Por que os taxistas nunca vencerão o Uber (e o que você pode tirar disso)

Taxistas protestam contra a regulamentação do Uber em São Paulo – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Taxistas protestam contra a regulamentação do Uber em São Paulo

No dia 11, o prefeito Fernando Haddad regulamentou os aplicativos de transporte, como o Uber, em São Paulo. Isso desencadeou uma nova onda de protestos violentos dos taxistas, que acusam a empresa de concorrência desleal. Mas é uma luta que eles jamais vencerão, pois o Uber redefiniu o transporte de pessoas, “commoditizando” o serviço dos taxistas. E esse é um fenômeno social e econômico que pode atingir qualquer negócio ou categoria profissional.

Mas o que é essa “commoditização” de produtos e serviços? Isso acontece quando novas empresas, novas tecnologias ou novos modelos de negócios começam a oferecer a mesma coisa de maneira inovadora, acrescentando uma camada inédita de valor sobre algo que já existe. Nesse processo, o produto ou o serviço original continua lá e até pode ser essencial no novo formato, mas o público deixa de ver valor naquilo, passando a pagar apenas pela novidade.


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É o que o Uber fez com os táxis. Trocando em miúdos, os passageiros passaram a querer mais que o simples transporte em quaisquer condições, oferecido pelos taxistas. Para esses consumidores, o verdadeiro valor é ter esse serviço em um carro novo, limpo e confortável, com um motorista educado, treinado e bem vestido, com serviço de bordo. É por tudo isso que cada vez mais pessoas estão dispostas a pagar. E é isso que o Uber oferece, e os taxistas não conseguem –ou não querem– entender e fazer.

É claro que o que os taxistas e o Uber vendem é transporte de passageiros. Mas o Uber tirou o valor disso, que virou apenas o básico, aquilo que o público nem vê, por mais que seja a essência do serviço: foi “commoditizado”. O valor foi transferido para a camada de serviços extra.

O que os taxistas oferecem não vale mais. É por isso que não vencerão o Uber.

 

“Commoditizando” tudo

Mas isso pode afetar qualquer um, inclusive você, seja lá o que você faça. Isso porque, quando menos se espera, alguém pode chegar oferecendo a mesma coisa, só que de uma maneira que faça mais sentido para o seu público.

Qualquer jornalista já sentiu isso na pele. Com a popularização das redes sociais e a explosão de oferta de conteúdo de qualquer tipo, muitos colegas chegam a achar que a profissão encontrou o seu fim, com uma massa enorme e crescente de desempregados. Eles não estão sozinhos: veículos de comunicação tradicionais quebram um após o outro no mundo todo, incapazes de fazer frente à fuga de público e de anunciantes.

Assim como os taxistas, esses profissionais e essas empresas ficam em um “mimimi” eterno, reclamando que são eles que sabem fazer esse trabalho direito, que são eles que produzem o conteúdo de qualidade, e que isso custa muito caro! E que não é justo que novos veículos digitais cheguem e acabem com o seu monopólio da notícia, que durava mais de um século.

Oras, mas esses novos veículos, como a Vice, vão muito bem, e o que eles oferecem, na base, é conteúdo jornalístico. Mas eles tiveram sucesso em criar aquela “camada de valor extra”. Ou seja, o conteúdo jornalístico está mesmo “commoditizado”, mas ele serve para viabilizar esses novos títulos e profissionais.

Outro exemplo que gosto muito de citar é o da indústria fonográfica. Há uns 20 anos, ela era bilionária, com lucros calcados principalmente sobre a venda de CDs. Surgiram então os serviços de compartilhamento de MP3, como o Napster, que mostraram ao público que aquele modelo da indústria já havia caducado. Eventualmente isso acabou perdendo força, com as gravadoras processando os serviços e até seus clientes (o que demonstra como estavam dissociadas desse novo mundo).

Mas então a Apple lançou o iTunes, oferecendo a possibilidade de compra digital de cada faixa por uma fração do valor do álbum, e jogou a pá de cal no modelo de negócios de CDs. Só que esse modelo também já está perdendo força, sendo substituído pelo do Spotify, onde se paga um valor fixo por mês e se consome à vontade do seu gigantesco acervo de músicas online.

A música foi “commoditizada”: sorte do Spotify! Azar dos vendedores de CDs…

Agora pense com carinho: o seu produto ou serviço já está sendo “commoditizado” por alguém ou isso ainda vai acontecer?

 

Como escapar da “commoditização”

A Apple também poderia ficar rangendo os dentes, como as gravadoras, os jornais, revistas ou os taxistas. Mas, ao invés disso, ela reinventou seu serviço! O iTunes ainda existe, mas a empresa já lançou a Apple Music, exatamente nos mesmos moldes do Spotify. Porque, como diz o filósofo, “quem fica parado é poste!”

Esse deveria ser o mantra de todos os gestores, de qualquer negócio. Mais cedo ou mais tarde, isso que eles fazem tão bem e que parece essencial à sociedade perderá o valor. Se continuarem insistindo, serão substituídos por alguém com uma visão mais moderna dos negócios e do mundo.

Então voltemos ao caso dos taxistas, para entender como sobreviver à “commoditização”.

Não é o Uber que ameaça os taxistas, e por vários motivos. Primeiramente porque existe espaço para todos. Como a Prefeitura de São Paulo não emite novos alvarás para táxis comuns desde 1996, há um déficit estimado de 20 mil carros para transporte particular na cidade. O Uber pode triplicar a sua frota atual em São Paulo, que isso mal fará cócegas nessa demanda reprimida.

No final das contas, a verdadeira ameaça aos taxistas são o seu sindicato, a máfia dos alvarás e os próprios taxistas! O primeiro porque promove o ódio entre os motoristas e incentiva essa baderna que temos visto nas cidades. O resultado disso é um sentimento de rejeição ao serviço de táxi como um todo entre a população, seja pelos recorrentes transtornos causados por aquela parcela dos motoristas, seja pela repulsa à violência injustificável que alguns criminosos praticam contra motoristas e até passageiros do Uber.

Sobre a máfia dos alvarás (que chega a cobrar R$ 150 mil por algo que é uma concessão municipal), ela é uma facção do crime organizado que lesa a população e o poder público por manipular essas autorizações para obter lucros milionários. Os próprios taxistas são os principais prejudicados por esses bandidos, pois, para que consigam trabalhar, precisam comprar ou alugar essa licença, pagando valores astronômicos.

Portanto, se os taxistas realmente quiserem sobreviver à “commoditização”, não deveriam se organizar contra Uber, muito menos do jeito que estão fazendo. A solução dos seus problemas passa por ficar livres justamente desse sindicato, que os manipula, e dessa máfia, que os explora ao extremo. Os dois são dignos representantes do pior que existe na sociedade brasileira. Além disso, os taxistas precisam repensar o seu serviço: se o que eles oferecem não é mais o que as pessoas estão dispostas a pagar, é hora de se reinventar. E o Uber, ao invés de algoz, pode ser o modelo a ser seguido.

Não há como resistir à evolução do mercado. Ranger os dentes, distribuir pancada ou desqualificar novos concorrentes não resolverá o problema de nenhum negócio. A única solução é melhorar: ficar parado é o mesmo que piorar.


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Como não ficar obsoleto quando alguém fizer o seu trabalho

Foto: Saad Sarfraz Sheikh/Creative Commons

Na semana passada, em uma aula sobre marketing de conteúdo, discutia com meus alunos sobre como empresas têm produzido conteúdo sério e de alta qualidade para atrair público para suas marcas. Surgiu então a questão: o que sobra para a imprensa? O fato é que essa pergunta pode ser extrapolada para qualquer negócio: o que sobra para você quando outro começa a fazer o seu trabalho?

Em tempos em que a tecnologia digital democratiza todo tipo de meio de produção e que a economia compartilhada subverte modelos de negócios consagrados, isso assombra o cotidiano de muitos profissionais e de muitas empresas. Será que estão ficando obsoletos?


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A má notícia: sim, você já pode estar obsoleto. A boa notícia: você ainda pode virar esse jogo!

Para quem não sabe o que é, marketing de conteúdo é uma maneira relativamente nova de as empresas trazerem potenciais consumidores para suas marcas, atraídos por ótimo conteúdo editorial. Não se trata de material sobre a empresa e seus produtos, e sim reportagens e artigos sobre temas de interesse dos clientes. Portanto, ao invés de ficar empurrando os produtos para o público, como se faz no marketing convencional, o marketing de conteúdo inverte esse sentido: as pessoas vêm até a marca e eventualmente podem passar a considerá-la uma referência no tema abordado. Idealmente, acabam se tornando clientes de seus produtos. Nestlé e Red Bull são referência em marketing de conteúdo, por exemplo.

Naturalmente as empresas não cobrem todo tipo de conteúdo. A Red Bull tem uma cobertura muito boa de esportes radicais, automobilismo, games e música. E –sim– nesses assuntos ela substitui veículos de comunicação. Some-se a isso a crise de credibilidade pela qual a imprensa tradicional está passando, e a sua situação fica realmente muito delicada.

Mas os veículos de comunicação são só um exemplo de negócio que está sofrendo com novos galos cantando em seu terreiro. Já discutimos aqui o caso do Uber, que está fazendo os táxis comerem poeira na preferência dos passageiros. Também debatemos, em diferentes momentos, sobre a Netflix, e como ela se posicionou como uma alternativa muito vantajosa à TV aberta e até à TV por assinatura.

Novos negócios sempre substituíram velhos negócios. Porém isso vem acontecendo de uma maneira inédita, seja pela velocidade exponencial, seja porque indivíduos que eram antigos clientes passam a ser concorrentes de empresas centenárias da noite para o dia. Aquilo que levou anos e consumiu fortunas para ser construído pode ser substituído por alguém com uma mente aberta para os negócios, muita vontade de trabalhar, inteligência e, quem sabe, o aplicativo certo em seu smartphone.

Como sobreviver a isso?

 

Descobrindo onde está o valor

Negócios consolidados e bem-sucedidos não perdem seu valor de repente. Entretanto, se estar em uma posição de liderança de mercado pode ser bom para os negócios, pode esconder um terrível risco de miopia empresarial: não ver as mudanças se aproximando rapidamente.

Voltemos ao exemplo do Uber: não é difícil encontrar clientes reclamando de péssimos serviços prestados por muitos taxistas. Mas as pessoas continuavam usando os táxis por falta de alternativa. No caso das TVs por assinatura, seus clientes sempre reclamaram do alto preço da mensalidade, da baixa qualidade da programação, do excesso de comerciais e de terem que engolir uma infinidade de canais irrelevantes para poder assinar qualquer pacote.

Nos dois casos, os sinais de descontentamento eram públicos e claríssimos! Bastava apenas alguém aparecer com uma solução melhor para tornar aqueles negócios candidatos à extinção.

Alguém apareceu!

Mas nem os táxis, nem a TV por assinatura, nem a imprensa, nem qualquer outro negócio ameaçado precisa morrer. Desde que redescubram onde seus antigos clientes estão vendo valor hoje. E mudar o seu negócio para atender essa nova demanda.

Os taxistas, por exemplo, são incapazes de derrotar o Uber hoje porque insistem em continuar disputando os passageiros com aquilo que eles sempre fizeram: o transporte de passageiros. Os taxistas acham que é isso que o Uber oferece. Só que ele transformou o transporte de passageiros em uma commodity! Os clientes veem valor hoje em serem levados em um carro novo e limpo, com um motorista educado e de bom papo, com serviço de bordo e a um valor justo (que incrivelmente chega a ser mais barato que o dos táxis). Obviamente, por baixo disso tudo, está o transporte, que viabiliza o negócio, mas de onde o valor foi retirado pelos clientes. Quem continuar competindo nessa camada inferior estará fora do mercado em breve.

Esse é o raciocínio que deve permear a cabeça dos gestores de qualquer negócio moderno! De nada adianta continuar fazendo o que se faz há décadas, se alguém estiver fazendo a mesma coisa tão bem quanto (ou melhor) que você, e de uma maneira mais inteligente. Pior que isso: talvez o seu negócio esteja até sendo oferecido de graça por outras empresas que o tenham como um subproduto de sua atividade principal, ou apenas como parte de um modelo de negócios mais amplo. É o caso do marketing de conteúdo.

Pare de se achar o senhor da razão ou detentor de algum direito adquirido! Preste atenção aos movimentos do mercado, seus novos concorrentes, o que e como oferecem e, principalmente, ouça detalhadamente o que o público tem a dizer.

A única coisa que não pode acontecer é querer continuar fazendo tudo do mesmo jeito e esperar que as pessoas continuem pagando por seu produto ou serviço por causa dos seus lindos olhos (ou sua tradição, sua marca consagrada). A fidelidade morreu! É preciso dar um novo significado ao seu negócio e reencontrar seu público. Caso contrário, ele rumará melancolicamente ao seu fim, à sua obsolescência.


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Como o Uber pode ensinar jornais -e qualquer negócio- a prosperar

Foto: divulgação

Desde que discuti aqui a polêmica dos sites que dispensam usuários que têm ad blockers, me perguntam se o conteúdo afinal não tem mais valor. Resposta: não como as empresas de comunicação trabalham há 150 anos! Mas ele é fundamental para o negócio. E quem pode explicar isso é o Uber. Aliás, pode indicar o caminho para qualquer empresa de serviços na nova economia.

Mas o que o Uber tem a ver com um jornal? Ou o varejo, uma escola, um profissional liberal? Acontece que, na realidade que começamos a viver, não basta ser bom no que se faz: além disso, é preciso entregar o serviço e o produto que o consumidor quiser de uma maneira que lhe faça sentido. Aí reside o novo valor, aquele que as pessoas percebem e pelo qual estão dispostas a pagar! Todo o resto é commodity.


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Não é um conceito simples de entender, muito menos de aceitar. Mas ele está aí, subvertendo modelos de negócios consolidados há muitas décadas! No caso do Uber, a commodity é o transporte de passageiros. O que diferencia o Uber de um taxista convencional é que o primeiro vende a sensação do prazer de solicitar um motorista, com a garantia de que virá em um carro confortável, novo e limpo, com cortesia, boa conversa e um serviço de bordo superior. Embaixo disso tudo, está o transporte do passageiro, que evidentemente é o alicerce de todo o serviço, mas que não é mais pelo que as pessoas estão pagando. É por isso (e pelos recorrentes casos de agressão a motoristas e passageiros do Uber) que os taxistas estão perdendo a preferência do consumidor: eles querem continuar concorrendo nessa camada inferior do serviço, onde o valor, o diferencial vem sendo retirado pelos seus clientes. Não há como ganhar, exceto pela criação de leis retrógradas ou pela agressão física.

Consideremos o varejo: os produtos oferecidos e a própria venda são a commodity. Já há muitos anos –e isso vem sendo agravado pelo crescimento do e-commerce– o varejo (especialmente o grande varejo) vive uma situação dramática de uma dificuldade crescente de se diferenciar da concorrência. Afinal, todos eles fazem basicamente a mesma coisa, do mesmo jeito. Então todos partem para práticas autofágicas de baixar os preços e investir pesadamente em publicidade, queimando sua margem até o limite da irresponsabilidade. São recursos legítimos, claro! Mas o problema surge quando essas são as únicas ferramentas disponíveis, por sinal igualmente para todos.

Mas vejam os casos das startups Carrinho em Casa e Rabixo. Ambos são varejistas, mas que colocam uma camada extra de serviço acima da venda dos produtos em si. Perceberam que há pessoas sem tempo de fazer suas próprias compras (ou que não gostam ou simplesmente não querem) e criaram bons negócios resolvendo esse problema. São pequenas empresas, mas o conceito também vale para corporações gigantes, como a Amazon demonstra o tempo todo.

Voltando ao caso dos veículos de comunicação, a commodity é o conteúdo, mesmo que seja um excelente conteúdo! Se você, leitor, for um jornalista, pode estar com o cabelo em pé agora. Mas acredite: não é motivo para desespero! É apenas um alerta para mudanças que são inevitavelmente necessárias.

As pessoas sempre terão a necessidade de se informar. Em tempos pré-Internet, isso exigia ler jornais, revistas ou assistir ao noticiário na TV ou no rádio. Havia ainda um consenso de que, se quisesse ficar realmente bem informado, era necessário assinar pelo menos um jornal ou uma revista. E as pessoas pagavam por isso. Entretanto faziam isso por absoluta falta de alternativa! E as empresas de comunicação cresceram com a ideia de que o que elas vendiam era informação.

Ledo engano!

Claro que o conteúdo é importante: sem ele simplesmente não existiria a empresa de comunicação. Mas pelo que as pessoas estavam realmente pagando era a edição desse material, sua organização em páginas, impressão e entrega. E os veículos prosperaram assim, enquanto eram as únicas opções disponíveis!

Mas hoje todo mundo produz conteúdo, incluindo empresas que não tem nada a ver com isso (eu ouvi Red Bull?). Há conteúdo de alta qualidade de montão na Internet, e de graça! É commodity! Isso quer dizer que fica cada vez mais difícil ganhar dinheiro vendendo conteúdo.

Mas dá para ganhar muito dinheiro GRAÇAS ao conteúdo.

 

É como música aos ouvidos

Assim como o transporte de passageiros para o Uber, o conteúdo é algo essencial para viabilizar um negócio, mas não é O negócio. Algumas empresas de comunicação, como Vice e Catraca Livre, já sacaram isso, e, apesar da natureza do seu produto, aprenderam a ganhar dinheiro de outras maneiras. O papel do conteúdo ali é aumentar a sua reputação e a sua popularidade, viabilizando os outros negócios, onde está o dinheiro.

Nesse sentido, o jornalismo vai muito bem! Quem vai mal são as empresas e os profissionais que continuam querendo ganhar dinheiro apenas vendendo a notícia.

O conteúdo jornalístico não é o único que passou por esse choque de realidade. Muito mais emblemático foi a derrocada da indústria fonográfica no modelo de venda de música em CDs. Venceram parcialmente a primeira batalha, a dos usuários trocando as músicas no formato MP3. Mas foram destruídos quando a Apple lançou o iTunes, que começou a vender as músicas individualmente a US$ 0,99, de uma maneira cômoda, segura e de alta qualidade. Quem continuaria comprando CDs diante disso?

A pá de cal veio com serviços como o Spotify e o Apple Music, que tornaram o iTunes obsoleto: por uma pequena assinatura mensal, dão acesso ilimitado a um acervo gigantesco, em qualquer lugar. Para o consumidor, é música aos ouvidos.

Nem todos os artistas acham isso bacana, especialmente as grandes estrelas. Argumentam que esses serviços lhes pagam apenas uma pequena fração do que eles ganhavam vendendo CDs. E isso é verdade!

Mas eles não vendem mais CDs.

A música também virou commodity. Esses serviços não vieram para substituir os discos. São um espaço de divulgação e consolidação dos artistas. Se os medalhões ganham hoje muito menos, existe a contrapartida que artistas obscuros podem conhecer a fama de uma maneira que jamais aconteceria quando as gravadoras dominavam o processo. O sistema democraticamente dividiu os ganhos entre muito mais gente. E quem é famoso deve agora ganhar dinheiro de outro jeito, por exemplo fazendo shows.

 

Críticas ao modelo

Muita gente acha tudo isso um absurdo!

Há muitos críticos, por exemplo, ao Uber. Eles dizem que a empresa explora os motoristas, ganhando em cima deles, que são os donos dos carros e os únicos a correr riscos (inclusive de apanhar de taxistas raivosos). Seria, portanto, o capitalismo do pior tipo.

Esses críticos deveriam conversar com esses motoristas. Uso o serviço frequentemente e sempre faço isso. Seus trabalhos anteriores variam de engenheiros a motoristas de táxi. Até hoje não encontrei um que não estivesse satisfeito com o modelo. Nenhum deles me pareceu explorado; na verdade, a sensação mais comum era de gratidão. Afinal, sem isso, estariam desempregados.

Não quero parecer Poliana. Sei que o Uber já disse que, no futuro, espera ter uma frota de carros-robôs, sem motorista. Mas isso ainda vai demorar um bom tempo, pois os tais carros ainda estão em testes preliminares. Até lá, os motoristas continuarão felizes.

Os críticos afirmam que o Uber ganha dinheiro sem risco e “sem fazer nada”. Essa é uma afirmação maniqueísta e rasa, pois a empresa atua justamente na camada do negócio onde está o real valor, como descrito mais acima. Sem isso, o que nos restaria seriam os taxistas, e os motoristas do Uber talvez estivessem desempregados.

São como Elton John, que, em 2007, propôs o fim da Internet, pois ela estaria “destruindo a indústria musical e as relações interpessoais”. Na verdade, ele reclamava porque não estava mais vendendo tantos CDs.

Gosto muito das músicas dele, mas prefiro ouvi-las no Spotify. Por outro lado, irei feliz ao seu próximo show!

Desde que eu perceba valor naquilo.


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Por que não temos um “Netflix de revistas e jornais”?

Banca de revistas

Cansei de ouvir de executivos de empresas de comunicação que os negócios vão mal porque as pessoas não querem mais pagar por conteúdo. Isso é desculpa de quem não consegue ou não quer transformar seu produto para o novo mercado, pois acontece exatamente o contrário: as pessoas nunca pagaram tanto por conteúdo.

Basta ir aos cinemas para comprovar: seus ingressos chegam a custar quase tanto quanto uma assinatura mensal de jornal, mas as sessões estão lotadas. E há também o Netflix, que, no meio do ano passado, ultrapassou a incrível marca de 50 milhões de assinantes. No campo da música, o Spotify virou este ano com 60 milhões de usuários, sendo 15 milhões pagantes.

Seria legítimo, portanto, perguntar: por que não temos um “Netflix de jornalismo”? Um sistema que aglutinasse uma grande quantidade de títulos, de diferentes empresas, disponíveis para leitura livre a um preço módico. O problema é que isso já existe e não vai bem das pernas.

Duas empresas americanas oferecem um serviço assim. A mais antiga, a Next Issue, cobra US$ 14,99 para acesso livre a 140 de algumas das melhores revistas dos EUA, inclusive semanais. Já a recém-chegada Magzter cobra R$ 26,80 (sim, está disponível no Brasil) para acesso irrestrito a mais de 2.000 revistas de diferentes países, porém a grande maioria delas obscura. Há também um aplicativo brasileiro, o Iba, da Abril, que cobra R$ 19,90 por mês pelo acesso há quatro revistas mensais ou uma mensal mais uma semanal ou quinzenal. O acervo é modesto: apenas 28 revistas da própria Abril.

Apesar de a Abril afirmar que possui mais de 500 mil usuários no Iba, o mercado enxerga o produto como um pato manco, uma experiência da empresa que está fazendo água, ainda mais depois de encerrar as parcerias com outro publishers, que garantiam acesso a seus também a jornais e livros.

O Iba tem dois problemas principais. O primeiro deles é comercial: os assinantes não se sentem seduzidos pela sua oferta, proporcionalmente mais cara que a dos americanos acima, por exemplo. A Abril, por outro lado, não baixa mais o preço, pois isso poderia canibalizar a assinatura das mesmas revistas em seus aplicativos próprios ou nas versões impressas.

O outro problema está no que o usuário recebe, e esse problema afeta também a Next Issue e a Magzter. Apesar de funcionarem em dispositivos digitais e possuírem algumas implementações multimídia, as revistas baixadas em todos esses sistemas são basicamente uma cópia da edição impressa. E o público já não vê muita vantagem em aguardar uma semana inteira (ou uma quinzena ou um mês!) para receber um grande pacote de noticiário frio, com pouca ou nenhuma integração com seus amigos em redes sociais, sem ligações com outras fontes de conteúdo online, sem interatividade e recursos multimídia. Coisas que a Web e principalmente aplicativos mais arrojados de terceiros (e que muitas vezes se “alimentam” de conteúdo dessas revistas) fazem esbanjando categoria.

Um bom exemplo de como as pessoas não querem mais saber desse produto editorial organizado e vendido como revista foi o fechamento do The Daily, cuja última edição circulou no dia 15 de dezembro de 2012, antes de completar dois anos. Para quem não se lembra dele (ou nunca o conheceu), The Daily foi o primeiro jornal criado especificamente para o iPad. Tratava-se de uma grande promessa, capitaneada por Rupert Murdoch, o mogul da News Corp. (que nunca escondeu sua aversão às inovações da mídia digital), e com apoio técnico da própria Apple. Mas, como um Titanic digital, falhou fragorosamente, pois quis empurrar um velho formato para um público ávido por verdadeira inovação. Bonitinho mas ordinário.

Há ainda a concorrência das Bancas do Google e da Apple, que oferecem, de maneira muito bem integrada ao Android ou ao iOS, todas essas revistas em seu formato digital, para quem eventualmente quiser ler seu conteúdo dessa forma.

Iba, Next Issue e Magzter não vão bem porque os responsáveis por eles continuam pensando como executivos de mídia impressa, na concepção dos seus produtos e principalmente no seu modelo de negócios. É por isso que eles nunca serão um Netflix ou um Spotify. Esses daí, por mais que entreguem conteúdos originários de outros “mundos” (cinema e música), souberam adaptar seu produto e seu modelo de negócios ao que as pessoas querem.

A turma do impresso deveria prestar mais atenção no Flipboard e afins. Sim, são gratuitos, mas eles estão mostrando o caminho a seguir.

O real custo de produção do jornalismo

O The New York Times e sua versão para o Kindle - Foto: divulgação

O The New York Times e sua versão para o Kindle

Depois do meu último post, sobre o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, várias pessoas vieram conversar comigo sobre isso, e se a Internet pode ser mesmo a salvação para veículos que não conseguem mais se manter em suas mídias de origem.

Para essa inquietação, a minha resposta é: depende. Como demonstrei no referido post, essa migração jamais salvará um veículo mal administrado, como é o caso do Jornal do Brasil. Ele morreu no papel e, salvo aconteça alguma improvável mudança empresarial, a morte também na Web é apenas uma questão de (pouco) tempo. Mas a passagem de uma mídia que já não atende aos interesses econômicos do veículo para os meios digitais é -sim- algo a ser considerado.

Afinal, quanto custa produzir o jornalismo, o “conteúdo” de um veículo? Vou me concentrar na grande mídia impressa, apenas para ficar no exemplo do JB (se bem que diria que ele já deixou de ser “grande” mídia há muitos anos). Fiz a minha lição de casa e constatei uma coisa muito interessante: se considerarmos todos os custos de um grande jornal (e isso inclui os associados à impressão e distribuição), a parcela referente ao jornalismo (considerando salários, infraestrutura para apuração, viagens, prêmios e qualquer tipo de despesa ordinária) gira em torno de apenas 20%. Ou seja, de tudo que custa um jornal, 80% não se refere ao jornalismo.

Oras, qual é o produto do jornalismo? Pelo que as pessoas pagam? Por mais que o grande furo noticioso de hoje esteja forrando a gaiola do passarinho amanhã, as pessoas compram informação, e não papel impresso.

Quando as prensas primitivas começaram a soltar os primeiros exemplares do que se pode chamar de um jornal “moderno”, o papel era fundamental para a disseminação da notícia, simplesmente porque não havia outra maneira de se fazer isso (pelo menos não tão eficientemente). As revistas surgiram depois como uma alternativa de melhor qualidade gráfica, mas faziam essencialmente o mesmo. O problema é que, depois de alguns séculos fazendo isso, o papel e a notícia passaram a ser vistos como uma entidade homogênea e indissolúvel, o que não é verdade. Papel e tinta são apenas veículos do verdadeiro jornalismo.

No ano passado, publiquei um post sobre estudo feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider. Basicamente o que ele fez foi calcular quanto custa ao The New York Times, em um ano, imprimir os exemplares enviados a cada um de seus assinantes. Dividiu essa cifra pela quantidade de assinantes e descobriu que isso é mais que o dobro do preço de um Kindle, o popular e-reader da Amazon, que, a propósito, oferece a assinatura digital do mesmo jornal a um custo bastante competitivo se comparado à versão impressa. O autor sugeriu então que o jornal presenteasse cada um de seus assinantes com um Kindle e economizasse, assim, muito dinheiro.

Claro que as coisas não são tão simples assim (e Carlson sabe disso): nem todos os anunciantes do jornal, quem paga a maior parte dos custos do negócios, são tão simpáticos a uma ideia dessas. Mas é um fato matemático que um jornal digital pode ser produzido a um custo muitíssimo menor que um impresso, sem prejuízo algum de seu jornalismo.

Não se trata, portanto, daquela conversinha fiada que o JB publicou em seu site de estar abandonando a versão impressa por se preocupar com as árvores. Eles não estão nem aí para o verde, exceto o do dólar, que eles não têm mais. Trata-se, isso sim, de uma alternativa viável para os grandes títulos continuarem no negócio, produzindo jornalismo de qualidade, algo que eles tanto prezam e que a sociedade muito necessita.

Jobs agora estende sua mão para a imprensa… no iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise - Foto: reprodução

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise

Há pouco mais de um ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, sugeriu publicamente que seu e-reader, o Kindle, poderia ajudar a imprensa (especialmente a impressa) a sair de sua enorme crise. Afinal, ele permite que as grandes casas editoriais entreguem seus produtos a custos muito mais baixos, dispensando a impressão e a distribuição. Tanto que convenceu grandes títulos americanos a abraçar sua causa, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Claro, nem todo mundo concordou: Rupert Murdoch, dono da News Corporation, torceu o nariz e chegou a dizer que “não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”.

Ontem foi a vez de Steve Jobs engrossar o coro de Bezos. Ou quase: na verdade, ele sugeriu que isso pode acontecer no seu tablet, o iPad. Em entrevista realizada no evento D: All Things Digital, promovido anualmente pelo The Wall Street Journal, o CEO da Apple repetiu a “receita de bolo”: “estou tentando fazer esses colegas adotarem posturas mais agressivas que o que eles cobram tradicionalmente pelo impresso, porque eles não têm os custos de impressão, eles não têm os custos de entrega, cobrando um preço razoável e ganhando no volume.”

Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior.

Algo que se aproximou bastante da minha visão foi um conceito apresentado pela revista Sports Illustrated em dezembro no ano passado, reproduzida no vídeo abaixo:

Claro que nem tudo que vemos em um conceito se materializa, pelo menos não logo de cara. Mas o protótipo apresentado pela revista no mês passado, já era bastante interessante, inclusive trazendo alguns recursos de compartilhamento não visto no primeiro conceito apresentado:

Em um momento em que o “jornal do futuro” não consegue ir além de infames golpes publicitários dos jornalões, chega a ser revigorante ver iniciativas com as da Sports Illustrated. O papel ainda vai nos acompanhar por muito tempo, mas o uso criativo de equipamentos como o iPad abre a possibilidade de criar uma categoria completamente nova –e muito mais rica– de veículo de comunicação, algo pelo qual as pessoas voltariam a achar razoável pagar. O que não dá é continuar querendo ganhar isso no grito.

Veja exemplo de antijornalismo

Capas de Veja, O Globo e Folha sobre o resultado do julgamento dos Nardoni, e de Veja, condenando-os dois anos antes - Imagem: reproduções

Capas de Veja, O Globo e Folha sobre o resultado do julgamento dos Nardoni, e de Veja, condenando-os dois anos antes

“Agora, Isabella pode descansar em paz”. Alguém pode me dizer exatamente o que quer dizer a capa da Veja desta semana, reproduzida ao lado? É mais um exemplo do grotesco antijornalismo praticado por esse semanário que insiste em desonrar continuamente a sua própria história.

Mas, agora que o casal Nardoni finalmente foi condenado pela Justiça, passando de acusados a culpados perante os olhos da lei, como Veja poderia agir diferentemente, se ela própria já os havia condenado na capa de 23 de abril de 2008, também reproduzida ao lado. Porém agora ela não está sozinha: O Globo destinou obscenos 47% de sua capa do dia seguinte ao assunto, com uma manchete espalhafatosa e uma foto dos populares comemorando o resultado como a conquista da Copa do Mundo.  Chamadas semelhantes abriram publicações por todo o país. Apenas como comparação, a Folha, apesar de chamada de seis colunas no alto da capa, conseguiu ser um pouco mais “equilibrada”.

Não estou defendendo os Nardoni. Eles foram julgados e condenados pela Justiça e, para mim, isso é tudo o que preciso saber, mesmo diante da trágica morte da menina. Meu objetivo aqui não é discutir o processo, e sim como a mídia, como um todo, transformou o caso em um verdadeiro circo de horrores, iniciado com as primeiras conclusões da investigação policial (que não condena ninguém) e teve seu ápice ao longo dessa semana, com os acontecimentos ocorridos no fórum de Santana.

Veja e toda a turma de coleguinhas agiu de maneira irresponsável ao espetacularizar o caso (que, diga-se de passagem, acontece aos montes nas periferias das grandes cidades, sem que “ninguém” fique sabendo), antecipando-se ao resultado da Justiça. Provocando a massa cinzenta: alguém já pensou o que seria a vida desses dois no caso de uma improvável absolvição? Mais que isso, apesar de todo o trabalho da promotoria e da defesa, os jurados, que são “gente como a gente”, já chegaram ao tribunal com uma enorme carga de “informação” sobre os acusados, pois foram bombardeados com isso pela mesma mídia. Não seria exagero, portanto, dizer que a imprensa teve papel determinante na condenação do casal.

“Vim do Estado do Piauí para ver a justiça ser feita no Estado de São Paulo!” “Vim da minha cidade do interior, porque lá não tem essas coisa (sic) de morte, de assassinato!” “Ora, ora, ora! O júri é aqui fora!” “Pega lá, pega lá, pega lá! Pega lá para nóis linchá (sic)!” “Vamos arrancar o pescoço desse desgraçado!” Frases ditas pelos populares à porte do fórum de Santana… Os mesmos que avançaram sobre os camburões que conduziram os já condenados a presídios em Tremenbé e –pasmem!– sobre o carro de familiares dos condenados.

Quem são essas pessoas e por que elas estão se prestando a isso? Por que Veja e os demais veículos não respondem isso e explicam também o seu papel na redução da nossa sociedade à barbárie? Em nome da liberdade de imprensa e do direito à informação, valores que –sim– devem ser preservados, transformam cidadãos em animais para vender mais exemplares.

Capa do Notícias Populares em que chama a Escola Base (inocentada pela Justiça) de "escolinha do sexo" - Imagem: reprodução

Capa do Notícias Populares em que chama a Escola Base (inocentada pela Justiça) de "escolinha do sexo"

Seria menos pior se algo assim nunca tivesse acontecido antes. Mas infelizmente não é a primeira, nem a segunda (nem a décima) vez que isso acontece. Pelo jeito, os coleguinhas não aprendem com os seus erros, nem mesmo os mais bizarros, como o do caso da Escola Base, que aconteceu a exatos 16 anos. Assim como agora, todos os veículos (exceto o extinto Diário Popular, justiça seja feita) noticiaram, julgaram e condenaram seis pessoas por suposto abuso sexual de crianças que estudavam na escolinha de classe média do bairro da Aclimação (São Paulo), que chegou a ser chamada, em manchete do finado Notícias Populares, de “escolinha do sexo” (reproduzida acima). Assim como agora, a fonte da imprensa foi a polícia. Mas, diferentemente de agora, os acusados foram inocentados: as fissuras anais infantis não foram causadas por abuso sexual, e sim por diarréia. Exatamente o que meus coleguinhas repetiram de novo nesse caso: uma grande cagada!

As revistas querem mostrar que não estão mortas

No dia 1º de março, cinco dos publishers mais importantes do mundo, Charles Townsend, da Condé Nast, Cathie Black, da Hearst Magazines, Jack Griffin, da Meredith Corporation, Ann Moore, da Time Inc., e Jann Wenner, da Wenner Media, anunciaram um campanha publicitária para mostrar ao seu público –e ao mercado publicitário– que as revistas não morreram e que ainda são um excelente negócio para os anunciantes.

A iniciativa, batizada de Magazines: the power of print, foi lançada durante a conferência da Associação Americana de Agências de Publicidade, que aconteceu em San Francisco (EUA). A um custo de US$ 90 milhões, circulará durante sete meses em cerca de uma centena de revistas desses grupos e seus sites, além de publicações de terceiros. O vídeo acima é parte dessa campanha, estrelado pelos executivos das revistas.

O objetivo da campanha é claro: dizer que as revistas trazem o melhor custo-benefício publicitário. O “inimigo” também está bem definido: a Internet, praticamente materializada em torno do Google. E a mensagem gira em torno do fato de que uma nova tecnologia não mata a anterior. Ou seja, as revistas continuam existindo, apesar da Internet, contrariando os arautos do apocalipse.

Puxa vida, eles descobriram isso sozinhos ou precisaram ajuda? Ok, claro que a ideia é sensibilizar as agências de publicidade, mas o tom da campanha chega a ser revanchista, colocando as revistas em franca defensiva. Apresentam várias métricas (de entidades ligadas à mídia impressa) que indicam aumento do leitorado, mas, em nenhum momento citam que revistas e jornais perdem, ano após ano, fatia do bolo publicitário, enquanto a Internet aumenta a sua. Será que precisa de tudo isso? Além do mais, se a coisa está tão boa assim, por que tanta preocupação em mostrar ao mundo tamanha obviedade?

Todas essas publicações possuem a sua versão online. Mas o fato é que essas empresas têm sido, até agora, incapazes de conter o rombo no budget de suas revistas –a cash cow de todas elas– com os crescentes (porém ainda proporcionalmente minguados) ganhos com suas iniciativas digitais. E isso acontece especialmente porque elas insistem em migrar para uma nova realidade o mesmo modelo de negócio que funcionava tão bem para o papel.

Infelizmente não funciona. A Web desafia a todos a criarem modelos totalmente novos. Ao invés de combater o Google, deveriam aprender algo com ele. E isso significa parar de querer adaptar o que já fazer e pensar MESMO fora da caixa.

Há alguns dias, estava conversando em off com o diretor de uma editora de livros didáticos, e ele disse que esse grupo –que ainda está com um pouco mais de tempo que as editoras de revistas e jornais para cair de cabeça na Internet– precisa agora começar a se aventurar com seriedade em produtos verdadeiramente digitais. Inclusive porque ainda têm fôlego para cometer erros. Na sua análise, se começarem a tentar –e errar– apenas daqui a dez anos, poderão ser postos para fora do negócio, pois então ninguém mais precisará deles. Exatamente a situação em que a indústria fonográfica está hoje: quem precisa deles ainda?

Acho que esses US$ 90 milhões poderiam ser mais bem usados estudando modelos de negócio alternativos. Afinal, a Internet não vai matar as revistas, mas certamente fará com que elas mudem sua forma, em um sentido bastante amplo.

A (ainda existente) rivalidade entre jornalistas digitais e de papel

Já passou da hora dos jornalistas digitais e de papel se entenderem

A charge acima, parte do tema da redação da Unicamp 2010, retrata a tensão que existe entre jornalistas de mídias diferentes dentro de uma mesma redação. É incrível, mas ainda hoje, 16 de novembro de 2009, isso continua forte entre colegas, principalmente quando os “rivais” dividem o mesmo espaço. É o caso típico de muitas redações de jornais e de revistas

De um lado, os jornalistas digitais se sentem desprestigiados pela direção, que normalmente se refere a eles como “aquela turma da Internet”, com equipes exíguas e recursos limitados, já que a cash cow continua sendo a mídia impressa. Essa segunda turma, por outro lado, vê nos digitais quase uma ameaça, pois as empresas já perceberam que o futuro (bem próximo) inevitavelmente está na Web.

É a típica visão distorcida dos fatos. Mais que nunca, a convergência de mídias chegou ao trabalho do jornalista, que não pode mais se dar ao luxo de querer ficar só em uma mídia. Muito antes do boom do jornalismo digital, a BBC já praticava isso com seus profissionais: o jornalista saía para cobrir uma pauta sabendo que produziria material para rádio e também para TV. Agora ele também faz o mesmo para a Web. E ele sabe fazer isso (e a empresa o prepara e equipa para tal).

O fato é: jornalismo é jornalismo. O formato é apenas tecnicismo de cada mídia onde será publicado. Pode-se dizer que a turma da Web está mesmo um passo à frente, pois já desenvolve seu trabalho cotidiano com essa visão mais ampla do produto, por isso deve parar com a mania de “perseguição”. Já a turma do papel precisa aceitar que o mundo mudou, por mais que esperneie. Precisam sair da zona de conforto e abraçar a Internet, reciclando-se. Nem que seja para evitar uma demissão. Aliás, a Business Insider publicou, há 11 dias, cinco dicas para jornalistas sobreviverem a um corte de pessoal. Os itens 3, 4 e 5 estão vinculados ao mundo online. Dá para resistir?

Enquanto isso, unicidade nas equipes!

Quando o Twitter informa mais que o jornal

Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

Para Chris Anderson, a chamada “mídia tradicional” perdeu o sentido de ser, o que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo

“Eu não uso a palavra jornalismo. eu não uso a palavra mídia. Não uso a palavra notícia. Não acho que essas palavras signifiquem alguma coisa hoje. Elas definem o mundo editorial do século 20. Hoje, são uma barreira. Elas estão bloqueando nosso caminho, como uma carruagem sem cavalos.”

Com essas palavras, Chris Anderson começa a responder as perguntas de Frank Horni, da Der Spiegel. Para o editor-chefe da Wired e autor do best-seller A Cauda Longa, jornais, revistas, televisão, a chamada “mídia tradicional” perderam o sentido de ser. Ele diz não consumir mais jornais e só lê uma reportagem do The New York Times se ela chegar até ele pelo Twitter, por exemplo, depois de passar por um “filtro pessoal” de pessoas em quem confia. O que não quer dizer que se preocupe menos com a qualidade do material informativo: apenas isso agora pode ser produzido e distribuído por qualquer um. “O problema não é que a forma tradicional de escrever não vale mais. O problema é que isso hoje é a minoria. Costumava ser um monopólio.”

Anderson é um conhecido provocador profissional, mas há verdade no que ele diz. A Internet virou de pernas para o ar o modelo de negócios de várias indústrias, como a fonográfica. A bola (de neve) da vez é justamente a mídia, cuja vítima mais evidente é a impressa. A possibilidade de qualquer um produzir e distribuir material jornalístico de qualidade afetou não apenas a economia dos grupos de mídia, mas está redefinindo a maneira de se produzir jornalismo, que, cada vez mais, é analítico e instantâneo, gerado com os recursos disponíveis por quem estiver juntos dos fatos.

O que falta ainda ao jornalismo-cidadão é organização editorial. Por mais que o volume gigantesco de produção possa resultar em qualidade no final, por mais que a relevância concedida pela audiência a cada peça jornalística seja capaz de definir o que deve ser a manchete (e o Google News está aí para mostrar que isso funciona), cada blogueiro escreve sobre o que quer, o que gosta e o que pode. Falta o “norte” a ser perseguido, nem sempre visível para o cidadão comum. E falta recursos para produzir reportagens caras. Por isso, ao contrário do que Anderson provoca e do que Lula sugeriu há pouco mais de um mês no 10º Fórum de Software Livre, o papel e a importância de uma indústria de mídia organizada continuam firmes e fundamentais para a sociedade.

A verdade nas afirmações do jornalista é que o formato, a distribuição e o modelo de negócios precisam ser reinventados. Ninguém ousaria dizer que a música perdeu a sua importância, mas nunca se venderam tão poucos álbuns quanto hoje. Isso é algo que não parará de diminuir até que as pessoas deixem de vez de comprar CDs, para desespero da indústria fonográfica, que não conseguiu ainda encontrar um modelo realmente substituto os disquinhos prateados. Por outro lado, cantores e bandas, igualmente afetados por essa onda, foram mais rápidos e já perceberam que seus ganhos hoje devem vir mais de shows que de CDs. Nesse cenário, a Internet deixa de ser uma inimiga e passa a ser divulgadora de seus trabalhos.

O que sobra aos jornalistas? Acredito que revistas e jornais, no atual formato, sejam os seus “CDs”. Assim como as empresas, os profissionais também precisam redefinir o seu modelo de negócios. Não quer dizer que o jornalismo tenha que ser um emprego de meio-período ou um hobby, como sugere Anderson (até pode ser), mas é improvável que ele continue como é hoje. Hora de os coleguinhas botarem os miolos para funcionar, caso não queiram se tornar obsoletos pela “cauda longa informativa”.

A Petrobras garante o furo, apesar de seu blog

Para Gabrielli, a população tem o direito de conhecer amplamente as informações trocadas entre a empresa os veículos

Para Gabrielli, a população tem o direito de conhecer amplamente as informações trocadas entre a empresa os veículos

As perguntas feitas por um jornalista a uma fonte são de sua propriedade? E as respostas a elas também são? Essas perguntas capciosas ganharam as manchetes na semana passada quando a Petrobras decidiu divulgar as perguntas de jornalistas enviadas à assessoria de imprensa da companhia, com as respectivas respostas. A prática está sendo feita no blog institucional Fatos e Dados, no ar desde o dia 2 de junho e criado para divulgar informações relativas à CPI criada para apurar irregularidades da empresa.

Os veículos de comunicação botaram a boca no trombone e ganharam apoios importantes, como da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a iniciativa da empresa não é uma unanimidade entre jornalistas: Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim, além da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), apoiam o blog. A Petrobras se defende, dizendo que as informações que divulga não pertencem ao veículo. “A nossa visão é que isso significaria uma privatização da informação na relação entre a Petrobras e esse veículo”, disse o próprio presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrieli, “Estaríamos dando ao veículo o poder e a decisão de divulgar ou não divulgar”, explicou em entrevista ao Jornal da Globo.

Voltando às duas perguntas que fiz no começo do post, os dois lados têm pontos válidos a defender. Quanto às perguntas, sim, elas pertencem aos jornalistas. Especialmente no caso de reportagens investigativas, as perguntas já são resultado de muito trabalho do profissional. Muitas vezes, só puderam ser elaboradas depois de várias entrevistas exclusivas e, portanto, carregam no seu bojo muito trabalho intelectual. Divulgá-las antecipadamente seria, portanto, um desrespeito a esse trabalho do jornalista, pois transformaria sua apuração em aviso de pauta para a concorrência. As respostas, por outro lado, pertencem à empresa, como sugere a Petrobras, que pode fazer o que quiser com essa informação.

Diante da gritaria, o blog passou a publicar as perguntas e as respostas apenas depois de a matéria ser publicada no veículo. Mas isso não foi suficiente para diminuir a ira da mídia. E aí, nesse momento, os coleguinhas perdem a razão. Ao criar esse “embargo às avessas”, onde a fonte espera o veículo publicar a reportagem para então divulgar seus dados, a Petrobras garante o “direito de furo” aos jornalistas. Mas aparentemente eles querem garantir o direito de escolher o que querem publicar, varrendo para baixo do tapete as informações que não lhes interessa. Essa prática nefasta, muito comum nas revistas semanais do país, é cada vez mais comum em todos os veículos, mais e mais recheados de jornalistas novatos, inocentes e manipuláveis, tanto pelas fontes quanto por seus diretores.

Todo profissional sabe –ou deveria saber– que o jornalismo é composto de várias versões do mesmo fato. Seu trabalho é apresentar ao público o máximo delas que puder, para que o consumidor construa a verdade dos fatos. Por isso, o argumento ridículo que os jornais vêm usando de que o blog da Petrobras serviria para intimidar a imprensa no seu trabalho de informar amplamente a população não se sustenta. Na verdade, sugiro que todas as empresas mantenham instrumentos semelhantes, para que exponham a sua versão dos fatos sem edição, evitando armadilhas de editores inescrupulosos. Obviamente não estou generalizando: a maioria dos jornalistas faz um trabalho decente, mas os veículos não podem esquecer que eles não são donos da notícia.

Para Bezos, Kindle pode salvar jornais em um mundo com menos papel

Bezos sugere que os jornais "migrem" para seu Kindle a preços mais baixos

Bezos sugere que os jornais "migrem" para seu Kindle a preços mais baixos

Jeff Bezos é um sujeito singular. Ele ficou milionário apostando no comércio eletrônico já em 1994, quando o termo ainda nem havia sido criado. Graças a sua visão de futuro, transformou a Amazon não apenas na maior livraria do mundo (sua origem), mas também na maior vendedora de música e na maior loja de departamentos. Agora ele quer repetir a dose com seu e-reader, o Kindle. Ele espera se firmar como líder no nascente (e cada vez mais explosivo) mercado de livros digitais. Mas também começa a oferecer uma possível saída para a combalida indústria de mídia.

No dia 6 de maio, deu uma nova cartada nessa direção, anunciando o Kindle DX, terceira versão do produto, que vem a público apenas dois meses depois do lançamento do Kindle 2, que continuará sendo vendido. A novidade traz recursos muito interessantes, como a possibilidade de conexão por redes WiFi (e não mais apenas por conexões de celular 3G), o dobro de memória (4 GB, suficientes para guardar, de uma só vez, uma média de 3.500 livros) e a possibilidade de se ler os textos na vertical ou na horizontal, simplesmente rotacionando o equipamento, como acontece com o iPhone. Mas o que chama mais a atenção é a sua tela de 9,7 polegadas, o dobro da do Kindle 2 e quase o tamanho de uma folha de revista. Ok, custa mais caro: US$ 489 contra US$ 359 do Kindle 2.

De todos os recursos do Kindle DX, o que mais chama a atenção é o tamanho da sua tela

De todos os recursos do Kindle DX, o que mais chama a atenção é o tamanho da sua tela

A telona é muito bem-vinda para ler as versões de revistas e jornais para o e-reader. Já estão disponíveis assim as edições diárias de 37 jornais e 28 revistas de seis países, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Mas o que mais chama a atenção é que essas assinaturas digitais podem custar até metade da assinatura do mesmo conteúdo impresso!

Isso faz todo o sentido, já que se elimina o gigantesco custo da impressão. Neste blog mesmo, já havia comentado o interessante exercício feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider, que calculou (grosseiramente) que um Kindle 2 custaria metade que o necessário em papel para se imprimir um ano do The New York Times para cada um de seus assinantes. O mesmo jornal anunciou que, até junho, oferecerá assinaturas a preços reduzidos para as cidades onde não há distribuição da versão impressa.

Não sei se Bezos conseguirá repetir seu sucesso com o Kindle, apesar de o produto estar sendo bem recebido. A concorrência está se mexendo (o principal rival é o Reader, da Sony), mas há rumores de que a Apple está preparando o seu produto e que a News Corp, de Rupert Murdoch também entraria nesse mercado. Mas a idéia de os jornais terem, como alternativa, “migrarem” para essa nova plataforma é sem dúvida nenhuma interessante.

Deitados em berço esplêndido

Enquanto nos EUA vemos os próprios jornalistas arregaçando as mangas e queimando os miolos para salvar os veículos onde trabalham ou pelo menos os seus próprios empregos, no Brasil, as coisas aparentam conforto. Isso estará associado à “marolinha”?

Não há dúvida que a situação da mídia, especialmente a impressa, está muito mais confortável aqui que nos EUA, que atravessa a maior crise da sua história. Segundo o Projeto Inter-Meios, do Meio & Mensagem, em outubro de 2008, os jornais abocanharam R$ 304,6 milhões em publicidade, que representam 4% de aumento em relação do outubro de 2007. As revistas levaram R$ 204,5 milhões no mesmo mês, alta de 9% sobre o ano anterior.

Apesar dos números para cima, os investimentos estão congelados e o facão já passou em várias Redações nesse ano. Revistas e jornais estão mais finos e com conteúdo editorial pior, em parte pelo sacrifício de pratas da casa em favor da contratação de focas, mais baratos.

Então por que ninguém se mexe? Será que necessitamos chegar à beira do abismo, a exemplo da Gringolândia, para colocarmos a massa cinzenta para funcionar?

Receio que o problema seja outro: falta coragem para se mexer em time que está “ganhando”. A mídia impressa continua sendo uma máquina bem azeitada, com faturamentos respeitáveis, que mantém vivas suas casas editoriais. Para seus diretores, que receberão seus gordos bônus mantendo o status quo, não importa que suas equipes de conteúdo digital continuem sendo apenas “a turma da Internet”. Mas o que me dá mais medo é que os colegas que estão na linha de frente da Redação pensem o mesmo e façam de tudo para que nada mude. Naturalmente, eles também não são avaliados pela performance do produto online.

É uma pena muito grande. Como falei no post anterior, 35 ex-jornalistas do agora defunto Rocky Mountain News estão tentando criar um veículo totalmente online para ocupar o lugar do finado periódico. Mas estão tentando fazer isso agora, ao invés de ter arriscado quando o Rocky ainda rodava. Quem é o culpado pelo imobilismo anterior?

Citando novamente o Inter-Meios, a única mídia que teve um crescimento expressivo no ano passado foi a Internet, cujo faturamento de outubro de 2008 foi 45,5% superior ao de outubro de 2007. Lamentavelmente, ela representa ainda apenas 3,5% do bolo publicitário, mas isso poderia ser certamente muito maior, se houvesse mais atitude dos envolvidos.

O botão milagroso

Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

Clique no botão, assine a revista e salve-a de um destino pior que a morte

As muitas revistas de uma grande editora onde já trabalhei vêm sofrendo há bastante tempo o mesmo que se observa por aí no mercado: redução nas tiragens, queda na receita publicitária e com assinaturas e diminuição das vendas em bancas. Desde que surgiu, a Internet é apontada internamente como grande vilã desse cenário, o que aliás impede que a empresa invista com seriedade nessa “nova mídia”, temendo que seus próprios sites “canibalizem” (esse é o termo usado) as revistas, roubando-lhes leitores.

Nesse cenário de muita preocupação dos executivos da casa, vira e mexe eles surgem com uma ideia brilhante. Nos últimos dias, foi decretado que os sites de cada publicação deveriam dar destaque ao “botão assine”, aquele que convida o internauta a assinar a revista em papel. E aí vale tudo: jogar o botão para o alto, pintar o bichinho de vermelho e fazê-lo piscar, transformá-lo em uma animação espalhafatosa. Se poluir ainda mais o já complicado layout, azar.

É a típica visão distorcida dos fatos. Não que os sites não devam “ajudar” suas irmãs em couché, mas o buraco é mais embaixo. Conversando com uma gerente de assinaturas da mesma editora, ela confidenciou que, apesar dessa histeria das Redações diante da “ameaça digital”, que já dura anos, até hoje a Web não provocou diferenças significativas nas vendas de assinaturas e em bancas. Sim, é isso mesmo que você leu! Quem está maculando esses números, segundo ela, são o aumento do preço de capa e a redução dos descontos nas assinaturas.

Na verdade, ela tem uma visão parcial da coisa. Esses ex-consumidores de revistas continuam consumindo informação, mas em outro lugar. E esse lugar é justamente a Web. Eles deixam de investir em papel para consumir o mesmo material jornalístico (ou ainda melhor) em outra mídia, que oferece isso de maneira mais cômoda e mais barata, até de graça.

Daí vem o povo com a história do botão milagroso… Como dizia um velho amigo, “o pior cego é o que não quer ouvir”. Quantos títulos deverão ser fechados antes de pararem de enxergar seus sites como meros complementos das revistas e canais de venda de polpa de madeira impressa?

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