A tecnologia pode PIORAR a educação?

Ábaco - Foto: reprodução

Há alguns dias, fui bombardeado com discussões e reportagens sobre um estudo recente da OCDE sobre competências digitais dos alunos. O que mais me chamou a atenção foram afirmações de que o uso intensivo de tecnologia em sala de aula estaria piorando a qualidade do ensino, até mesmo o desenvolvimento das próprias habilidades digitais.

Aquilo me pareceu, no mínimo, contraditório, além de bater de frente com as minhas crenças sobre os benefícios de um bom uso de recursos digitais na escola. Mas se “contra fatos, não há argumentos”, fui atrás dos fatos e conversei com especialistas para entender essa aparente incoerência.

Felizmente o que o relatório “Estudantes, Computadores e Aprendizado: Fazendo a Conexão” propunha não era bem aquilo. Na verdade, o estudo, feito a partir do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2012, sugere que o simples investimento em tecnologia nas escolas não resulta necessariamente em um melhor desempenho das habilidades digitais dos estudantes.

Mas então de onde veio essa história de que a tecnologia piora a educação?

Acontece que nos países que tiveram os melhores resultados no levantamento, Coreia do Sul, China (especificamente Xangai e Hong Kong) e Japão, o uso da informática em sala de aula fica consideravelmente abaixo da média dos países avaliados. Por outro lado, os resultados de países como Suécia, Dinamarca, Noruega e Polônia, que usam pesadamente a tecnologia na escola, pioraram ou ficaram estagnados.

Evidentemente a OCDE não está sugerindo que as escolas abandonem o uso de computadores. A mensagem passada é que, se os professores não estiverem preparados para usar a tecnologia criativamente, uma escola cheia desses recursos não passará de marketing para atrair pais de alunos.

Agora as coisas começam a fazer sentido.

 

Uma escola para pensar

Na apresentação do relatório, Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, explicou que “é necessário que os sistemas escolares encontrem formas mais eficazes de integrar a tecnologia ao ensino e à aprendizagem para proporcionar aos professores recursos de instrução que apoiem as pedagogias do século 21”.

Trocando em miúdos, computadores, tablets, smartphones, lousas digitais e afins são poderosas ferramentas para ajudar o aluno a aprender a pensar. Não são imprescindíveis para isso, e o estudo acima deixa isso claro, mas, se bem utilizados, podem fazer uma enorme diferença.

O grande desafio é implantar com sucesso recursos que ampliam os horizontes dos alunos e lhes dão ampla liberdade de pensamento e ação em um modelo escolar originado na Revolução Industrial, em que o que se prezava era a obediência às regras sem questionamentos e a habilidade de reproduzir tarefas com precisão. Por mais que, nos últimos anos, vejamos alguns movimentos interessantes de subverter essa lógica perversa na educação, quase sempre essas iniciativas são isoladas e restritas às escolas das classes mais altas.

Para dificultar ainda mais, os professores, que deveriam ser os condutores dessas mudanças, não foram preparados para a tarefa. Sua formação até aborda teoricamente modelos pedagógicos inovadores, porém as próprias faculdades não seguem tais propostas. Mais que isso: usos criativos da tecnologia não são discutidos.

O resultado disso são professores que são usuários de computadores, tablets e smartphones no seu cotidiano, mas que não conseguem transpor essa experiência pessoal para seus planos de aula, algo compreensível na introdução de qualquer tecnologia inovadora em um processo consolidado. Seria como pedir que Sócrates passasse a usar com seus discípulos uma lousa. Justo ele que questionava a utilidade da escrita.

A introdução bem-sucedida dos recursos digitais na escola passa, portanto, por uma restruturação do próprio modelo educacional, repensando os papeis dos professores e dos estudantes no processo. A tecnologia se manifesta de diferentes maneiras no dia a dia dos alunos, permitindo que eles absorvam um enorme volume de informação, muitas vezes de maneira anárquica, sem orientação para discernir o bom do ruim com uma análise crítica. Por conta disso, estudantes de todas as idades chegam às salas de aula carregados com uma geleia indefinida de informação.

Eu, como professor, me deparo com isso o tempo todo. Preciso ter humildade para aceitar que, muitas vezes, o aluno terá mais informação que eu sobre determinado assunto. Justamente aí reside o novo papel do professor: deixa de ser o detentor do conhecimento, até então repassado a alunos que o absorviam passivamente, e passa a ser o orientador dessa turma, alguém que, com sua experiência, é capaz de organizar e transformar todo aquela informação difusa em conhecimento.

Alunos e professores ganham, portanto, funções muito mais nobres. E o uso correto da tecnologia pode maximizar esses resultados, por ampliar o pensamento livre e facilitar o acesso à informação.

Não é uma tarefa fácil! Se os professores não se apropriarem adequadamente das novas tecnologias, elas não cumprirão seu objetivo pedagógico e ainda podem se tornar fatores de dispersão, como indicou o relatório da OCDE. Aqueles que, por outro lado, conseguirem realizar a tarefa terão o prazer de conhecer a verdadeira nova educação, com alunos engajados e felizes, construindo, junto com o professor, seu conhecimento.

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Jogador, gostaria de lhe apresentar George Washington

Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Há alguns dias, tive o prazer de conhecer “pessoalmente” George Washington, quando frustrei uma tentativa de assassiná-lo. Também andei pelas ruas e conversei com os habitantes de Boston e de Nova York do século 18, sentindo o calor de uma população que crescentemente se revoltava contra o domínio britânico sobre o que hoje são os Estados Unidos. Sim, eu estava lá e pude entender, sentir e participar da cadeia de eventos que culminou na Revolução Americana.

Isso tudo aconteceu, mas dentro de Assassin’s Creed III. Para quem não conhece essa séria de games da Ubisoft, seu roteiro se constroi sobre um personagem que consegue reviver as memórias de seus antepassados com o auxílio da tecnologia. Dessa forma, participa de eventos históricos, como as Cruzadas, a Renascimento e a própria Guerra da Independência dos Estados Unidos, como se realmente estivesse naquela época e local. E o jogador é convidado a interagir com esse mundo passado, garantindo que tudo aconteça como deve ser.

Além da impressionante qualidade técnica e de uma cuidadosa recriação de fatos e de ambientes, o que mais me chamou atenção no game foi a possibilidade de se “estudar” história (no caso, americana) com ele. Do que me lembro dos meus tempos de escola, o material didático que tinha disponível sobre o assunto se resumia a uns poucos parágrafos sobre a Festa do Chá de Boston e a própria Declaração da Independência. Agora pude participar ativamente não apenas desses dois eventos, como também de vários outros que os antecederam e sucederam e que, juntos, explicam e justificam a independência dos EUA.

Assassin’s Creed não é o primeiro jogo que coloca o jogador como protagonista de eventos históricos, favorecendo o aprendizado tangencial, já discutido neste blog. Mas é a bola da vez, com rumores de que pode até ser transformado em um longa-metragem hollywoodiano.

É uma maneira inovadora e muito eficiente de se ensinar um conteúdo acadêmico, que serve de fio condutor em um game cuja diversão a princípio não tem nenhum interesse educacional. Mais eficiente até que assistir a um filme como O Patriota, com Mel Gibson interpretando um fazendeiro que se vê forçado a participar da Revolução Americana. Que por sua vez é muito mais eficiente que os parágrafos do livro didático acima citado, pois traz muito mais informação, contexto e –claro– diversão associada ao aprendizado.

A vantagem do game é que o estudante-jogador abandona a posição passiva e participa ativamente dos fatos, algo que nem os filmes podem oferecer. No melhor estilo do “aprender fazendo”, a informação é, mais que decorada, assimilada e entendida por se ter participado dela, ainda que virtualmente.

Sei que é difícil sugerir que um game como esse seja adotado como material didático, pois o custo é elevado e a ação é extremamente violenta, do começo ao fim, como se pode imaginar pelo título. Mas o que proponho aqui é o uso criativo de ferramentas inusitadas e que fazem parte do cotidiano dos alunos para se atingir fins pedagógicos.

Há muito material para isso para história universal e ciências naturais, por exemplo. Infelizmente não há muitos games que retratem o Brasil e sua história, mas há bastante material assim na teledramaturgia, especialmente da Rede Globo. Fica o desafio às equipes pedagógicas de garimpar isso de acordo com seus planos de aula.

As editoras de material didático deveriam também investir nisso, mas elas têm uma enorme dificuldade de ousar nesse sentido. A começar porque a produção de um material como esse é caríssima, e dificilmente se pagaria vendendo às escolas que topassem adotá-lo. Talvez devessem então começar a pensar sob a ótica do aprendizado tangencial, e produzir games para um público muito além do escolar, ao invés de continuar apenas com suas iniciativas bastante… “limitadas” de conteúdo didático digital.

Ou daqui a pouco verão a indústria de games ganhando as licitações do MEC.

O que os números do Ideb realmente revelam

No dia 14 de agosto, o MEC (Ministério da Educação) divulgou os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2011. Apesar de os índices terem apresentado uma ligeira melhora global desde 2009, especialmente nos primeiros anos –no Ensino Fundamental I, passou de 4,6 para 5,0; no Fundamental II, de 4,0 para 4,1; no Ensino Médio, 3,6 para 3,7– não é momento de comemorar, como está fazendo o governo.

É verdade que as metas foram atingidas e até superadas: no EF I, a meta era 4.6; no EF II, 3,9; no EM, os mesmos 3,7 atingidos. As notas do Ideb, criado em 2005 para medir a qualidade do sistema educacional brasileiro, variam de 1 a 10.

Apesar da evolução, precisamos atentar a alguns pontos. Primeiramente, é mais fácil melhorar o desempenho quando se parte de um valor mais baixo. Em segundo lugar, as notas ainda são medíocres. Elas mascaram grandes desigualdades no ensino, seja entre escolas públicas e privadas, seja entre os Estados. Por fim, vão caindo à medida que o aluno progride.

Isso deixa patente como municípios e Estados, responsáveis justamente pelos Ensinos Fundamental e Médio, tratam da educação de maneira desequilibrada. Considerando que os parâmetros curriculares são nacionais, poderíamos ingenuamente esperar que alunos de todo o país tivessem um desempenho pelo menos homogêneo, dentro de uma margem de erro.

Claro que não funciona assim. A educação de qualidade depende de inúmeros fatores, começando pelo professor. Ele precisa ter uma boa formação e trabalhar estimulado e com condições adequadas. Desnecessário “chover no molhado” sobre as deficiências na nossa formação, que começam justamente no Ensino Fundamental e perduram até as universidades. Além disso, cada vez menos os professores optam pela carreira por vocação: muitos ingressam no magistério como um “bico fácil” e acabam se perpetuando na carreira, sem o preparo necessário, inclusive para disciplinas específicas que ministram.

Não é de espantar, já que a sociedade desvaloriza o nobre trabalho desses profissionais. Isso começa pelos baixos salários –que os obrigam a ter jornadas acumuladas em várias escolas– e termina com condições de trabalho muitas vezes péssimas, com flagrantes desrespeitos ao profissional e à pessoa. E, por desrespeitos, me refiro à completa perda de autoridade na sala de aula diante de alunos e de pais, e até mesmo violentas agressões físicas sofridas pelos educadores.

Como resultado, as mentes mais brilhantes de nossa sociedade passam longe do magistério. Situação completamente diferente de países como a Coreia do Sul, onde apenas os melhores podem se candidatar à função de professor, cultuada naquela sociedade. Vale lembrar que a Coreia do Sul, há 50 anos, era um país pobre e eminentemente agrário. Sua transformação em uma das economias mais pujantes do mundo se deve basicamente à valorização do magistério e de todo o sistema educacional do país.

O que as notas do Ideb realmente mostram, apesar de o Governo Federal não querer ver, é o resultado desse caldo de descaso, despreparo e desmotivação: alunos que sabem muito pouco e vão sabendo cada vez menos à medida que crescem. Justamente quando o jovem se prepara para ingressar no mercado de trabalho, ele atinge o auge da sua defasagem. Avaliações internacionais, como o Pisa, colocam nossa Educação atrás da de nossos vizinhos mais pobres, países com condições sociais muito mais graves que as nossas. E isso também aparece em indicadores econômicos, com um Brasil que perde competitividade internacional devido a mão de obra ruim ou simplesmente insuficiente.

Sempre abordo neste blog o uso da tecnologia como um poderoso instrumento para melhorar a educação. E ela vem produzindo frutos bastante interessantes em algumas escolas do nosso país. Mas esses estabelecimentos, antes de ter tecnologia, têm professores que fogem do descrito acima: preparados, motivados e que realmente gostam do que fazem.

Não adianta dar um Ferrari a quem dirige mal: essa pessoa continuará sendo um mau motorista, e ainda corre o risco de provocar acidentes mais graves. Precisamos do óbvio ululante: promover reformas dramáticas em nossa educação, e não as perfumarias que se tem visto.

O que fazer com “computador de US$ 100”, que agora é tablet?

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

Na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA) na semana passada, a OLPC finalmente exibiu a esperada terceira geração de seu equipamento. Batizada de XO 3, o novoo computador educacional idealizado por Nicholas Negroponte chega no formato de tablet e, pela primeira vez, pode cumprir uma de suas bandeiras mais ambiciosas: custar US$ 100… ou menos!

O equipamento, visto nas fotos, é bastante grosso, se comparado aos tablets comerciais, mas tem uma tela Pixel Qi de 8 polegadas com boa visibilidade mesmo sob o sol, com resolução de 1024 x 768 pixels. Por baixo dela, traz um processador Marvell Armada PXA618, 512MB de memória RAM e 4GB de armazenamento. Roda o sistema operacional Sugar, uma“sabor” de Linux desenvolvido pela OLPC que, na minha opinião, não era bom nem nos laptops e ficou ainda mais inadequado em um tablet. Mas o XO 3 –felizmente– também pode funcionar com Android, muito melhor para um equipamento que pretende promover a inclusão digital.

Como todos os equipamentos propostos pela fundação, o XO 3 traz coisas inovadoras que tornam o preço baixo ainda mais surpreendente. Promete ser à prova d’água e bastante resistente para aguentar o tranco da criançada (a capa protetora em silicone também ajuda). Alguns itens opcionais (que devem aumentar seu preço) são interessantes para comunidades carentes, foco da OLPC, como um carregador ativado por uma manivela e até mesmo uma tela que carrega o tablet com energia solar.

Entrando na sala de aula

Feitas as apresentações formais, vem a pergunta: o que fazer com o XO 3 quando ele chegar às salas de aula (o que deve acontecer em algum momento neste ano)? As propostas a seguir valem para qualquer tablet.

É curioso colocar os olhos no equipamento justamente no mês em que os pais estão às voltas com as listas de material escolar. Diante de tantos livros, seria ótimo se todos eles estivessem disponíveis aos estudantes, digital e instantaneamente, em seus próprios tablets. Por mais que fossem meros PDFs das obras, já seria uma experiência melhor pela portabilidade. Sem falar que pesariam menos (nas mochilas dos alunos e nos bolsos dos pais). Algumas instituições de ensino, como a Universidade Estácio de Sá, já vêm fazendo essa transposição simples do material didático para tablets.

Mas isso é pouco! É muito desperdício de uma plataforma que está intuitivamente redefinindo a maneira como usamos um computador. Com tablets e smartphones, estamos aprendendo a ter acesso continuamente a todo tipo de informação, seja para lazer, para estudo ou trabalho. Consultas, que antes exigiam o deslocamento até a biblioteca, podem ser feitas instantaneamente e em qualquer lugar, até mesmo à biblioteca da escola (quando o serviço é oferecido, claro).

Mas essa plataforma só mostra todo o seu potencial com aplicativos didáticos que sejam criados para realmente tirar proveito disso, o que exige investimento. Como já foi discutido aqui, as escolas de ponta já estão trabalhando nisso, seja na avaliação de soluções (internas e externas), seja na formação específica de seus professores, algo crítico para o sucesso de qualquer empreitada.

As editoras de material didático infelizmente ainda oferecem produtos bastante tímidos. Uma pena: talvez seja tarde quando acordem. Pode-se produzir soluções educacionais muito interessantes e inovadoras combinando um conteúdo altamente comoditizado com uso inteligente da tecnologia. Isso sem falar na “concorrência” de professores que, na sala de aula, aproveitam criativamente, por sua própria iniciativa e mérito, produtos criados para outros fins. Que tal estudar lançamento balístico com Angry Birds?

Tablet vazio não para de pé

No dia 1º de setembro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que despejará “centenas de milhares” de tablets nas escolas públicas já no ano que vem. A propaganda ficou ainda mais bonita por ter sido feita em plena Bienal do Livro e arrematado com a exigência de que os equipamentos tenham altas “taxas de nacionalização”. Só não respondeu à pergunta essencial: para que?

Sou um grande defensor do uso da tecnologia na educação. Mas não concordo com entregar equipamentos sem o menor planejamento pedagógico ou treinamento de todos os envolvidos, como parece ser o caso. O discurso político de Haddad rendeu boas manchetes, mas é tão vazio quanto os tablets que ele propõe colocar nas escolas.

Claro que todo mundo quer ter um tablet hoje em dia. Desde que Steve Jobs popularizou o conceito com o primeiro iPad, esses equipamentos se tornaram objeto de desejo. Mas será que eles são o melhor equipamento para a educação? A mobilidade e a interface são realmente muito bem-vindas, mas a mesma interface pode ser um problema. Há pouco software que seja realmente desenvolvido para ela, e a simples execução ali do que existe para computadores “convencionais” nem sempre traz bons resultados em tablets. Por isso, os R$ 70 milhões que o MEC afirma ter investido no ano passado na produção de conteúdos digitais podem não servir muito.

Colégios A+ de São Paulo já estão tateando os tablets em sala de aula, sem trocadilhos. É o caso do Dante Alighieri e do Pueri Domus. Mas, nos dois casos, as escolas corretamente começaram o trabalho na coordenação pedagógica, com foco no uso do equipamento e no treinamento dos professores.

Que dizer de escolas públicas, que têm laboratórios de informática montados há anos, e até hoje não os utilizam? Por que isso acontece? Além de motivos bizarros, como diretores que os mantém fechados com medo que os alunos quebrem os equipamentos (!!!), o principal são professores que não conseguem colocar aquela “coisa” dentro de sua aula. Não se trata de não dominar o equipamento (o que de fato é outra enorme barreira para boa parte dos professores), mas sim como transformar aqueles programas, a Internet e recursos multimídia em parte de seu planejamento de aula.

Portanto, esse discurso de Haddad chega a ser um deboche do uso de tecnologias no ensino público. Como acreditar nisso? E não é a primeira vez que ouvimos promessas desse tipo. O governo anterior, de Lula, havia prometido a compra de 50 milhões de notebooks educacionais, para o projeto UCA (Um Computador por Aluno), mas isso nunca se concretizou. Nem mesmo o primeiro “mísero” lote de 150 mil equipamentos conseguiu sair da fase de licitação.

Então a informatização de ponta nunca chegará às escolas públicas? Claro que sim! É só falar (muito) menos e agir (um pouco) mais.

A educação brasileira continua dando vexame, mas tem jeito

O Brasil tem todos os recursos para mudar a situação vexatória de suas escolas, mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino

O Brasil tem todos os recursos para mudar a situação vexatória de suas escolas, mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino

Este post não traz nada de novo. Mas a notícia que o motivou tampouco traz. Mesmo assim, o assunto foi manchete do Estadão na última sexta (também apareceu na primeira página de outros jornais) e rendeu um editorial no dia seguinte. Como explicar essa aparente contradição?

A notícia é o resultado da Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização), que avalia o quanto as crianças aprenderam ao final do terceiro ano do Ensino Fundamental. Foi aplicada em 6.000 crianças de 250 escolas públicas e privadas das capitais brasileiras. O resultado: 44% delas não aprenderam o esperado em leitura, 46,6%, em escrita e 57% em matemática. Mais: escolas particulares ensinam melhor que as públicas, e as melhores escolas estão no Sudeste e no Sul.

Para não dizer que não há nada de novo na história, foi a primeira vez que foram divulgados resultados de um exame nacional de avaliação do primeiro ciclo do Ensino Fundamental 1. Mas eles estão infelizmente alinhados com os resultados medíocres de todas as outras avaliações nacionais e internacionais, que colocam os nossos alunos em um nível vergonhoso, atrás até mesmo de nossos vizinhos mais pobres. Somos capazes de superar apenas nações miseráveis da África (só as miseráveis).

É curioso que, apesar dessas estatísticas, as classes brasileiras mais abastadas (e mais bem educadas, portanto) se divertem dizendo que norte-americanos não sabem qual é a capital do Brasil ou mesmo questões históricas sobre o seu próprio país. Fazem sua chacota como se os EUA fossem habitados apenas por um bando de Hommer Simpsons. Do alto de sua “superioridade” social, esquecem de (ou não querem) olhar para o próprio quintal. Os mesmos americanos dão um show internacional quando o assunto é educação básica e, mesmo que eventualmente não saibam que Buenos Aires é a capital da Argentina, e não do Brasil, sabem ler e escrever com propriedade, e a matemática não lhes é uma ilustre desconhecida. Além disso, quando os seus filhos chegam à faculdade –na mesma idade dos nossos– encontram à sua disposição as melhores universidades do mundo. No Brasil, as instituições públicas estão sucateadas e atendem a interesses eleitoreiros e demagógicos, enquanto as privadas se transformaram em caça-níqueis despreocupados com a formação profissional ou a produção científica.

Qual a solução? Diante dessa pergunta crítica, ouvimos as mesmas obviedades recorrentes: professores mais bem preparados e remunerados, uma política educacional consistente, escolas com boa infraestrutura e por aí vai. Claro, tudo isso é necessário, mas não é suficiente. A verdade é que se pode fazer muito com pouco, desde que esse pouco seja bem aplicado. E isso não quer dizer apenas nos itens acima, mas fazendo isso com planejamento, selecionando-se os melhores para serem professores e fazendo isso com amor. Sim, pois, para usar mais um clichê, a educação é mesmo um sacerdócio.

Quem quiser entender um pouco mais sobre o que estou dizendo deve assistir ao documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim, lançado em 2007. Ele foi a diferentes escolas do Brasil, entrevistando alunos, professores e coordenadores. No filme, pode-se ver alunos apenas interessados em “furar a professora”, coordenadores promovendo alunos completamente incapazes apenas para se verem livres deles, e professores deliberadamente faltando ao trabalho, pois os alunos os mandam “tomar naquele lugar” em plena sala de aula.

Mas felizmente essa não é a única realidade do Brasil. Tenho filhos com um desempenho escolar surpreendente, apesar de estudarem em uma escola relativamente pequena e com recursos proporcionalmente reduzidos, se comparados aos das torres de marfim que as grandes escolas se tornaram. E, deixando meu lado pai-coruja de lado, em salas com poucos alunos, com professores preparados e dedicados, com uma coordenação pedagógica de qualidade, vejo ali o Construtivismo dando os frutos esperados, com os Parâmetros Curriculares Nacionais sendo aplicados com sucesso.

O Brasil tem todos os recursos para mudar essa situação vexatória de suas escolas, mesmo com os desvios da corrupção. Mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino. Os PCN são bons: precisam ser apenas bem aplicados. O magistério não pode continuar sendo um “bico” ou a “última opção” para quem não conseguiu outra profissão. E –sim– formar, remunerar, valorizar e dar todas as condições de trabalho ao professor. Assim, a educação se retroalimentará com elementos positivos. As crianças e o país agradecerão.

Quando os games ensinam sem ensinar

Um dos principais pontos de resistência ao uso de games de entretenimento na educação está no óbvio fato de que eles não foram criados para ensinar alguma coisa, e sim para divertir as pessoas. Como então pedir que os professores aproveitem seus recursos em seus planos de aula?

Tal resistência dos mestres, facilmente explicável pelo dito acima e sua natural dificuldade de adotar qualquer nova tecnologia nas aulas, é uma pena. O professor que consegue fazer o uso criativo de games pode experimentar resultados bastante expressivos. Mas como fazer isso?

 

 

Esse vídeo, um dos vários sobre uso de games criados por Daniel Floyd, oferece uma excelente sugestão de como conseguir a proeza. Ele apresenta o conceito de “aprendizado tangencial”, baseado na ideia de que pessoas aprendem melhor quando estão envolvidas e interessadas com o tema estudado. Isso é particularmente importante para as escolas, pois os alunos atuais não conseguem achar as aulas atraentes, não se envolvem com elas e, portanto, não aprendem direito.

A beleza da coisa, no nosso caso, é que o objeto do estudo não precisa ser necessariamente o tema principal do game. O “truque” é escolher títulos que incluam referências ao que se deseja estudar. Floyd explica isso valendo-se do filme “300”, pois o aprendizado tangencial pode ser visto também em outros produtos, como filmes, música, entre tantos outros. “300” ou os quadrinhos que o inspiraram obviamente não foram criados com intuito educacional. Porém são de tal maneira envolventes, que despertaram, em boa parte de seu público, o desejo de saber mais sobre Esparta, seu rei Leônidas ou a Batalha das Termópilas. A partir daí, essas pessoas, valendo-se dos meios de sua escolha e por sua própria iniciativa, se “autoeducaram”, motivadas pelo envolvimento que o filme ou os quadrinhos lhes proporcionaram.

Isso é o aprendizado tangencial. Não é algo trivial de se adotar nos planos e aula, mas não é algo impossível de se pedir aos professores. O que precisa ser feito é dar-lhes recursos para que se apropriem dessa ferramenta –no caso, os games– e saibam extrair dela o que outras pessoas não conseguem enxergar.

Trata-se de algo que bons professores fazem desde sempre, para ir além dos recursos que as salas de aula ou laboratórios lhes oferecem. Assim envolvem seus estudantes para que eles transcendam seus ensinamentos e aprendam eficientemente. O vídeo abaixo, um trecho do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, exemplifica como o professor Keating (Robin Williams) usava métodos considerados bastante questionáveis (porém extremamente eficientes para se atingir os objetivos de aprendizagem) pela fictícia Academia Welton, em 1959:

 

 

O personagem do professor envolvia seus alunos para que entendessem melhor o que queria na sala de aula, mas também para que ampliassem seu estudo usando seus próprios métodos (e eles usavam) fora dela. Na história, os resultados foram arrebatadores.

Mas o desafio não é só para os educadores (e, por que não, pais?). Outra peça-chave para a ampliação do uso do aprendizado tangencial são as editoras. Não as editoras de games, que já sabem fazer isso –e fazem– mesmo não sendo esse seu objetivo primário. Estou me referindo às editoras de material didático. Precisam alterar a sua ideia de produção, especialmente quando pensam em criar coisas que vão além dos livros (hmmm… isso não acontece exatamente muito por aqui).

Há três anos, conversava com a coordenadora do Ensino Fundamental de uma das principais escolas de São Paulo. Preservarei o seu nome e o da escola pelo comentário que ela teceu: “Temos um problema aqui: todos –todos– os nossos alunos têm PlayStation. Esses alunos têm demandas para as quais não estamos preparados. Quando chegam na sala de aula, isso aqui é um saco para eles! Não conseguimos captar a sua atenção e, quando isso acontece, a perdemos depois de cinco minutos.” Consequentemente, a aprendizagem é prejudicada.

As editoras precisam ajudar os professores, e estes precisam estar abertos a iniciativas inovadoras. Ou a escola se tornará, cada vez mais, um saco para seus clientes, os estudantes.

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