empresa, em que o consumidor pega os produtos que quer e sai sem precisar passar pelo caixa, discutido aqui recentemente. Nelas, o celular tem um papel essencial na identificação do usuário.

Algumas empresas já aprenderam a se aproveitar da geolocalização –a capacidade do smartphone de saber onde o usuário está em tempo real. Dessa forma, sempre que o cliente se aproximar de uma loja física do varejista –ou de um concorrente– o celular pode jogar na tela uma oferta convincente, com base no perfil de compras do indivíduo.

Esses são apenas alguns exemplos mais óbvios de como qualquer negócio pode tirar muita vantagem dos celulares, mas poderíamos ficar aqui horas debatendo possibilidades para cada caso. Na maioria delas, nem é preciso um grande investimento. Cada vez mais, o único limite fica sendo a criatividade do dono do negócio e do desenvolvedor.

Portanto, pergunte a você mesmo e responda com sinceridade: o seu negócio já abraçou para valer os smartphones? Pois você e seus clientes já fizeram isso! Não dá para descolar uma coisa da outra.


Artigos relacionados:

Anúncios

Isso é um livro ou alguma “outra coisa”?

Como um livro deve ser para ser chamado de “digital”? Há alguns dias, investi US$ 4,99 no download do e-book “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” (Moonbot Studios LA), na verdade, um aplicativo para iPad, cujo trailer pode ser visto acima. Eu o conheci em uma discussão se aquilo poderia ainda ser considerado um livro ou se já se tratava de alguma “outra coisa”. E minha experiência com ele foi muito interessante.

A despretensiosa historinha despertou enorme interesse em todas as crianças a quem o mostrei, mesmo com seu texto em inglês. O aplicativo é uma evolução do conceito do livro-brinquedo, em que a criança é convidada a explorar, a cada página, recursos que ampliam a experiência da leitura. Nesse caso, isso se dá por uma belíssima mistura de animação digital, multimídia e interatividade, valendo-se da interface tátil do tablet. E o resultado com os pequenos é muito positivo.

Críticos dessa categoria de produto dizem que tanta riqueza sensorial elimina uma das belezas dos livros, que é a necessidade de o leitor imaginar as cenas que está lendo. Concordo com a importância disso, mas Morris Lessmore não “entrega tudo pronto”, como um filme. Em contrapartida, convida o usuário (que não é mais apenas um “leitor”) a interagir com a história, introduzindo novos elementos cognitivos que um livro tradicional não pode oferecer.

Claramente esse tipo de recurso não serve apenas para diversão ou para ser usado em contos infantis. Qualquer obra pode se valer dessa nova modalidade de publicação. Como exemplo, contarei um caso que me ocorreu hoje.

Enquanto ajudava meu filho com seus estudos, nos deparamos com a seguinte definição, em uma gramática que é best seller absoluta entre livros didáticos: “intencionalidade discursiva são as intenções, implícitas ou explícitas, existentes no discurso.”

Apesar de ele compreender perfeitamente as palavras, do alto dos seus dez anos não conseguiu entender plenamente a definição. Nesse sentido, o livro falhou em algo que explicou poucas páginas antes: “discurso é o processo comunicativo capaz de construir sentido.” Ou seja, o enunciado, por si só, não disse muita coisa a quem o leu. Mas, com uma breve contextualização minha, meu filho finalmente compreendeu tudo o que pregava a definição.

Vale ressaltar que o livro apresentava exemplos que ajudariam na compreensão, mas, para uma criança, eles estavam demasiadamente dissociados do objeto. Fiquei pensando na hora que Morris Lessmore teria feito diferente, e provavelmente o aprendizado teria sido muito mais eficiente. E divertido!

É provável que um “livro digital” de qualidade signifique subverter estruturalmente o conceito do que se conhece por livro. Em tempos em que o MEC pede crescentemente às editoras material didático digital, exemplos como esse deveriam ser considerados para “pensar fora da caixa”. A tecnologia deve ser usada criativamente a favor dos objetos de aprendizagem.

Os livros não devem mais ficar restritos a suas páginas (“páginas?”) ou mesmo ao jardim murado do conteúdo das editoras. Com suas versões digitais, as crianças devem ser estimuladas a ampliar sua aquisição de conhecimento de maneira tão ampla, criativa e divertida quanto possível. É assim que elas já adquirem qualquer conhecimento, e, quando têm esses recursos à mão, o fazem de maneira surpreendente e decisiva. Os professores já sabem disso e muitos tiram proveito disso para ajudar seus alunos.

O que me traz de volta à discussão que tive na semana passada: no final, Morris Lessmore ainda é um livro? Oras, quem se importa com isso?

O que fazer com “computador de US$ 100”, que agora é tablet?

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

Na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA) na semana passada, a OLPC finalmente exibiu a esperada terceira geração de seu equipamento. Batizada de XO 3, o novoo computador educacional idealizado por Nicholas Negroponte chega no formato de tablet e, pela primeira vez, pode cumprir uma de suas bandeiras mais ambiciosas: custar US$ 100… ou menos!

O equipamento, visto nas fotos, é bastante grosso, se comparado aos tablets comerciais, mas tem uma tela Pixel Qi de 8 polegadas com boa visibilidade mesmo sob o sol, com resolução de 1024 x 768 pixels. Por baixo dela, traz um processador Marvell Armada PXA618, 512MB de memória RAM e 4GB de armazenamento. Roda o sistema operacional Sugar, uma“sabor” de Linux desenvolvido pela OLPC que, na minha opinião, não era bom nem nos laptops e ficou ainda mais inadequado em um tablet. Mas o XO 3 –felizmente– também pode funcionar com Android, muito melhor para um equipamento que pretende promover a inclusão digital.

Como todos os equipamentos propostos pela fundação, o XO 3 traz coisas inovadoras que tornam o preço baixo ainda mais surpreendente. Promete ser à prova d’água e bastante resistente para aguentar o tranco da criançada (a capa protetora em silicone também ajuda). Alguns itens opcionais (que devem aumentar seu preço) são interessantes para comunidades carentes, foco da OLPC, como um carregador ativado por uma manivela e até mesmo uma tela que carrega o tablet com energia solar.

Entrando na sala de aula

Feitas as apresentações formais, vem a pergunta: o que fazer com o XO 3 quando ele chegar às salas de aula (o que deve acontecer em algum momento neste ano)? As propostas a seguir valem para qualquer tablet.

É curioso colocar os olhos no equipamento justamente no mês em que os pais estão às voltas com as listas de material escolar. Diante de tantos livros, seria ótimo se todos eles estivessem disponíveis aos estudantes, digital e instantaneamente, em seus próprios tablets. Por mais que fossem meros PDFs das obras, já seria uma experiência melhor pela portabilidade. Sem falar que pesariam menos (nas mochilas dos alunos e nos bolsos dos pais). Algumas instituições de ensino, como a Universidade Estácio de Sá, já vêm fazendo essa transposição simples do material didático para tablets.

Mas isso é pouco! É muito desperdício de uma plataforma que está intuitivamente redefinindo a maneira como usamos um computador. Com tablets e smartphones, estamos aprendendo a ter acesso continuamente a todo tipo de informação, seja para lazer, para estudo ou trabalho. Consultas, que antes exigiam o deslocamento até a biblioteca, podem ser feitas instantaneamente e em qualquer lugar, até mesmo à biblioteca da escola (quando o serviço é oferecido, claro).

Mas essa plataforma só mostra todo o seu potencial com aplicativos didáticos que sejam criados para realmente tirar proveito disso, o que exige investimento. Como já foi discutido aqui, as escolas de ponta já estão trabalhando nisso, seja na avaliação de soluções (internas e externas), seja na formação específica de seus professores, algo crítico para o sucesso de qualquer empreitada.

As editoras de material didático infelizmente ainda oferecem produtos bastante tímidos. Uma pena: talvez seja tarde quando acordem. Pode-se produzir soluções educacionais muito interessantes e inovadoras combinando um conteúdo altamente comoditizado com uso inteligente da tecnologia. Isso sem falar na “concorrência” de professores que, na sala de aula, aproveitam criativamente, por sua própria iniciativa e mérito, produtos criados para outros fins. Que tal estudar lançamento balístico com Angry Birds?

O fim da mídia em edições

Foto: Melbeans

Entre debates no palco do Itaú Cultural e animadas conversas com colegas que também participaram do MediaOn 2011, que lá aconteceu entre os dias 22 e 24, um conceito começou a tomar uma forma mais consistente: talvez a mídia como conhecemos, organizada em edições, esteja chegando ao fim.

A divisão do noticiário em exemplares bem delimitados e organizados por um período de tempo é tão antiga quanto o jornalismo formal. Tanto que jornais e revistas são conhecidos por “periódicos”. E isso sempre fez sentido, para que o produto tivesse tempo de ser produzido. No caso de impressos, ainda é necessário, para que haja tempo para que os exemplares saiam da gráfica sejam entregues. Também funciona bem para rádio e telejornais, que têm que se enquadrar nas grades da programação.

Mas por que teria que ser assim no jornalismo digital? Uma coisa que a Web decretou há mais de uma década foi o fim do conceito de “fechamento”. Ou seja, não há mais uma edição formalmente definida para os produtos jornalísticos na Internet: sempre que o usuário chega a um veículo digital, potencialmente encontra um noticiário renovado, mesmo que o visite várias vezes no mesmo dia. Por isso, da mesma forma que as edições fazem sentido para as outras mídias, elas não fazem na Internet. E quem sai ganhando com isso e o usuário, que tem no digital um jornalismo que, pela primeira vez, combina a agilidade do rádio com a profundidade do impresso.  Qualidades que tornam o jornalismo na Web incomparável e que já estão totalmente incorporadas no cotidiano de usuários e profissionais.

Mas desde que o fenômeno dos tablets se consolidou, tenho observado paradoxalmente uma retomada das edições, agora em formato digital. Começou com os aplicativos das revistas, o que até dá para ser explicado: os publishers viram no iPad um dispositivo com formato e tamanho compatível com suas edições em papel. Sem pensar muito, simplesmente transpuseram seus produtos em papel para os tablets.

O problema é que essa “mania” se disseminou e hoje se vê todo tipo de publicação para tablets organizada dessa forma. A quem interessa isso? Eu apostaria que não ao usuário, pois, apesar de uma diagramação supostamente criada para esses dispositivos (o que é uma falácia), invariavelmente esses produtos são piores que os websites dos mesmos veículos. Vejamos:

  • no caso de jornais, o conteúdo é atualizado apenas uma vez por dia; em revistas, a atualização é semanal (ou quinzenal, mensal ou ainda pior); nos websites dos mesmos veículos, isso acontece continuamente;
  • os arquivos das edições costumam ser enormes e o usuário é obrigado a baixá-la integralmente (mesmo que não as leia inteiras), o que exige muito tempo para download e ocupa grande espaço na memória do tablet; os websites carregam quase instantaneamente e apenas o que o usuário se interessa, sem ocupar a memória;
  • apesar do enorme download, o conteúdo dessas edições digitais costuma ser limitado, enquanto os websites têm um conteúdo muito mais amplo que o “veículo-mãe”;
  • esses aplicativos oferecem pouca ou nenhuma integração com redes sociais, dificultando o compartilhamento de conteúdo e qualquer tipo de interação entre os usuários; os websites, por outro lado, são amplamente “comunitários”, o que cria uma experiência muito mais rica (e, de quebra, aumenta a audiência do próprio site);
  • as edições digitais também costumam oferecer muito menos conteúdo multimídia ou interativo que o website;
  • o navegador Web do tablet está ali, a um clique, oferecendo ao usuário toda a Web, inclusive o site do veículo.

Parece que um monte de coisas muitíssimo interessantes que foram aprendidas em 17 anos de jornalismo na Web está sendo relegado ao ostracismo.

Dá para cobrar?

O fato é que os publishers veem nos tablets uma maneira interessante de voltar a cobrar pelo seu conteúdo, uma capacidade que perderam ao longo desses anos. E as edições digitais ajudam nessa tarefa, pois é mais fácil cobrar por algo delimitado, que claramente seja entregue, que por algo amorfo e ilimitado, como é o caso do noticiário na Web.

A questão é: as pessoas pagam por isso? Os produtos nesse novo formato apontam para uma resposta negativa. Mesmo o The Daily, filhote de um impressionante esforço conjunto da News Corp e da própria Apple, e anunciado como o primeiro veículo jornalístico criado especialmente para o iPad, vem acumulando prejuízos.

Confesso que eu acreditava que o diário fosse dar certo, por ser bem construído (bem acima da média do que se vê por aí), além de oferecer uma assinatura relativamente barata: US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por um ano inteiro. Mas essas virtudes não foram suficientes para convencer as pessoas.

Mais bem sucedido é o The New York Times, com seu “paywall”, lançado em março. Resumindo o seu funcionamento, por US$ 35 por mês, você tem acesso a todo o conteúdo digital do website e também aos aplicativos para smartphones e tablets. Usuários não-pagantes podem ver apenas 20 páginas por mês. E, se assinar o jornal impresso pelos mesmos US$ 35 mensais, também tem acesso irrestrito a todos os conteúdos digitais. O resultado: um expressivo aumento nas assinaturas digitais… e também do impresso!

Não há nenhuma novidade nessa história: como sempre as pessoas pagam apenas por aquilo que elas veem valor.

Edições X experiência informativa

Esse imbróglio foi debatido exaustivamente no Media On e no seminário internacional da INMA (International Newsmedia Marketing Association), que também aconteceu em São Paulo na semana passada. Ambos eventos apontaram para um futuro que implica na criação de uma nova experiência informativa para os leitores.

Para Meg Pickard, diretora de engajamento digital do britânico The Guardian e responsável pela melhor palestra do MediaOn, tal experiência passa por um noticiário contínuo e permanente, construído junto com o usuário. No Guardian, todo o processo é aberto para o público, que tem chance de participar, a ponto de a pauta que está sendo trabalhada ser divulgada na Web. Pickard até deu um nome para esse formato: “mutualização”.

Earl Wilkinson, diretor executivo da INMA, sugere que os veículos devem se preocupar em ampliar a experiência do produto em torno de sua marca. Não se trata apenas de re-empacotar um veículo já existente dentro de um novo formato, e sim criar produtos jornalísticos completamente novos em torno da marca. Novos e –por que não?– desagregando o conteúdo, substituindo as edições por material empacotado automaticamente para os gostos de cada usuário ou segmentados por assunto.

As oportunidades estão diante de todos, ao alcance das mãos. Não é de se admirar que agregadores como o Flipboard, Zite ou Pulse façam tanto sucesso entre usuários dos tablets: as pessoas não querem edições, buscam comodidade, compartilhamento, personalização e noticiário realmente quente.

Tablet vazio não para de pé

No dia 1º de setembro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que despejará “centenas de milhares” de tablets nas escolas públicas já no ano que vem. A propaganda ficou ainda mais bonita por ter sido feita em plena Bienal do Livro e arrematado com a exigência de que os equipamentos tenham altas “taxas de nacionalização”. Só não respondeu à pergunta essencial: para que?

Sou um grande defensor do uso da tecnologia na educação. Mas não concordo com entregar equipamentos sem o menor planejamento pedagógico ou treinamento de todos os envolvidos, como parece ser o caso. O discurso político de Haddad rendeu boas manchetes, mas é tão vazio quanto os tablets que ele propõe colocar nas escolas.

Claro que todo mundo quer ter um tablet hoje em dia. Desde que Steve Jobs popularizou o conceito com o primeiro iPad, esses equipamentos se tornaram objeto de desejo. Mas será que eles são o melhor equipamento para a educação? A mobilidade e a interface são realmente muito bem-vindas, mas a mesma interface pode ser um problema. Há pouco software que seja realmente desenvolvido para ela, e a simples execução ali do que existe para computadores “convencionais” nem sempre traz bons resultados em tablets. Por isso, os R$ 70 milhões que o MEC afirma ter investido no ano passado na produção de conteúdos digitais podem não servir muito.

Colégios A+ de São Paulo já estão tateando os tablets em sala de aula, sem trocadilhos. É o caso do Dante Alighieri e do Pueri Domus. Mas, nos dois casos, as escolas corretamente começaram o trabalho na coordenação pedagógica, com foco no uso do equipamento e no treinamento dos professores.

Que dizer de escolas públicas, que têm laboratórios de informática montados há anos, e até hoje não os utilizam? Por que isso acontece? Além de motivos bizarros, como diretores que os mantém fechados com medo que os alunos quebrem os equipamentos (!!!), o principal são professores que não conseguem colocar aquela “coisa” dentro de sua aula. Não se trata de não dominar o equipamento (o que de fato é outra enorme barreira para boa parte dos professores), mas sim como transformar aqueles programas, a Internet e recursos multimídia em parte de seu planejamento de aula.

Portanto, esse discurso de Haddad chega a ser um deboche do uso de tecnologias no ensino público. Como acreditar nisso? E não é a primeira vez que ouvimos promessas desse tipo. O governo anterior, de Lula, havia prometido a compra de 50 milhões de notebooks educacionais, para o projeto UCA (Um Computador por Aluno), mas isso nunca se concretizou. Nem mesmo o primeiro “mísero” lote de 150 mil equipamentos conseguiu sair da fase de licitação.

Então a informatização de ponta nunca chegará às escolas públicas? Claro que sim! É só falar (muito) menos e agir (um pouco) mais.

Alguém pode parar o iPad?

O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP - Foto: divulgação

O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP

No dia 18, a Hewlett-Packard surpreendeu o mercado ao anunciar que estava abandonando o seu recém-lançado tablet, o TouchPad, que chegou a ser anunciado como um “iPad killer” e o primeiro passo de uma longa linha de produtos da empresa. Mas, com seu sistema operacional proprietário, o webOS, ele decepcionou nas vendas e foi sepultado pela companhia depois de míseros 67 dias no mercado.

E então uma coisa inusitada aconteceu: para queimar os estoques encalhados, a HP decidiu derrubar seu preço de US$ 499,99 para US$ 99,99 na versão com 16 GB de armazenamento, e de US$ 599,99 para US$ 149,99, no modelo de 32 GB. Instantaneamente o produto se transformou em um hit, com enormes filas sendo formadas nas lojas. Vendeu tudo! O próprio sistema de e-commerce da HP entrou em colapso com a inesperada enorme procura.

O valor percebido explica essa aparente contradição no comportamento dos usuários. O pessoal não topou pagar pelo TouchPad o mesmo que a Apple cobra pelo iPad 2. O webOS também parece ter jogado contra o tablet da HP, tanto que alguns usuários estão tratando de encontrar uma maneira de instalar o Android no TouchPad adquirido na bacia das almas.

Afinal, alguém pode bater a Apple e seu aclamado iPad? Nos últimos meses, pude experimentar vários concorrentes, todos rodando Android: pela ordem, Samsung Galaxy Tab e Galaxy Tab 2, STI myPad, Motorola Xoom e Lenovo ThinkPad Tablet. Todos eles tinham alguma (ou muita) coisa melhor que o iPad 2, alguns tinham um hardware claramente superior ao da Apple. Por que não conseguem então rivalizar em vendas com o iPad?

O problema está no Android. Não, o sistema operacional do Google é muito bom, em muitos aspectos superior ao iOS da Apple. Mas ele –especialmente a versão 3 (Honeycomb), criada para tablets– demorou a chegar, dando tempo para o iPad abrir uma enorme vantagem de mercado. Como resultado, os aplicativos para iOS estão muito mais maduros que os de Android, além de uma ter oferta mais ampla. Além disso, todos os principais produtores de conteúdo já abraçaram o iPad (muitos até o veem até como a tábua de salvação para uma indústria de mídia em crise), e só agora começam a pensar em produtos para os tablets Android.

Por conta disso, a Apple está sozinha demais nesse jogo. Dita regras draconianas para a comunidade de desenvolvedores de software e de conteúdo. Até mesmo seus usuários são obrigados a fazer as coisas do seu jeito (alguém aí já tentou colocar –sem pagar– sua música preferida como toque em um iPhone, algo ridiculamente simples em qualquer outro celular?).

Por isso, o movimento da HP foi um balde de água fria para aqueles que –como eu– esperam pelo surgimento de concorrentes que enfrentem o iPad de igual para igual. O hardware dos mais recentes tablets Android já chegaram lá. O Android em si também. Falta melhorar a oferta de aplicativos e de conteúdo.

Não podemos esquecer do Google, com Larry Page de novo no timão. Acaba de comprar a divisão de mobile da Motorola pela bagatela de US$ 12,5 bilhões. Não há dúvida que coisa boa sairá disso. A briga dos tablets ainda vai esquentar. Que bom! Tomara que derreta metal!

%d blogueiros gostam disto: