O que fazer com “computador de US$ 100”, que agora é tablet?

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

Na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA) na semana passada, a OLPC finalmente exibiu a esperada terceira geração de seu equipamento. Batizada de XO 3, o novoo computador educacional idealizado por Nicholas Negroponte chega no formato de tablet e, pela primeira vez, pode cumprir uma de suas bandeiras mais ambiciosas: custar US$ 100… ou menos!

O equipamento, visto nas fotos, é bastante grosso, se comparado aos tablets comerciais, mas tem uma tela Pixel Qi de 8 polegadas com boa visibilidade mesmo sob o sol, com resolução de 1024 x 768 pixels. Por baixo dela, traz um processador Marvell Armada PXA618, 512MB de memória RAM e 4GB de armazenamento. Roda o sistema operacional Sugar, uma“sabor” de Linux desenvolvido pela OLPC que, na minha opinião, não era bom nem nos laptops e ficou ainda mais inadequado em um tablet. Mas o XO 3 –felizmente– também pode funcionar com Android, muito melhor para um equipamento que pretende promover a inclusão digital.

Como todos os equipamentos propostos pela fundação, o XO 3 traz coisas inovadoras que tornam o preço baixo ainda mais surpreendente. Promete ser à prova d’água e bastante resistente para aguentar o tranco da criançada (a capa protetora em silicone também ajuda). Alguns itens opcionais (que devem aumentar seu preço) são interessantes para comunidades carentes, foco da OLPC, como um carregador ativado por uma manivela e até mesmo uma tela que carrega o tablet com energia solar.

Entrando na sala de aula

Feitas as apresentações formais, vem a pergunta: o que fazer com o XO 3 quando ele chegar às salas de aula (o que deve acontecer em algum momento neste ano)? As propostas a seguir valem para qualquer tablet.

É curioso colocar os olhos no equipamento justamente no mês em que os pais estão às voltas com as listas de material escolar. Diante de tantos livros, seria ótimo se todos eles estivessem disponíveis aos estudantes, digital e instantaneamente, em seus próprios tablets. Por mais que fossem meros PDFs das obras, já seria uma experiência melhor pela portabilidade. Sem falar que pesariam menos (nas mochilas dos alunos e nos bolsos dos pais). Algumas instituições de ensino, como a Universidade Estácio de Sá, já vêm fazendo essa transposição simples do material didático para tablets.

Mas isso é pouco! É muito desperdício de uma plataforma que está intuitivamente redefinindo a maneira como usamos um computador. Com tablets e smartphones, estamos aprendendo a ter acesso continuamente a todo tipo de informação, seja para lazer, para estudo ou trabalho. Consultas, que antes exigiam o deslocamento até a biblioteca, podem ser feitas instantaneamente e em qualquer lugar, até mesmo à biblioteca da escola (quando o serviço é oferecido, claro).

Mas essa plataforma só mostra todo o seu potencial com aplicativos didáticos que sejam criados para realmente tirar proveito disso, o que exige investimento. Como já foi discutido aqui, as escolas de ponta já estão trabalhando nisso, seja na avaliação de soluções (internas e externas), seja na formação específica de seus professores, algo crítico para o sucesso de qualquer empreitada.

As editoras de material didático infelizmente ainda oferecem produtos bastante tímidos. Uma pena: talvez seja tarde quando acordem. Pode-se produzir soluções educacionais muito interessantes e inovadoras combinando um conteúdo altamente comoditizado com uso inteligente da tecnologia. Isso sem falar na “concorrência” de professores que, na sala de aula, aproveitam criativamente, por sua própria iniciativa e mérito, produtos criados para outros fins. Que tal estudar lançamento balístico com Angry Birds?

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Tablet vazio não para de pé

No dia 1º de setembro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que despejará “centenas de milhares” de tablets nas escolas públicas já no ano que vem. A propaganda ficou ainda mais bonita por ter sido feita em plena Bienal do Livro e arrematado com a exigência de que os equipamentos tenham altas “taxas de nacionalização”. Só não respondeu à pergunta essencial: para que?

Sou um grande defensor do uso da tecnologia na educação. Mas não concordo com entregar equipamentos sem o menor planejamento pedagógico ou treinamento de todos os envolvidos, como parece ser o caso. O discurso político de Haddad rendeu boas manchetes, mas é tão vazio quanto os tablets que ele propõe colocar nas escolas.

Claro que todo mundo quer ter um tablet hoje em dia. Desde que Steve Jobs popularizou o conceito com o primeiro iPad, esses equipamentos se tornaram objeto de desejo. Mas será que eles são o melhor equipamento para a educação? A mobilidade e a interface são realmente muito bem-vindas, mas a mesma interface pode ser um problema. Há pouco software que seja realmente desenvolvido para ela, e a simples execução ali do que existe para computadores “convencionais” nem sempre traz bons resultados em tablets. Por isso, os R$ 70 milhões que o MEC afirma ter investido no ano passado na produção de conteúdos digitais podem não servir muito.

Colégios A+ de São Paulo já estão tateando os tablets em sala de aula, sem trocadilhos. É o caso do Dante Alighieri e do Pueri Domus. Mas, nos dois casos, as escolas corretamente começaram o trabalho na coordenação pedagógica, com foco no uso do equipamento e no treinamento dos professores.

Que dizer de escolas públicas, que têm laboratórios de informática montados há anos, e até hoje não os utilizam? Por que isso acontece? Além de motivos bizarros, como diretores que os mantém fechados com medo que os alunos quebrem os equipamentos (!!!), o principal são professores que não conseguem colocar aquela “coisa” dentro de sua aula. Não se trata de não dominar o equipamento (o que de fato é outra enorme barreira para boa parte dos professores), mas sim como transformar aqueles programas, a Internet e recursos multimídia em parte de seu planejamento de aula.

Portanto, esse discurso de Haddad chega a ser um deboche do uso de tecnologias no ensino público. Como acreditar nisso? E não é a primeira vez que ouvimos promessas desse tipo. O governo anterior, de Lula, havia prometido a compra de 50 milhões de notebooks educacionais, para o projeto UCA (Um Computador por Aluno), mas isso nunca se concretizou. Nem mesmo o primeiro “mísero” lote de 150 mil equipamentos conseguiu sair da fase de licitação.

Então a informatização de ponta nunca chegará às escolas públicas? Claro que sim! É só falar (muito) menos e agir (um pouco) mais.

O “computador de US$ 100” virou o “tablet de US$ 75”

A fundação One Laptop Per Child (OLPC) anunciou, no ultimo dia 27, que está substituindo a sua ideia de produzir notebooks educacionais a US$ 100 para crianças de países em desenvolvimento por outra, com um novo equipamento, um tablet nos moldes do iPad.

Batizado de XO 3 (por ser a terceira versão), a nova maquininha será produzida pela Marvell Technology Group a US$ 99, mirando uma meta de US$ 75 quando (e se) o ganho de escala de seu produto Moby, de onde o XO 3 será derivado, permitir isso. O objetivo seria chegar a isso para a próxima Consumer Electronics Show, que acontece em janeiro, mas a diferença entre o que o Moby é e o que o XO 3 promete ser sugere que isso não deve acontecer mesmo antes de 2012: Nicholas Negroponte, o idealizador da iniciativa e diretor do Media Lab, do MIT, quer que o XO 3 seja à prova d’água, todo em plástico resistente, mais fino que o iPad e tenha um processador de 8 GHz (o Moby roda a 1 GHz).

Mas a grande pergunta é: o preço de US$ 75 se tornará realidade algum dia, pelo menos dentro dos próximos anos? Pois, desde que foi proposto, ainda em 2005, o aclamado “computador de US$ 100” não passou de um slogan: a organização nunca conseguiu trazer o preço para abaixo dos US$ 200, mesmo tendo entregue mais de 2 milhões de máquinas pelo mundo.

A descrença do parágrafo anterior se deve à recorrente incapacidade de cumprir a maior de todas as promessas do projeto, sua grande bandeira: colocar um notebook educacional de US$ 100 nas mãos de todos os estudantes do mundo. É uma pena, pois, como defensor dos benefícios do uso da tecnologia na educação, torço para tudo que a OLPC proponha dê certo.

O próprio equipamento, mesmo a sua primeira versão, é excelente. Para este que lhes escreve, seu único problema é o sistema operacional Sugar, um “sabor” de Linux que traz uma interface que não se parece com nenhum outro sistema, seja Windows, MacOS ou mesmo outras distribuições do Linux. Para um equipamento de inclusão e educação digital, isso me parece contraditório. Mas aparentmente eles ouviram meus apelos: o XO 3 poderá rodar os sitemas Android, Windows Mobile e Ubuntu, além do Sugar.

Na semana passada, participei do II Web Currículo, seminário na PUC-SP que discutiu o uso de tecnologias na educação. O XO foi mencionado em vários momentos, inclusive na última palestra, de Paulo Markum, que teceu críticas à proposta. Para o jornalista, a intenção do Governo Federal de comprar 50 milhões de notebooks educacionais (outra promessa jamais realizada, nem de longe) investiria uma enorme soma de recursos públicos em equipamentos que, em pouco tempo, estariam obsoletos. Para ele, seria muito mais interessante usar esse dinheiro para financiar iniciativas privadas, em escolas e até mesmo lan houses, que garantiriam a atualização do parque.

Curiosamente, o grande benefício da iniciativa da OLPC foi jogar os holofotes sobre a questão de tecnologia na educação e a possibilidade de se obter grande ganhos pedagógicos com isso, e como isso pode ser maximizado com alunos usando, cada um, um computador. Um outro grande benefício foi propor ao mercado um novo modelo de equipamento com características específicas a baixo custo, que inspirou o segmento dos netbooks, um grande sucesso de mercado (não educacional). Talvez faça o mesmo agora com os tablets, derrubando os seus preços. Se isso acontecer, é possível que vejamos equipamentos comerciais chegando em maior quantidade às escolas. A tarefa estaria cumprida.

Uruguai mostra como distribuir notebooks a alunos

Recebi hoje o vídeo abaixo (em espanhol), que resume o processo de distribuição de notebooks educacionais aos alunos do Uruguai e seu estágio atual. Vale a pena investir nele 12 minutos do seu tempo.

Mesmo considerando que o Uruguai tem uma escala muito menor que o Brasil -o que facilita imensamente a implantação de um projeto dessa natureza- o fato é que eles já têm 170 mil alunos individualmente com computadores (42,5% do total), 91% deles com conexão à Internet e 18 mil professores capacitados (ou em processo). Interessante também notar que a máquina adotada é o XO, do projeto One Laptop Per Child, de Nicholas Negroponte, que no Brasil não consegue vencer pregões do governo.

Mas o que me chamou mais a atenção é que as crianças efetivamente levam o computador para casa, exatamente a proposta original da iniciativa, visando a inclusão digital de toda a família. Sensacional! No Brasil, as máquinas deverão ficar restritas ao ambiente escolar, pois há um grande temor de roubo dos equipamentos. Foram criados dispositivos para desestimular esse crime, como o notebook ser automaticamente inutilizado caso não se conecte à rede educacional por um período de tempo razoável. Ainda assim, não deve mesmo ir além dos muros da escola. É uma pena, pois o Uruguai demonstra que a inclusão digital da família realmente acontece.

Só senti falta no vídeo de saber como é a experiência pedagógica com os equipamentos. A peça, muito bem editada com o intuito de ser uma bela propaganda, se resume a mencionar atividades que os alunos podem fazer com o equipamento, mas não como isso se integra ao dia a dia da sala de aula, o que é crítico e pode separar uma iniciativa bem-sucedida de um fracasso retumbante.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o primeiro dos pregões, para aquisição de 150 mil máquinas, está empacado por disputas judiciais. Que lástima!

Não quero mais brincar de computador por aluno

A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

Parece bizarro, e talvez seja mesmo! A Comsat, representante no Brasil da indiana Encore, que ganhou em dezembro a licitação para a venda ao MEC de 150 mil laptops educacionais do modelo Mobilis, protocolou ontem uma ação no TCU (Tribunal de Contas da União) pedindo o cancelamento do pregão que venceu. Jackson Sosa, procurador da empresa, disse ao jornal Valor Econômico que eles “cansaram” de tentar dar prosseguimento à fase de testes de homologação do produto e que o Ministério da Educação estaria ignorando a companhia. “Não nos interessa mais levar esse processo adiante”, afirmou.

Sei… Você jogaria fora uma fatura de mais de R$ 82 milhões? É o que a Comsat está dizendo que quer fazer. Mas como escrevi em outro post aqui, no dia 5 de maio, o Mobilis teria sido rejeitado nesses mesmos testes, realizados pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Se isso se confirmasse, o que poderia acontecer a qualquer momento, o segundo colocado no pregão, no caso a CCE, com seu Classmate CM52C, seria chamada. Por outro lado, se o pregão for cancelado, todo mundo volta ao zero.

O MEC se defende e diz que já concluiu a sua análise, mas ainda assim enviou os equipamentos para o Inmetro para uma segunda opinião. E o tempo vai passando… Apesar de o computador por si só não resolver os problemas da combalida educação brasileira, a proposta do projeto UCA (Um Computador Por Aluno), versão tupiniquim do programa One Laptop Per Child, idealizado por Nicholas Negroponte, é bem-vinda e pode sim render bons frutos, especialmente à população carente, cujos filhos dificilmente têm acesso à informática. Ainda que não seja usado didaticamente, a simples inclusão digital já cria cidadãos melhores. Assim sendo, espero que o pregão seja mantido, mas que a CCE seja chamada logo! Não quero negar eventuais direitos da Comsat, mas esse seu comportamento é no mínimo suspeito, típico de quem quer ir para a casa com a bola só porque está perdendo na pelada.

(Nenh)um Computador por Aluno

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O leilão para compra de 150 mil notebooks educacionais para 300 escolas públicas de todo país deve fazer água de novo. Dessa vez, o modelo Mobilis, da indiana Encore, foi extra-oficialmente rejeitado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação, por não atender às especificações.

O mercado aguarda agora a confirmação oficial do MEC, mas a Comsat, representante da Encore no Brasil, já promete recorrer. Se se confirmar a desclassificação, a segunda colocada, a CCE, vence o pregão. Cada Mobilis foi oferecido a R$ 553, enquanto o Classmate da CCE, batizado de CM52C, sairia por R$ 666,60 a unidade. Muito acima, portanto, dos US$ 100 sugeridos por Nicholas Negroponte quando instituiu o programa One Laptop Per Child, que gerou no Brasil o Um Computador Por Aluno (UCA), “motivador” do referido pregão.

Na verdade, o buraco é mais embaixo. Não quero diminuir a importância de iniciativas como o UCA. Muito pelo contrário: acredito plenamente que o uso consciente de tecnologia pode auxiliar –e muito– o processo educacional. Mas as escolas são bastiões contra novidades, infelizmente. E, na linha de frente da resistência, estão os professores, despreparados e desmotivados. Completando esse quadro, estão desencontros do próprio governo –que promove patacoadas como liberar acesso à Internet a escolas que não têm computadores– e dos gestores das escolas –que mantém equipamentos trancados com medo de que sejam quebrados pelo uso ou até mesmo roubados.

Tenho conversado com muitos professores e gestores de escolas sobre o uso da tecnologia. Falo também com pesquisadores e empresários do setor no Brasil e lá fora. Está muito claro que de nada adianta despejar computadores em escolas com o perfil acima. Os alunos até seriam beneficiados em um processo de inclusão digital, pois, muito mais que seus mestres, eles são bem adaptados à cybercultura, mesmo em comunidades mais carentes (dentro de limites, claro).

Mas as máquinas não seriam ferramentas pedagógicas. Isso só acontecerá com software realmente educacional (pouco disponível no Brasil) –e não uns arremedos na tela de material impresso– e com o preparo dos professores e das escolas. E aí está o grande desafio, pois não é só transformar o professor em um apertador de botões. Ele continua sendo o principal ator do processo. A tecnologia pode ser uma formidável aliada na sala de aula, mas só depois de o professor se apropriar dela, trazendo-a para a sua aula, o seu dia a dia.

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