O poder construtivo e destrutivo do jornalismo-cidadão

 

Ontem a HBO finalmente lançou no Brasil a terceira temporada de The Newsroom. Entre outros dilemas, os personagens do fictício News Night se debatem diante da concorrência do jornalismo-cidadão praticado nas redes sociais. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência: o telejornal começa a perder audiência e receita por não conseguir acompanhar a velocidade e diversidade das mídias digitais.

A série de Aaron Sorkin sempre discute muito bem os temas mais candentes do jornalismo. A bola da vez, o “embate” entre o jornalismo tradicional e o jornalismo feito por qualquer um, sempre aparece em minhas aulas, e alunos e colegas questionam o futuro dos veículos de comunicação e da própria profissão de jornalismo.

Apenas para contextualizar, o primeiro episódio da temporada começa com o atentado terrorista na Maratona de Boston de 2013 e evolui com a equipe do News Night procurando obter informações de fontes oficiais antes de publicar algo, enquanto uma frenética cobertura do caso acontecia no Twitter e no Facebook. A situação fica mais dramática quando alguns de seus concorrentes seguem a onda e começar a dar notícias sem as devidas checagens. Para piorar a história, o telejornal cai de segundo para quarto na audiência, e a empresa reporta prejuízos financeiros.

O primeiro capítulo acaba demonizando o jornalismo-cidadão e as mídias sociais, pois, de fato, muitas bobagens foram publicadas no calor daquele momento, algumas delas bem graves. A turma que bate o bumbo contra o jornalismo-cidadão vive dizendo que aquilo não é jornalismo, em um movimento para proteger corporativamente o exercício da profissão apenas por jornalistas formados, ou então para salvar os veículos tradicionais de sua própria incapacidade de (até hoje) conviver com a realidade imposta pela mídia digital, em que qualquer um pode ser consumidor e produtor de todo tipo de conteúdo, inclusive jornalístico.

Mas muita calma nessa hora! Isso é uma visão distorcida da realidade, coisa que um bom jornalista não pode tolerar. Se, por um lado, as “coberturas” em mídias sociais podem trazer barbaridades, principalmente em fatos que envolvem muita emoção, por outro elas podem oferecer jornalismo de altíssima qualidade, por uma pessoa séria estar no lugar certo, na hora certa, com um celular na mão. E isso é cada vez mais verdadeiro com as empresas de comunicação investindo cada vez menos na reportagem –o coração do jornalismo– sobrevivendo pautadas pelo denuncismo, por releases e pelo jornalismo palaciano, gerando um noticiário morno, desinteressante e sem novidades.

Sempre me lembro do tsunami que arrasou a Indonésia no dia 26 de dezembro de 2004. Depois do desastre, (incrivelmente) a rede de celulares local continuou funcionando. Os sobreviventes começaram então a fazer uma importantíssima cobertura jornalística, muitos sem sequer se dar conta de que faziam isso. A grande imprensa demorou incríveis dois dias para entender a gravidade do acontecimento. Quando isso finalmente aconteceu, mobilizou um exército de jornalistas e fez o seu trabalho.

Mais que escancarar a importância e a viabilidade do jornalismo-cidadão, aquele evento demonstrou também como essa modalidade e o jornalismo tradicional podem atuar de maneira complementar. Nenhum indivíduo é capaz de realizar grandes coberturas, pois isso exige grandes investimentos. Por outro lado, os veículos não podem estar a todo momento em todo lugar.

Por tudo isso, nunca se produziu ou se consumiu tanto conteúdo jornalístico. Há muita porcaria nessa produção, mas também há muito material de altíssimo nível. E isso vale tanto paras as produções de indivíduos humildes quanto para veículos centenários.

Portanto, ao contrário do que pregam os arautos do apocalipse, o jornalismo-cidadão e as mídias sociais não são concorrentes do jornalismo tradicional, e muito menos adversários do bom jornalismo. O que eles fazem –isso sim– é pressionar os veículos a adotar novos formatos de produção e de distribuição de seu noticiário de qualidade, e criar novos modelos de negócio. Infelizmente eles não têm conseguido se adaptar a esse mundo pós-tsunami.

 

PS: Essa é a última temporada de The Newsroom, supostamente por outros compromissos de Sorkin. Terá apenas seis episódios. É uma pena: essa série deveria ser usada como material didático em faculdades de Jornalismo.

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A falta de inovação do Mídia Ninja

 

Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5 - Foto: Reprodução

Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5

Desde as megamanifestações que sacudiram o Brasil em junho, muito se fala sobre o Mídia Ninja, um grupo de jornalismo que tem sido incensado como revolucionário em seus formatos editoriais e de financiamento. Cheguei até a ter a esperança de que a cambaleante “mídia tradicional” poderia aprender algo com eles. Mas acabei concluindo que, na verdade, as propostas dos Ninjas não têm nada de inovadoras.

Os líderes do movimento, Bruno Torturra e Pablo Capilé, tentaram explicá-las no Roda Viva do último dia 5. Durante grande parte do programa, os entrevistadores se concentraram em como o movimento se financia, e não faltaram sugestões de que os Ninjas seriam, na verdade, aparelhados pelo PT. Não entrarei aqui na questão política: quero debater o que eles estão trazendo para o jornalismo.

Assistindo à entrevista, concluí que a o movimento está infelizmente muito longe de um caminho viável. Suas propostas me lembraram de visões românticas e às vezes inocentes típicas das start-ups de tecnologia que naufragam com uma boa ideia nas mãos.

A principal falha na proposta dos Ninjas é depositar pesadamente no público a responsabilidade pelo financiamento da produção jornalística. Curiosamente isso não é diferente do que propõem os donos dos grandes veículos, principalmente da mídia impressa, que vem sofrendo de maneira mais dramática com o naufrágio do seu modelo de negócios.

Claro que o ideal é que qualquer jornalismo seja financiado pelo seu próprio público, quanto mais, melhor. Assim garante-se um dos valores mais caros da atividade, que é a sua independência. Mas, como disse acima, calcar seu modelo de negócios nisso demonstra que os Ninjas terão que mudar de ideia rapidamente se não quiserem desaparecer. E o próprio Bruno admitiu no programa que só pensará em vender anúncios a empresas, quando “o dinheiro público, DO público (ops, a falta inicial dessa contração foi um ato falho?) fracassar”. Oras, é um modelo que então já prevê o seu fracasso?

Essa tentativa de convencer o público de canais online a pagar pelo conteúdo já vem sendo tentado de diferentes maneiras há uma década por gente muito boa (dos pontos de vista tecnológico e jornalístico), sem sucesso. As pessoas estão dispostas a pagar sim pelo que consomem, mas está cada vez mais difícil convencer alguém a pagar pelo conteúdo em si: elas pagam quando ele faz parte de algo maior, de um serviço que transcende o jornalismo na maneira como ele se insere em suas vidas.

A incapacidade de entender isso é o que está matando, por exemplo, os jornalões, que veem seus assinantes e anunciantes diminuindo continuamente. Mas eles ainda têm algo nas mãos, pois partiram de um grande volume construído historicamente. No caso dos Ninjas, que estão partindo do zero, correm o risco de fazer um “microjornalismo” para 300 ou 400 pessoas, como os shows dos artistas incubados pelo Fora do Eixo, movimento irmão do Mídia Ninja focado em atividade artísticas. Nesse caso, perdem outro valor importante para o jornalismo, que é a representatividade social. Não se faz jornalismo apenas para seus colegas, para quem pensa igual a você ou para quem já conhece a história: jornalismo deve ser feito de maneira ampla, para a sociedade.

Jornalista cidadão

Os Ninjas se apoiam em uma meia verdade, quando dizem que é possível fazer jornalismo com baixos custos. A parte em que isso é verdade acontece justamente em coberturas como as realizadas nas manifestações de junho, que tornaram o grupo famoso. Nesse caso, basta sem a pessoa certa, no lugar e na hora certos. Com celulares, é possível sim fazer esse tipo de bom jornalismo a um custo baixo.

O melhor exemplo disso para mim não é de hoje e nem é dos Ninjas. Ele aconteceu em 26 de dezembro de 2004, após o tsunami que devastou o sudeste asiático, principalmente a Indonésia. Naquele desastre, alguns sobreviventes realizaram uma grande cobertura jornalística usando seus celulares (que eram muito mais primitivos que os atuais), praticamente a única coisa que continuou funcionando após a tragédia. A grande mídia demorou incrivelmente um par de dias para perceber o que havia acontecido naquele lado do mundo, desembarcando atrasada (e em massa) para sua cobertura, como a cavalaria chegando e tocando sua corneta, depois que pioneiros e índios já tivessem se massacrado.

E justamente aí reside a metade falsa da premissa do movimento. Sim, tanto os Ninjas nas manifestações de junho, quanto os sobreviventes do tsunami realizaram uma cobertura de qualidade a custos baixos. Mas e se ninguém tivesse feito isso naquele 2004 indonésio e restasse à grande mídia executar essa tarefa, ainda que tardiamente? Custa muito dinheiro mobilizar rapidamente uma grande equipe e enviá-la ao outro lado do mundo para fazer jornalismo. E isso acabou acontecendo em um segundo momento, de maneira complementar ao trabalho inicial dos sobreviventes.

Vale ressaltar outra diferença entre o Mídia Ninja e iniciativas típicas de jornalismo cidadão, como no caso do tsunami de 2004. Os Ninjas querer fazer parte da noticia, ao invés de noticiá-la. Isso ficou claro quando seus líderes disseram no Roda Viva que filmaram detalhes das manifestações e fizeram entrevistas específicas para deliberadamente proteger os manifestantes.

Não há nada de errado em se fazer isso, desde que seja como manifestante, e não como jornalista. Nesse segundo caso, deve-se fazer a sua cobertura para apurar os fatos, e eles sempre têm muitos lados. Por mais que odeiem os policiais que estavam descendo a borracha nas pessoas, eles devem ser ouvidos para que deem a sua versão dos acontecimentos. Assim como os manifestantes pacíficos, os black blocs, os políticos, o cidadão que estava lá só de passagem. Todos eles têm sua versão dos mesmos fatos, e devem ser ouvidos. Sem isso, o público, mal informado, se afasta da verdade, e o trabalho vira antijornalismo.

A contribuição dos Ninjas

Então o Mídia Ninja não inova em nada? Penso que não. Mas eles trouxeram sim uma importante contribuição. Não por terem inventado algo novo, mas por terem resgatado um princípio importantíssimo do jornalismo que anda meio esquecido nas grandes redações e que a nova geração de colegas pouco viu: uma reportagem destemida, que, para apurar uma notícia, vai até o fim, pensa de maneira criativa e até impertinente, e que não se deixa intimidar.

Incentivados por uma política de redução de custos que prefere que os jornalistas saiam pouco das Redações, os grandes veículos se transformaram em espaços de denuncismo, insuflados por fontes com interesses nem sempre nobres ou confiáveis. E essa prática condenável divide o espaço com um jornalismo chapa-branca, com pautas políticas ou empresariais sonolentas, com uma mesmice chata e acomodada. Até a opinião dos veículos, fora de assuntos políticos, parece anêmica.

A chamada “grande imprensa” deveria prestar atenção a essa turma que “vai para cima” apenas com um celular na mão. Não para desprezar os seus erros, mas para resgatar com eles o que perderam ao longo dos anos. E –sim– se reinventar.

Nesse caso, um novo, sério e robusto jornalismo poderia surgir das cinzas do cruzamento dos veículos centenários e dessa nova turma. Se isso acontecer, o Mídia Ninja terá dado a sua contribuição à sociedade, afinal.

A quem (ou para que) serve a mídia?

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Nas manifestações que vêm sacudindo o país nos últimos dias, entre suas diferentes bandeiras, demandas e aspirações, uma delas me chamou a atenção particularmente: fora imprensa! Poderíamos pensar que se trata de mais uma reação a tudo que representa um poder instituído, e a mídia certamente se enquadra nisso. Porém, analisando melhor, o buraco é mais embaixo: a população não se sente mais representada pela imprensa. E isso me disparou um alerta.

Nas minhas andanças por esse mundão, pude comprovar a máxima de que uma sociedade é tão mais evoluída quanto mais forte e independente é sua imprensa. Só assim, a sociedade pode ter uma contraposição às ideias hegemônicas difundidas por qualquer governo e ver os fatos de diferentes ângulos. Não é a toa que governos com vocação autoritária tentam cercear ou controlar a imprensa, valendo-se de meios legais ou não, exatamente como temos visto na América Latina na última década.

No Brasil, os veículos que se consolidaram como “grande imprensa” não tiveram origem como representantes de suas comunidades. Os mais antigos eram ligados a oligarquias, como o Estadão, ou até mesmo defendiam o recém-deposto Império, como o Jornal do Brasil. A Folha até que surgiu com a intenção de informar a crescente massa urbana de São Paulo, mas a maioria, nas diferentes mídias, foram apenas títulos lançados com objetivos empresariais (o que não é um problema, que fique claro).

Mas isso é muito diferente do nascimento da mídia nos EUA, intimamente ligada à comunidade onde estava cada veículo. Basta pensar nos estabelecimentos típicos de qualquer pequena cidade americana no século 19: o xerife, o saloon, o ferreiro, o hotel e o jornal. A função deste último era informar sua comunidade sobre o que acontecia nela mesmo e no resto do mundo. E o mais interessante é que ele era mantido pela própria sociedade que representava.

Apesar dessa diferença, esses grandes veículos brasileiros sempre trabalharam como agentes das liberdades e defensores do país (diferentemente de governos), trabalhando bem para seu desenvolvimento. Mas, de uns 20 anos para cá, algo aconteceu e os interesses empresariais próprios começaram a falar muito alto, interferindo de uma maneira cada vez mais decisiva –e escancarada– na linha editorial, principalmente nas revistas semanais de informação. Tais interferências começaram a afugentar leitores e abriram espaço para movimentos politizados de “resistência”, como os que passaram a classificar os grandes veículos como integrantes do “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”).

Até então, esse descontentamento com a mídia não aparecia com tanta força: na maioria das vezes, essas discussões acabavam restritas aos próprios jornalistas, não chegando às massas. Mas aparentemente isso mudou, o que é muito preocupante, pois, se uma imprensa livre e forte é essencial para uma sociedade melhor, como grupos que estão indo às ruas com esse objetivo podem pedir o “fim” da mídia?

O pior de tudo isso é que os responsáveis por esse sentimento são os próprios veículos, pela desvirtuação descrita acima. A sociedade está deixando de se sentir representada por eles, e seus jornalistas estão perdendo a credibilidade. Basta ver o que aconteceu com Caco Barcellos, um expoente do jornalismo nacional, que foi expulso do Largo da Batata no dia 17 e levou um soco na Praça da Sé dois dias depois. Por mais que o “alvo” talvez fosse a Rede Globo, o profissional foi a vítima. E, para um jornalista, tão ruim quanto uma agressão física, é a perda de sua credibilidade, seu bem mais valioso.

Apesar de toda essa animosidade, os movimentos têm sido palco de excelentes reportagens, exemplos do melhor do jornalismo, produzidas por profissionais ou pessoas que simplesmente registravam brilhantemente o que estavam presenciando. É o tal jornalismo-cidadão, incompreendido (e combatido) pelos grandes veículos. Essa resistência, aliás, ajuda a explicar o distanciamento das redações de seu público. E isso foi muito bem descrito em artigo de Otavio Frias de Oliveira, diretor de redação e um dos donos da Folha, escrito para justificar o lançamento de uma “nova Folha”, o “jornal do futuro”, no dia 22 de maio de 2010. Segundo ele, “os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas.” E conclui: “para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência.”

Não bastasse esses veículos estarem morrendo pela sua absoluta incompetência em criar um novo produto e modelo de negócio adequados à nova maneira como as pessoas se relacionam (ou seja, não apenas consomem, mas também produzem) com conteúdos jornalísticos,  eles se afundam ainda mais na lama por entender cada vez menos as mudanças editorias que lhe são impostas. Não estou defendendo de forma alguma a “inconsequência”, falta de apuração, pluralidade de informações. Mas não há mais espaço para o jornalismo palaciano, previsível, desengajado e organizado por interesses comerciais, que a grande imprensa vem produzindo.

Precisamos de uma imprensa forte e livre (inclusive para resistir a pressões dos poderosos). Mas ela precisa lembrar a quem ela serve.

O casamento do bom jornalismo com as redes sociais

Em seu mais recente artigo no Estadão, “Jornalismo, humildade e qualidade”, Carlos Alberto di Franco se vale de ideias do jornalista Rosental Calmon Alves, catedrático da Universidade do Texas em Austin (EUA), para construir uma interessante crítica sobre a atual maneira de se fazer jornalismo.

Rosental prega -corretamente- que as novas tecnologias e as redes sociais não deixam mais espaço para um jornalismo em que os leitores são passivos consumidores da informação. Hoje eles são atores no palco, que criam, discutem, produzem, divulgam e consomem a notícia. Di Franco parte desse ponto, conclamando os colegas a ouvirem seu público para criar um jornalismo que seja de fato construtivo e que vá ao encontro às necessidades informativas da população.

Nada mais correto e necessário. A imprensa vive uma crise de valores com raízes na década de 1990, quando atingiu o seu auge. No Brasil, foi um período em que colheu frutos de uma tardia profissionalização, que transformou os veículos em máquinas azeitadas que sustentaram a nossa democracia recém-reconquistada. Porém o ópio de ser o “quarto poder” levou muitos jornalistas e empresas de comunicação a esquecerem a essência de nosso ofício e para quem, de fato, trabalham.

Deitados em berço esplêndido, não perceberam uma revolução social e tecnológica que se formava à sua volta -muitas vezes dentro das próprias Redações- onde o cidadão comum ganhava um poder nunca antes saboreado: falar e ser ouvido. Mais de cinco séculos depois de Gutenberg e sua prensa móvel terem viabilizado a disseminação de conteúdo para a multidão, a Internet permitiu que a própria multidão se fizesse ouvir, indivíduo por indivíduo.

Resultado: os grandes veículos perderam a capacidade de encantar seu público. Muitos passam por crises de credibilidade, o valor mais caro da imprensa. Sem o apoio popular -cada vez mais as pessoas se fiam em seus amigos ou mesmo na massa anônima para se informar- as empresas entram em crise. Na Europa e principalmente nos EUA, assistimos à quebradeira de jornais centenários.

Di Franco dá um dos caminhos para a imprensa sair desse buraco: humildade para atender e ouvir o leitor e qualidade no trabalho jornalístico. Eu me permito acrescentar a isso que as empresas precisam usar a Internet de maneira construtiva, justamente na sua capacidade essencial de cada indivíduo participar da criação da experiência informativa de todos os demais.

Jornalistas precisam aprender a usar isso não apenas para se pautar, mas também para entregar a cada pessoa em particular a informação que ela precisa. Nenhuma pessoa ou empresa é capaz de fazer isso sozinha, mas a combinação do que cada um é com o que faz e com quem se relaciona pode desatar esse nó górdio de uma época em que “meios de comunicação de massa” se transformaram em “meios de comunicação de um”.

Que fique bem claro: não estou advogando o fim do jornalismo profissional, apesar de reconhecer muitos méritos do “jornalismo cidadão”. Como disse acima, o bom jornalismo é ingrediente fundamental para uma sociedade evoluída e robusta. Mas prego o fim do jornalismo rasteiro, palaciano, meramente denuncista, fácil. Para isso, os bons editores e repórteres são essenciais. São eles que fazem a diferença na imprensa! Quanto à distribuição eficiente do resultado de seu trabalho, os próprios internautas podem cuidar disso.

Bem-vindos ao novo jornalismo!

O futuro do jornal do futuro

A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

Ontem, domingo, eu fiz duas coisas que não fazia há muito tempo: li a Folha de S.Paulo em papel, e ainda por cima paguei por isso! Fui até a minha banca preferida e comprei o diário, que me surpreendeu logo de cara, pois era uma edição que não tinha primeira página. Quer dizer, ela estava, na verdade, quatro páginas depois da publicidade associada ao “jornal do futuro”, que estreou nesse domingo, e que me motivou a comprar o diário.

Tinha que ver de perto o que era esse tal de jornal do futuro, sobre o qual vinha sendo bombardeado por publicidade em várias mídias há dias. Tinha que analisar isso com isenção. E tenho que admitir que guardava uma esperança de que a Folha, onde minha vida como jornalista começou, realmente tivesse conseguido criar algo inovador, um verdadeiro jornal do futuro, algo que nenhuma grande casa editorial ainda conseguiu fazer convincentemente no mundo.

Li o editorial, o ombudsman e uma pequena retranca no primeiro caderno sobre o assunto. Li o caderno especial detalhando a novidade. Assisti ao making-off de 18 minutos (muito bem produzido, por sinal, mas que não possui um link externo como os do YouTube: DUH!). Naveguei pela Folha.com (novo nome da Folha Online). Vim, vi, mas não venci… Minha esperança virou desilusão. O jornal do futuro não passava de um miserável golpe de marketing, que me fez comprar o jornalão de domingo.

Justiça seja feita: duas importante mudanças aconteceram. A primeira: consolidou-se a integração entre as redações “online” e “impressa”, algo que não dava para acreditar que ainda não tinha sido feito, em nome da qualidade, agilidade e economia. Todo veículo jornalístico deveria integrar todas as equipes de suas diferentes mídias (um viva à BBC!). A segunda mudança é a reforma –mais gráfica que editorial– que literalmente salta aos olhos. Não se pode negar que, nesse quesito, o trabalho foi bem feito, conduzido por um pessoal muito bom.

Mas continuei procurando o tal jornal do futuro. E a última coisa que li foi o artigo de Otávio Frias Filho, que abre a última página do caderno que explica as mudanças. E fiquei bastante triste ao constatar que o que existe, por trás de todo esse verniz, é uma mentalidade de jornal do passado.

No meio de várias afirmações corretas, o diretor da Folha reforça as paliçadas em torno de seu castelo. Rejeita as virtudes do jornalismo cidadão, classificando-o com termos como “qualidade discutível”, “pirataria”, “de alcance limitado” ou “eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconseqüência”. Mais que isso, fez coro na banda de Rupert Murdoch, cantando seu refrão de que bom jornalismo só pode ser feito depois de muito investimento. Em nenhum momento, discutiu mudanças no seu modelo de negócios ou modelo editorial.

Onde está o jornal do futuro nessas palavras? Não sou um defensor cego da blogosfera: tenho consciência que se encontra nela muito mais coisas ruins que boas, mas existem coisas MUITO boas ali, jornalismo de altíssima qualidade produzido a um custo irrisório. Por outro lado, estou cansado de ver a grande imprensa, portanto os eleitos para produzir jornalismo de qualidade segundo a tese de Otávio, dando contínuas demonstrações de antijornalismo, como a capa da Veja desta semana (de novo!).

Na sexta passada, conversava com o ex-country manager local de um dos maiores fabricantes de computadores do mundo sobre o início do jornalismo na Internet. Contei-lhe de como foi tão difícil colocar a mesma Folha na Web lá em 1995, ao que ele me respondeu: “mas você deveria ter conversado com o Luís (Frias), que rapidamente entenderia a sua proposta.” E reproduziu algo que o mesmo Luís lhe disse na época, uma máxima do jornalismo impresso que insistem em transpor para a Internet: “as pessoas ainda querem que alguém lhes diga o que devem ler”.

È verdade, a mais absoluta verdade. A “desgraça”, para nós jornalistas, é que, já há alguns anos, não detemos mais a exclusividade desta função. Cada vez (muito) mais, quem determina o que nós “devemos” ler são os nosso amigos, as pessoas em quem confiamos. Ganha relevância no nosso dia a dia o que essas pessoas, em quem confiamos, consideram relevante, em um efeito cascata interminável. E o Google e o Facebook estão aí para não me deixar mentir.

Fica aqui, portanto, o meu triste (mas não solitário) protesto ao “jornal do futuro”. Esperava –desejava verdadeiramente– que a Folha tivesse conseguido romper essa mentalidade revanchista, criando algo que realmente pudesse indicar um caminho que a mídia –e não apenas a impressa– pudesse trilhar para sair dessa crise em que ela mesma se meteu por turrona. Mas não. Perderam a oportunidade. Nem me dão jeito para incluir o seu belo making-off aqui neste post. E, portanto, não vou dar link para ele.

Afinal, de onde vem a imprensa livre?

Hoje comecei o dia lendo um artigo de Emir Sader, no Comunique-se, que propõe discutir se é possível existir imprensa livre feita por empresas privadas. O sociólogo argumenta que, como qualquer empresa, as de comunicação são movidas pela busca do lucro e que, portanto, estariam vinculadas aos interesses das elites econômicas e de seus anunciantes, o que inviabilizaria a liberdade de imprensa em suas fileiras.

É um bom ponto, e bem exposto. Mas terminei de ler o artigo com uma pergunta que o autor não discutiu convincentemente: afinal, então de onde viria a assim chamada imprensa livre? O máximo que Sader disse foi, no penúltimo parágrafo, que ela “tem que ser pública, de propriedade social e não privada”.

Respeitosamente discordo. Iniciei a minha carreira há 16 anos na Folha de S.Paulo, que hoje passa, junto com outros nomões da imprensa, por uma vergonhosa crise de credibilidade (o que estaria de acordo com o proposto por Sader). Mas foi interessante trabalhar lá no momento em que ainda existia alguma inocência do “foca”, para poder ver, por baixo de toda a sujeirada, como é possível fazer jornalismo sério e –sim– livre em uma empresa privada, se assim você se propuser.

Ao contrário do que sugeriu Sader, o último lugar onde a imprensa será livre é nas mãos do poder público. Pode até ser de qualidade: a TV Cultura de São Paulo é um bom exemplo que se mantém há décadas, apesar de ter agonizado por falta de verbas há alguns anos. Mais recentemente, vemos a TV Brasil, outra boa iniciativa. Mas obviamente elas não são livres.

Uma alternativa interessante é a da britânica BBC: apesar de possuir 12 superdiretores indicados pelo governo, eles não têm função executiva, atuando como uma espécie de board. A empresa é comandada de fato por outros diretores, executivos, e é financiada por uma espécie de imposto pago por todos os domicílios do Reino Unido que possuem televisão, o que lhe garantiu polpudos 3 bilhões de libras em 2005, fora qualquer outra renda que tenha obtido.

Mas o ponto é: não há interferência governamental na programação da BBC, condição crítica para sua qualidade e independência, que se tornaram referência internacional. Quando essa ingerência acontece, a imprensa vira joguete político e peça de campanha, confundindo-se com publicidade oficial, como a que foi parodiada no vídeo acima, do governo da Bahia.

Uma imprensa apenas do governo ou submissa a ele consegue ser pior que uma imprensa em que isso seja equilibrado por uma versão privada, mesmo que, no meio dela, apareçam veículos vergonhosos, como a Veja. Pois, em repúblicas de bananas como as nossas, um governo sem limites se deteriora em ditaduras chavistas, destruindo o país aos poucos. Já andei por vários países da América Latina, e a relação entre uma imprensa frágil, governo forte (e populista) e país depauperado é gritante.

Existe ainda uma terceira via, que sequer foi cogitada por Sader, e que pode ser a resposta à pergunta que dá o título a esse post: o jornalismo-cidadão, que floresce cada vez mais na Internet. Só não o coloco ainda como A resposta, pois, como seria de se esperar, misturam-se na Grande Rede jornalismo de primeiríssima qualidade com iniciativas antijornalísticas. Afinal, qualquer um pode escrever nela o que bem entender, sem se preocupar com a seriedade da apuração ou da produção do material. E também aí existem interesses, como no caso das empresas e do governo. Mas nessa (imensa) pluralidade pode-se encontrar a verdade. E ferramentas como o Google News ou Wikinews podem servir para colocar ordem na “bagunça”. Sader passou longe disso.

Quando o Twitter informa mais que o jornal

Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

“Eu não uso a palavra jornalismo. eu não uso a palavra mídia. Não uso a palavra notícia. Não acho que essas palavras signifiquem alguma coisa hoje. Elas definem o mundo editorial do século 20. Hoje, são uma barreira. Elas estão bloqueando nosso caminho, como uma carruagem sem cavalos.”

Com essas palavras, Chris Anderson começa a responder as perguntas de Frank Horni, da Der Spiegel. Para o editor-chefe da Wired e autor do best-seller A Cauda Longa, jornais, revistas, televisão, a chamada “mídia tradicional” perderam o sentido de ser. Ele diz não consumir mais jornais e só lê uma reportagem do The New York Times se ela chegar até ele pelo Twitter, por exemplo, depois de passar por um “filtro pessoal” de pessoas em quem confia. O que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo: apenas isso agora pode ser produzido e distribuído por qualquer um. “O problema não é que a forma tradicional de escrever não vale mais. O problema é que isso hoje é a minoria. Costumava ser um monopólio.”

Anderson é um conhecido provocador profissional, mas há verdade no que ele diz. A Internet virou de pernas para o ar o modelo de negócios de várias indústrias, como a fonográfica. A bola (de neve) da vez é justamente a mídia, cuja vítima mais evidente é a impressa. A possibilidade de qualquer um produzir e distribuir material jornalístico de qualidade afetou não apenas a economia dos grupos de mídia, mas está redefinindo a maneira de se produzir jornalismo, que, cada vez mais, é analítico e instantâneo, gerado com os recursos disponíveis por quem estiver juntos dos fatos.

O que falta ainda ao jornalismo-cidadão é organização editorial. Por mais que o volume gigantesco de produção possa resultar em qualidade no final, por mais que a relevância concedida pela audiência a cada peça jornalística seja capaz de definir o que deve ser a manchete (e o Google News está aí para mostrar que isso funciona), cada blogueiro escreve sobre o que quer, o que gosta e o que pode. Falta o “norte” a ser perseguido, nem sempre visível para o cidadão comum. E falta recursos para produzir reportagens caras. Por isso, ao contrário do que Anderson provoca e do que Lula sugeriu há pouco mais de um mês no 10º Fórum de Software Livre, o papel e a importância de uma indústria de mídia organizada continuam firmes e fundamentais para a sociedade.

A verdade nas afirmações do jornalista é que o formato, a distribuição e o modelo de negócios precisam ser reinventados. Ninguém ousaria dizer que a música perdeu a sua importância, mas nunca se venderam tão poucos álbuns quanto hoje. Isso é algo que não parará de diminuir até que as pessoas deixem de vez de comprar CDs, para desespero da indústria fonográfica, que não conseguiu ainda encontrar um modelo realmente substituto os disquinhos prateados. Por outro lado, cantores e bandas, igualmente afetados por essa onda, foram mais rápidos e já perceberam que seus ganhos hoje devem vir mais de shows que de CDs. Nesse cenário, a Internet deixa de ser uma inimiga e passa a ser divulgadora de seus trabalhos.

O que sobra aos jornalistas? Acredito que revistas e jornais, no atual formato, sejam os seus “CDs”. Assim como as empresas, os profissionais também precisam redefinir o seu modelo de negócios. Não quer dizer que o jornalismo tenha que ser um emprego de meio-período ou um hobby, como sugere Anderson (até pode ser), mas é improvável que ele continue como é hoje. Hora de os coleguinhas botarem os miolos para funcionar, caso não queiram se tornar obsoletos pela “cauda longa informativa”.

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