Por que The Daily não deu certo

Já não espanta mais ninguém o anúncio de um jornal centenário deixar de circular: a crise da mídia impressa se arrasta há anos (ontem The New York Times confirmou que iniciará um pacote de demissão voluntária). Mas hoje foi noticiado o encerramento de um jornal totalmente digital, isso sim algo menos comum. E não é um veículo qualquer: trata-se do The Daily, a tentativa de Rupert Murdoch transpor o seu modelo de jornalismo para o mundo digital, cuja última edição circulará no dia 15 de dezembro.

O produto foi lançado com grande exposição em fevereiro de 2011, alardeado como “o primeiro jornal apenas para iPad”. A promessa era interessante: criar um jornal diário de cobertura nacional, leitura fácil, com bons recursos multimídia e conduzido por uma Redação de primeira linha, com mais de cem pessoas. Tudo por uma assinatura de US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por ano. A parte técnica teve apoio da própria Apple e o investimento inicial foi de US$ 30 milhões. A expectativa era chegar a 500 mil assinantes em cinco anos.

Então por que o The Daily fechará suas portas antes de seu segundo aniversário?

A resposta é muito simples, e antecipei o motivo dois meses antes do lançamento do produto.

O problema é que The Daily tentou recriar, em uma plataforma extremamente inovadora, um produto e um modelo de negócios do século 19. Murdoch nunca escondeu sua aversão a produtos digitais moderninhos, que corroíam as margens de lucro dois jornais da sua News Corp. The Daily era sua aposta para demonstrar que podia perpetuar a fórmula nos tablets, que pareciam cair muito bem ao seu propósito.

Muita gente ficou de olho no experimento e até investiu nele. Afinal, se The Daily desse certo, ele poderia indicar um caminho de sobrevivência para uma combalida mídia impressa.

Mas não é isso que os usuários de tablets querem. The Daily poderia ser descrito como um jornal para quem não gostava de jornal em papel. Mas o que essas pessoas rejeitam não é o papel, e sim um produto que se atualiza apenas uma vez por dia, que exige assinatura de todo o seu conteúdo mesmo para quem quer consumir apenas algumas matérias, que não tira proveito das redes sociais, que sequer pode ser indexado pelo Google.

Ou seja, The Daily deu errado porque as pessoas rejeitam sua proposta, a de um jornal tradicional. Nesse caso, o tablet é apenas a mídia, assim como o papel. Portanto, podemos ironicamente explicar a crise dos jornais impressos com a derrocada do The Daily.

Some a isso a ascensão de produtos como agregadores, que são praticamente a negativa do modelo acima: um “veículo” continuamente atualizado, construído com conteúdos de diferentes fontes, organizado por assunto e pelas preferências do próprio usuário e de seus amigos, totalmente integrado a mídias sociais.

Curiosamente, os jornais combatem os agregadores, o Google Notícias, a blogosfera. Tudo em nome de perpetuar seu passado glorioso, rejeitado pelos novos públicos. Os jornais estão morrendo com seus velhos assinantes, literalmente. Não será transpor o passado para um tablet que mudará isso. Já que estavam prestando tanta atenção ao The Daily, deveriam aprender algo com ele afinal, ainda que na hora da morte.

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A aposta de Murdoch no iPad

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Nos últimos dias, a mídia especializada deu grande destaque ao novo veículo que Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal, está criando. Batizado de The Daily, o periódico deve ser lançado no início de 2011, será tocado por uma redação de cem jornalistas, alguns deles grandes nomes do mercado americano, e começa com uma injeção inicial de US$ 30 milhões.

Até aí, no big deal. O que torna The Daily realmente único é o fato de que ele será publicado apenas no iPad. Nada de versão na Web e muito menos em papel. Murdoch, um sujeito que, se pudesse, acabaria com a Internet só porque ela atrapalha o que ele realmente gosta de fazer, que são os jornais, e que vem buscando há meses (anos?) um modelo de negócios substituto para o papel, parece tê-lo encontrado no incensado tablet da Apple.

The Daily pode dar certo. Primeiramente porque o mogul australiano da mídia conta com o apoio do próprio Steve Jobs, CEO da Apple, para criar um produto que realmente tire proveito dos encantadores recursos do iPad, fugindo da mesmice, das limitações e da sem-gracisse dos produtos editoriais lançados até agora para o tablet (nota do editor: Jobs publicamente detesta o aplicativo para iPad do The New York Times, arquirrival do The Wall Street Journal).

Além disso, usuários do iPad adoram consumir aplicativos que tornem a sua experiência com o tablet melhor. E, nesse ponto, os US$ 0,99 que o veículo cobrará por semana são uma pechincha. Como conseguiram a mágica de cobrar tão pouco? Bom, como expliquei no meu post anterior, 80% dos custos de produção de um jornal são “desperdiçados” em coisas como papel, impressão, distribuição, infra-estrutura monumental… Apenas 20% são investidos naquilo que as pessoas realmente consomem, ou seja, conteúdo editorial. Criando um veículo que roda apenas no iPad, Murdoch elimina a maior parte desses custos “extras”.

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

A expectativa da News Corp. é chegar a 500 mil assinantes do The Daily em cinco anos. Se isso acontecer, isso passa de US$ 25 milhões em receitas de assinaturas anuais. Ok, um terço deve ficar com a Apple, mas, somadas às receitas de publicidade, The Daily deve ser financeiramente saudável. Se a Apple ainda trouxer o aplicativo pré-instalado no iPad, a quantidade de usuário pode ser ainda maior (tai a Microsoft que não me deixa mentir quando o assunto é pré-instalar programas no sistema operacional para ganhar mercado).

Mas nem tudo são flores no novo rebento de Murdoch. Se, por um lado, o modelo de negócios parece consistente, não posso dizer o mesmo do produto em si. Especialmente porque se trata de um jeito novo de se entregar notícia velha. Apesar de não ser impresso em árvores mortas, The Daily insiste no velho modelo do jornal diário de abrangência nacional: você baixa a edição de hoje, que traz notícias de ontem. As atualizações só virão amanhã… e com notícias de hoje. Nada de noticiário atualizado ao longo do dia. E muito menos pense em um noticiário personalizado, outra demanda que está explodindo entre os internautas.

Além disso, ele não oferecerá link para nada na Internet: todo o conteúdo será fechado nele mesmo. E, claro, ninguém dará link para ele, já que se trata de um aplicativo, e não de um site. De novo, The Daily fica mais parecido a um impresso e menos digital.

Por fim, The Daily pode enfrentar concorrência no próprio iPad de sites com conteúdo de qualidade e grátis, assim como os jornais de Murdoch enfrentam há anos na Web. Já se observam sites que começam a oferecer na Web produtos criados especificamente para iPhone e iPad, o que implica inclusive em alternativas ao uso do Flash, que os irritantes da Apple baniram de seu ecossitema. E aí, The Daily ficará ainda mais com cara de um jornal lento e pesadão.

Moral da história: por mais bem feito que a turma da Apple consiga criar o The Daily, eu diria que as suas chances residem muito mais em seu modelo comercial que editorial, que não me convence. É uma tremenda aposta de Murdoch, um dos maiores representantes de uma indústria que, especialmente nos EUA, agoniza. Mas eu sinto cheiro de naftalina: Naftalina for iPad.

Jobs agora estende sua mão para a imprensa… no iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise - Foto: reprodução

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise

Há pouco mais de um ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, sugeriu publicamente que seu e-reader, o Kindle, poderia ajudar a imprensa (especialmente a impressa) a sair de sua enorme crise. Afinal, ele permite que as grandes casas editoriais entreguem seus produtos a custos muito mais baixos, dispensando a impressão e a distribuição. Tanto que convenceu grandes títulos americanos a abraçar sua causa, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Claro, nem todo mundo concordou: Rupert Murdoch, dono da News Corporation, torceu o nariz e chegou a dizer que “não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”.

Ontem foi a vez de Steve Jobs engrossar o coro de Bezos. Ou quase: na verdade, ele sugeriu que isso pode acontecer no seu tablet, o iPad. Em entrevista realizada no evento D: All Things Digital, promovido anualmente pelo The Wall Street Journal, o CEO da Apple repetiu a “receita de bolo”: “estou tentando fazer esses colegas adotarem posturas mais agressivas que o que eles cobram tradicionalmente pelo impresso, porque eles não têm os custos de impressão, eles não têm os custos de entrega, cobrando um preço razoável e ganhando no volume.”

Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior.

Algo que se aproximou bastante da minha visão foi um conceito apresentado pela revista Sports Illustrated em dezembro no ano passado, reproduzida no vídeo abaixo:

Claro que nem tudo que vemos em um conceito se materializa, pelo menos não logo de cara. Mas o protótipo apresentado pela revista no mês passado, já era bastante interessante, inclusive trazendo alguns recursos de compartilhamento não visto no primeiro conceito apresentado:

Em um momento em que o “jornal do futuro” não consegue ir além de infames golpes publicitários dos jornalões, chega a ser revigorante ver iniciativas com as da Sports Illustrated. O papel ainda vai nos acompanhar por muito tempo, mas o uso criativo de equipamentos como o iPad abre a possibilidade de criar uma categoria completamente nova –e muito mais rica– de veículo de comunicação, algo pelo qual as pessoas voltariam a achar razoável pagar. O que não dá é continuar querendo ganhar isso no grito.

O futuro do jornal do futuro

A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

Ontem, domingo, eu fiz duas coisas que não fazia há muito tempo: li a Folha de S.Paulo em papel, e ainda por cima paguei por isso! Fui até a minha banca preferida e comprei o diário, que me surpreendeu logo de cara, pois era uma edição que não tinha primeira página. Quer dizer, ela estava, na verdade, quatro páginas depois da publicidade associada ao “jornal do futuro”, que estreou nesse domingo, e que me motivou a comprar o diário.

Tinha que ver de perto o que era esse tal de jornal do futuro, sobre o qual vinha sendo bombardeado por publicidade em várias mídias há dias. Tinha que analisar isso com isenção. E tenho que admitir que guardava uma esperança de que a Folha, onde minha vida como jornalista começou, realmente tivesse conseguido criar algo inovador, um verdadeiro jornal do futuro, algo que nenhuma grande casa editorial ainda conseguiu fazer convincentemente no mundo.

Li o editorial, o ombudsman e uma pequena retranca no primeiro caderno sobre o assunto. Li o caderno especial detalhando a novidade. Assisti ao making-off de 18 minutos (muito bem produzido, por sinal, mas que não possui um link externo como os do YouTube: DUH!). Naveguei pela Folha.com (novo nome da Folha Online). Vim, vi, mas não venci… Minha esperança virou desilusão. O jornal do futuro não passava de um miserável golpe de marketing, que me fez comprar o jornalão de domingo.

Justiça seja feita: duas importante mudanças aconteceram. A primeira: consolidou-se a integração entre as redações “online” e “impressa”, algo que não dava para acreditar que ainda não tinha sido feito, em nome da qualidade, agilidade e economia. Todo veículo jornalístico deveria integrar todas as equipes de suas diferentes mídias (um viva à BBC!). A segunda mudança é a reforma –mais gráfica que editorial– que literalmente salta aos olhos. Não se pode negar que, nesse quesito, o trabalho foi bem feito, conduzido por um pessoal muito bom.

Mas continuei procurando o tal jornal do futuro. E a última coisa que li foi o artigo de Otávio Frias Filho, que abre a última página do caderno que explica as mudanças. E fiquei bastante triste ao constatar que o que existe, por trás de todo esse verniz, é uma mentalidade de jornal do passado.

No meio de várias afirmações corretas, o diretor da Folha reforça as paliçadas em torno de seu castelo. Rejeita as virtudes do jornalismo cidadão, classificando-o com termos como “qualidade discutível”, “pirataria”, “de alcance limitado” ou “eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconseqüência”. Mais que isso, fez coro na banda de Rupert Murdoch, cantando seu refrão de que bom jornalismo só pode ser feito depois de muito investimento. Em nenhum momento, discutiu mudanças no seu modelo de negócios ou modelo editorial.

Onde está o jornal do futuro nessas palavras? Não sou um defensor cego da blogosfera: tenho consciência que se encontra nela muito mais coisas ruins que boas, mas existem coisas MUITO boas ali, jornalismo de altíssima qualidade produzido a um custo irrisório. Por outro lado, estou cansado de ver a grande imprensa, portanto os eleitos para produzir jornalismo de qualidade segundo a tese de Otávio, dando contínuas demonstrações de antijornalismo, como a capa da Veja desta semana (de novo!).

Na sexta passada, conversava com o ex-country manager local de um dos maiores fabricantes de computadores do mundo sobre o início do jornalismo na Internet. Contei-lhe de como foi tão difícil colocar a mesma Folha na Web lá em 1995, ao que ele me respondeu: “mas você deveria ter conversado com o Luís (Frias), que rapidamente entenderia a sua proposta.” E reproduziu algo que o mesmo Luís lhe disse na época, uma máxima do jornalismo impresso que insistem em transpor para a Internet: “as pessoas ainda querem que alguém lhes diga o que devem ler”.

È verdade, a mais absoluta verdade. A “desgraça”, para nós jornalistas, é que, já há alguns anos, não detemos mais a exclusividade desta função. Cada vez (muito) mais, quem determina o que nós “devemos” ler são os nosso amigos, as pessoas em quem confiamos. Ganha relevância no nosso dia a dia o que essas pessoas, em quem confiamos, consideram relevante, em um efeito cascata interminável. E o Google e o Facebook estão aí para não me deixar mentir.

Fica aqui, portanto, o meu triste (mas não solitário) protesto ao “jornal do futuro”. Esperava –desejava verdadeiramente– que a Folha tivesse conseguido romper essa mentalidade revanchista, criando algo que realmente pudesse indicar um caminho que a mídia –e não apenas a impressa– pudesse trilhar para sair dessa crise em que ela mesma se meteu por turrona. Mas não. Perderam a oportunidade. Nem me dão jeito para incluir o seu belo making-off aqui neste post. E, portanto, não vou dar link para ele.

A Microsoft consegue bancar um bloqueio ao Google?

Há cerca de um mês, começaram a pipocar aqui e ali rumores sobre um suposto acordo que, de tão bizarro, parecia mais um daqueles boatos disseminados pela Internet. Mas de boato, eles não tinham nada. O fato é que a Microsoft está em sérias conversações com a News Corp. O objetivo: a turma de Steve Ballmer pensa em pagar para que a de Rupert Murdoch impeça que o conteúdo de suas publicações –o que não é pouca coisa, incluindo aí o The Wall Street Journal– seja indexado pelo Google, passando a ser encontrado apenas no Bing, o novo buscador da Microsoft.

Tirar o seu conteúdo do Google para deixá-lo restrito ao Bing, que mal faz cócegas ao primeiro? Provavelmente todas as pessoas, exceto as envolvidas no acordo, diriam que isso é uma enorme estupidez. Afinal, como apontou recentemente a consultoria Experian Hitwise, 21% de TODO o tráfego de sites de jornais vem do Google, contra míseros 2% do Bing. Essa troca de conteúdo por tráfego seria o “uso justo”, que embasa a defesa do Google no assunto.

Mas, para Rupert Murdoch, a idéia parece fazer sentido. Já há bastante tempo, ele classifica os buscadores –especialmente o Google– como ladrões, com todas as letras e sem aspas. Isso pode ser visto, por exemplo, no vídeo acima. Mas, se agora um buscador quer justamente pagar pelo conteúdo, a coisa muda de figura.

Já a Microsoft parece estar disposta a usar de força monetária bruta para tentar fazer o Bing decolar. No seu raciocínio, se o internauta só encontrar conteúdos relevantes no seu produto, pode deixar de usar o Google. Tanto é assim que a turma de Redmond estaria tendo conversas de teor semelhante com outros grupos de mídia, em uma tentativa de pegar só para si o conteúdo que fosse realmente útil, deixando ao Google os “restos”.

Parece fazer sentido. Onde está a falha nesse conchavo?

Já em 2005, eu dizia aos meus alunos do curso de Jornalismo da Metodista que um dos maiores desafios que eles enfrentariam era o fato de que (já naquela época) o que nós produzimos havia virado commodity.

Do lado da News Corp. aí está a falha. Eles produzem um bom conteúdo? Certamente sim. Eles são os únicos capazes de fazer isso nesse nível? Certamente não. Ainda é preciso ter muito dinheiro para fazer jornalismo de alta qualidade? Certamente NÃO: por isso a News Corp. e a grande mídia concorrem com uma legião de indivíduos e pequenas empresas pela audiência e pelo bolo publicitário.

Já do lado da Microsoft, a falha é: a Internet é grande demais para ser comprada. Essa estratégia teria alguma chance de dar certo se todos os grandes produtores de mídia abraçassem a idéia, mas vários deles já anunciaram que não vão entrar nesse barco furado. Para eles (e para mim), as pessoas não deixarão de usar o Google se o conteúdo da News Corp e de um punhado de outros reacionários não aparecer mais em seus resultados. Se entrassem, eles não apenas não lucrariam com o inexpressivo Bing, como perderiam a chance de monetizar o tráfego que receberiam do Google.

Há ainda uma “continha básica” a ser feita. Apesar da gritaria de Murdoch, suas publicações efetivamente fazem dinheiro com os internautas que o Google lhes envia. Podem ser migalhas individualmente, mas 21% de todo o seu tráfego está longe de ser café pequeno. Perder esse tráfego do Google e o dinheiro associado para migrar ao Bing só faz sentido se a Microsoft bancar essa diferença com vantagens para a News Corp. Mesmo para a gigante de Redmond, até quando eles estarão dispostos a fazer isso, já que seus ganhos não devem ser proporcionalmente expressivos? E ainda querem fazer o mesmo para um grande número de grupos de mídia? Eu chamo isso de dumping.

Honestamente, Murdoch pode até achar o Google uma empresa bandida conduzida por moleques irresponsáveis. E daí? Em uma nova ordem mundial da mídia, onde o conteúdo por si só perdeu completamente o valor (algo que ele, como dono desse império, se recusa a aceitar), provavelmente tem muito a aprender com eles. Isso sim é fazer negócio.

A turma do conteúdo fechado bate o bumbo

Singleton engrossou o coro dos que querem restringir o conteúdo online a pagantes

Singleton engrossou o coro dos que querem restringir o conteúdo online a pagantes

Primeiro foi Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal. Agora foi a vez de William Dean Singleton, presidente do conselho da Associated Press e CEO da MediaNews Corp, que publica 53 jornais nos EUA. Os dois são as mais proeminentes vozes do coro cada vez mais forte de publishers que pregam que não é mais possível oferecer de graça do seu conteúdo na Internet.

Isso contraria o senso comum vigente, que prega que novos modelos de negócios sejam perseguidos para compensar as quedas nas receitas publicitárias das edições impressas dos veículos. Apesar de a publicidade online estar aumentando, ela não cobre o rombo deixado pelas perdas do impresso.

No dia 7 de maio, Murdoch afirmou publicamente que a News Corp está desenvolvendo um sistema de micropagamento para que os internautas tenham a possibilidade de pagar individualmente por artigos ou serviços de seus veículos online, começando justamente pelo WSJ. No dia seguinte, Singleton enviou um memorando aos funcionários do MediaNews Corp pregando o mesmo caminho. O memorando foi republicado no mesmo dia na coluna de Jim Romenesko no site do Poynter Institute’s.

“Nós continuamos a praticar uma injustiça com nossos assinantes de impressos e a criar a percepção de que nosso conteúdo não tem valor ao colocar online todo o nosso conteúdo impresso de graça”, escreveu Singleton. “Isso não apenas erode nossa circulação impressa, desvaloriza a essência de nosso negócio –o grande jornalismo local que nós (e só nós) produzimos diariamente.”

Nesse momento de crise, é grande a chance dessa tendência de retrocesso vingar. Sem fazer muita força, parece mesmo que faz sentido. Mas, se você concorda com eles, permita-me discordar: acredito que se trata de um movimento de recrudescimento em torno da incapacidade de se adaptar a uma nova realidade econômica. Não estou dizendo, de forma alguma, que empresas ou profissionais trabalhem por amor à arte, pois nem relógio funciona de graça. Mas, ao fechar o conteúdo para tentar fechar o balanço, as empresas perdem a chance de levar seus produtos jornalísticos a um novo patamar, transformando-os em algo muito melhor para seus consumidores e as próprias companhias.

Modelos alternativos já existem e vêm sendo discutidos aqui mesmo nesse blog. Mas todos eles representam mudanças substanciais em questões essenciais das companhias. Admito que não são fáceis para qualquer um, principalmente para quem tem muito a perder. Espero, entretanto, que a inovação vença a resistência.

WSJ abraça o micropagamento enquanto rejeita Kindle

Murdoch não está surdo aos movimentos do mercado: adotará o micropagamento e deve lançar seu próprio e-reader em breve

Murdoch não está surdo aos movimentos do mercado: adotará o micropagamento e deve lançar seu próprio e-reader em breve

Enquanto a indústria de mídia discute e discute qual será o seu modelo de negócios do futuro, especialmente para o impresso, o The Wall Street Journal anunciou que está criando um sistema de micropagamento que permitirá que pessoas que não assinem o seu serviço acessem notícias e artigos individualmente, pagando por cada um. Além disso, lançará um serviço Premium que oferecerá o serviço noticioso da Dow Jones. Em tempo: o WSJ é dono de um dos poucos bem-sucedidos casos de assinatura paga na Web, com mais de um milhão de usuários desembolsando US$ 100 por ano pelo acesso.

Rupert Murdoch, dono da News Corporation, que, por sua vez, é dona do WSJ, anunciou que o modelo deve ser ampliado para todos os jornais do grupo. Para o mogul das comunicações, a era do conteúdo online grátis logo acabará. Murdoch lidera a resistência dos descontentes com o jeito que a notícia virou commodity com a Internet e condena serviços como o Google News, que cria publicações agregando conteúdos de diferentes fontes.

A metralhadora giratória não poupa nem o Kindle, que acaba de ter uma terceira versão –a DX– anunciada e vem ganhando manchetes como uma possível maneira de se distribuir os “jornais do futuro”. Tanto que o The New York Times –concorrente da News Corp– é uma das estrelas de seu portfólio. “Não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”, disparou Murdoch recentemente.

Isso não quer dizer que ele seja contra os e-readers, como o produto da Amazon. Na verdade, o próprio empresário já ventilou que seu conglomerado de mídia estaria desenvolvendo o seu próprio equipamento. Claro, ele não quer dividir a sua margem com outros: o mercado especula que a Amazon fique com 70% do valor das assinaturas de periódicos baixados e lidos pelo Kindle. Nesse sentido, a resistência de Murdoch é compreensível. Mas a News Corp terá força para, por si só, criar uma alternativa viável de produto? De todo jeito, teria que se associar a algum concorrente da Amazon, pois, por mais que confie na qualidade e relevância de seu conteúdo, ele não é suficiente para abocanhar uma fatia significativa desse mercado. A própria Sony, que já está na estrada com o Reader, pena para fazer frente ao Kindle.

Claro, são apostas.Murdoch está fazendo as deles corajosamente, mas muita água ainda vai passar por baixo dessa ponte. Ele está certo em se posicionar logo e, se as suas idéias se transformarem no modelo vencedor, a News Corp aumentará a sua influência de uma maneira decisiva.

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