Você está pronto -e quer- viver para sempre?


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Zoe Greystone, personagem da série Caprica, cuja “essência” acaba sendo carregada no robô U-87, dando-lhe “vida” após a morte da menina - Imagem: divulgação

Zoe Greystone, personagem da série Caprica, cuja “essência” acaba sendo carregada no robô U-87, dando-lhe “vida” após a morte da menina

O bilionário russo Dmitry Itskov está investindo uma fortuna para criar um esquema tecnológico de se viver para sempre. Sim, é isso mesmo que você leu: imortalidade! Apesar de a proposta estar mais perto de uma piração que de algo viável, recursos digitais já podem oferecer, se não a vida eterna, uma boa recriação do que somos e até uma certa ubiquidade. Mas será que queremos mesmo viver para sempre? Estamos preparados para isso? E a tecnologia basta para tal?

Longe de ser uma novidade, a busca da vida eterna existe desde a Antiguidade, com os alquimistas e seu mítico “elixir da longa vida”. O que muda agora é a enorme e inédita quantidade de recursos investidos na epopeia da Iniciativa 2045, como é chamada a pesquisa de Itskov.


Vídeo relacionado:


A premissa do russo é simples: como nosso corpo inevitavelmente envelhece e morre, ele quer encontrar uma maneira de mapear nosso cérebro para que ele seja “carregado digitalmente” em um avatar robótico ou holográfico, semelhantes à pessoa. Tal mapeamento seria tão perfeito, que o novo “hospedeiro” se comportaria exatamente como o “original”, com sua personalidade, sua inteligência, suas memórias… Ou seja, depois que o corpo biológico morresse, seria possível continuar “vivendo” em um novo corpo tecnológico. Mais que isso: a nossa “essência” estaria preservada indefinidamente: se acontecesse um acidente com o avatar, bastaria “carregá-la” para um novo.

Além das dificuldades tecnológicas virtualmente intransponíveis, a iniciativa levanta evidentes questões éticas e até religiosas. Para começar, os neurocientistas simplesmente ainda não sabem –nem de longe– como atingir o mapeamento do cérebro humano. No momento, estão tentando fazer isso com hydras, animais extremamente primitivos. Além disso, não há nenhuma garantia que, caso se consiga atingir essa incrível tarefa, o mapeamento carregará traços de personalidade, inteligência, memórias.

Não é de se estranhar, portanto, que o tema seja fartamente explorado por obras de ficção. Na verdade, a série “Caprica” (2009), um spin-off de “Batllestar Galactica” (2003 a 2009), é toda montada em cima de uma tecnologia que é praticamente idêntica à proposta pela Iniciativa 2045: em uma sociedade tecnologicamente muito mais avançada que a nossa, a menina-gênio Zoe Greystone consegue fazer um mapeamento de sua “essência” como a que Itskov busca. Após sua morte, essa informação é carregada em um robô que seu pai vinha desenvolvendo, o que lhe dá “vida”. Apesar do horrível corpo mecânico, a “essência” de Zoe tem autonomia e consciência a ponto de acreditar que ela realmente está ali e viva.

Esse é um dos questionamentos centrais da série: “aquilo” é mesmo Zoe e ela continua viva?

 

Criado a nossa imagem e semelhança

Incontáveis outras obras já tentaram tapear a morte, seja por magia, como em “O Retrato de Dorian Gray” (de Oscar Wilde, 1890), ou pela ciência, como em Frankenstein (de Mary Shelley, 1818). Mais recentemente, o assunto foi abraçado pela cultura pop no cinema e até pelos quadrinhos. O aspecto macabro deu lugar a todo tipo de sentimento, inclusive heroísmo, alegria e esperança.

Bem mais recente que essas obras, a série “Black Mirror” já tratou da vida após a morte pela tecnologia em dois episódios: “San Junipero” e “Volto já”. E esse último, de tudo que já foi falado aqui, é o que está mais próximo de acontecer. Na verdade, assustadoramente próximo.

Sem querer dar muitos “spoilers”, a protagonista do episódio volta a conviver com seu falecido esposo usando recursos digitais. Isso só é possível porque o sistema cria uma representação relativamente fiel da personalidade e das memórias do morto a partir de sua presença digital, por exemplo redes sociais e e-mails. Quanto mais a esposa dava acesso a informações do morto, mais seu “pós-vida digital” ficava parecido a ele.

Acha tudo isso uma “viagem”? Pense de novo.

Vários serviços online se propõem a identificar quem, o que e como somos a partir de nossas pegadas digitais. Um dele é o Apply Magic Sauce, criado pelo Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Entre vários testes, o mais destacado é um que, a partir apenas de nossas curtidas no Facebook, busca traçar nosso perfil psicológico em segundos. Os resultados, apesar de imperfeitos, são impressionantes, considerando que a limitada origem da informação.

Aí eu me pergunto: se um experimento acadêmico é capaz de obter tal resultado a partir apenas de nossas curtidas, imagine o que o próprio Facebook (ou o Google, ou a Amazon, ou a Apple ou tantas outras empresas) são capazes de conseguir com o oceano de dados que lhes entregamos o tempo todo e cada vez mais.

Entende por que “Volto já” pode estar logo ali, dobrando a esquina?

 

Até onde devemos ir?

Se a realidade flerta com a ficção como acabamos de ver, talvez Itskov seja, afinal, mais um visionário que um desvairado. Mas supondo que ele realmente obtenha sucesso em sua pesquisa, será que isso é algo que realmente devemos almejar?

Em seu histórico discurso para a turma de formandos de Stanford em 2005 (que pode ser visto na íntegra abaixo), Steve Jobs diz (aos 9’27’’ do vídeo), “lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais importante que eu encontrei para fazer grandes escolhas na vida”.



O que acontecerá se Itskov tiver sucesso com sua tecnologia? Nem estou entrando na questão de se o que será carregado em seus avatares realmente estará vivo, mas sim o que será de nós enquanto ainda estivermos ocupando o nosso corpo biológico, aquele que a natureza nos concedeu. Se tivermos a possibilidade de “viver para sempre”, será que continuaremos lutando para viver a vida da melhor maneira possível? Qual a chance de essa segunda (ou terceira, quarta, quinta…) chance estragar justamente a nossa humanidade, transformando-nos em uma raça preguiçosa e desleixada consigo mesma e com o mundo. Afinal, se “algo der muito errado” –ou seja, se você morrer– será como um game do Mario Bros: você renascerá no último “checkpoint”.

Há ainda o aspecto da “alma”, do “espírito” ou seja lá qual for o nome que sua religião dê para esse… “sopro divino”. Creio que Itskov não leve isso em consideração, pois seria necessário iniciar uma nova linha de pesquisa, para que isso também seja transferido com o cérebro mapeado.

Muita gente pode achar tudo isso incrível, um universo de possibilidades que se descortina diante da humanidade. Não estou aqui para julgar ninguém, mesmo porque eles podem estar certos, e eu errado. Mas acho que Jobs dá, no discurso acima, uma dica de valor inestimável de como devemos viver nossa vida. E morrer depois.

E já que citei tantas obras de ficção, gostaria de citar mais uma: o filme “O Homem Bicentenário” (1999), que conta a história de um robô chamado Andrew (vivido por Robin Williams). Com o passar dos anos, ele começa a desenvolver emoções e altera seu próprio corpo para que ele fique “humano”, sintetizando órgãos. Seu grande desejo: ser reconhecido pela sociedade como humano. Mas, ao final, percebe que isso só será possível no momento em que ele justamente abrir mão de sua imortalidade robótica. Colocando de maneira bem direta, Andrew só poderia ser humano se ele morresse.

Bastante emblemático, não acham?


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A aposta de Murdoch no iPad

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Nos últimos dias, a mídia especializada deu grande destaque ao novo veículo que Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal, está criando. Batizado de The Daily, o periódico deve ser lançado no início de 2011, será tocado por uma redação de cem jornalistas, alguns deles grandes nomes do mercado americano, e começa com uma injeção inicial de US$ 30 milhões.

Até aí, no big deal. O que torna The Daily realmente único é o fato de que ele será publicado apenas no iPad. Nada de versão na Web e muito menos em papel. Murdoch, um sujeito que, se pudesse, acabaria com a Internet só porque ela atrapalha o que ele realmente gosta de fazer, que são os jornais, e que vem buscando há meses (anos?) um modelo de negócios substituto para o papel, parece tê-lo encontrado no incensado tablet da Apple.

The Daily pode dar certo. Primeiramente porque o mogul australiano da mídia conta com o apoio do próprio Steve Jobs, CEO da Apple, para criar um produto que realmente tire proveito dos encantadores recursos do iPad, fugindo da mesmice, das limitações e da sem-gracisse dos produtos editoriais lançados até agora para o tablet (nota do editor: Jobs publicamente detesta o aplicativo para iPad do The New York Times, arquirrival do The Wall Street Journal).

Além disso, usuários do iPad adoram consumir aplicativos que tornem a sua experiência com o tablet melhor. E, nesse ponto, os US$ 0,99 que o veículo cobrará por semana são uma pechincha. Como conseguiram a mágica de cobrar tão pouco? Bom, como expliquei no meu post anterior, 80% dos custos de produção de um jornal são “desperdiçados” em coisas como papel, impressão, distribuição, infra-estrutura monumental… Apenas 20% são investidos naquilo que as pessoas realmente consomem, ou seja, conteúdo editorial. Criando um veículo que roda apenas no iPad, Murdoch elimina a maior parte desses custos “extras”.

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

A expectativa da News Corp. é chegar a 500 mil assinantes do The Daily em cinco anos. Se isso acontecer, isso passa de US$ 25 milhões em receitas de assinaturas anuais. Ok, um terço deve ficar com a Apple, mas, somadas às receitas de publicidade, The Daily deve ser financeiramente saudável. Se a Apple ainda trouxer o aplicativo pré-instalado no iPad, a quantidade de usuário pode ser ainda maior (tai a Microsoft que não me deixa mentir quando o assunto é pré-instalar programas no sistema operacional para ganhar mercado).

Mas nem tudo são flores no novo rebento de Murdoch. Se, por um lado, o modelo de negócios parece consistente, não posso dizer o mesmo do produto em si. Especialmente porque se trata de um jeito novo de se entregar notícia velha. Apesar de não ser impresso em árvores mortas, The Daily insiste no velho modelo do jornal diário de abrangência nacional: você baixa a edição de hoje, que traz notícias de ontem. As atualizações só virão amanhã… e com notícias de hoje. Nada de noticiário atualizado ao longo do dia. E muito menos pense em um noticiário personalizado, outra demanda que está explodindo entre os internautas.

Além disso, ele não oferecerá link para nada na Internet: todo o conteúdo será fechado nele mesmo. E, claro, ninguém dará link para ele, já que se trata de um aplicativo, e não de um site. De novo, The Daily fica mais parecido a um impresso e menos digital.

Por fim, The Daily pode enfrentar concorrência no próprio iPad de sites com conteúdo de qualidade e grátis, assim como os jornais de Murdoch enfrentam há anos na Web. Já se observam sites que começam a oferecer na Web produtos criados especificamente para iPhone e iPad, o que implica inclusive em alternativas ao uso do Flash, que os irritantes da Apple baniram de seu ecossitema. E aí, The Daily ficará ainda mais com cara de um jornal lento e pesadão.

Moral da história: por mais bem feito que a turma da Apple consiga criar o The Daily, eu diria que as suas chances residem muito mais em seu modelo comercial que editorial, que não me convence. É uma tremenda aposta de Murdoch, um dos maiores representantes de uma indústria que, especialmente nos EUA, agoniza. Mas eu sinto cheiro de naftalina: Naftalina for iPad.

Jobs agora estende sua mão para a imprensa… no iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise - Foto: reprodução

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise

Há pouco mais de um ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, sugeriu publicamente que seu e-reader, o Kindle, poderia ajudar a imprensa (especialmente a impressa) a sair de sua enorme crise. Afinal, ele permite que as grandes casas editoriais entreguem seus produtos a custos muito mais baixos, dispensando a impressão e a distribuição. Tanto que convenceu grandes títulos americanos a abraçar sua causa, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Claro, nem todo mundo concordou: Rupert Murdoch, dono da News Corporation, torceu o nariz e chegou a dizer que “não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”.

Ontem foi a vez de Steve Jobs engrossar o coro de Bezos. Ou quase: na verdade, ele sugeriu que isso pode acontecer no seu tablet, o iPad. Em entrevista realizada no evento D: All Things Digital, promovido anualmente pelo The Wall Street Journal, o CEO da Apple repetiu a “receita de bolo”: “estou tentando fazer esses colegas adotarem posturas mais agressivas que o que eles cobram tradicionalmente pelo impresso, porque eles não têm os custos de impressão, eles não têm os custos de entrega, cobrando um preço razoável e ganhando no volume.”

Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior.

Algo que se aproximou bastante da minha visão foi um conceito apresentado pela revista Sports Illustrated em dezembro no ano passado, reproduzida no vídeo abaixo:

Claro que nem tudo que vemos em um conceito se materializa, pelo menos não logo de cara. Mas o protótipo apresentado pela revista no mês passado, já era bastante interessante, inclusive trazendo alguns recursos de compartilhamento não visto no primeiro conceito apresentado:

Em um momento em que o “jornal do futuro” não consegue ir além de infames golpes publicitários dos jornalões, chega a ser revigorante ver iniciativas com as da Sports Illustrated. O papel ainda vai nos acompanhar por muito tempo, mas o uso criativo de equipamentos como o iPad abre a possibilidade de criar uma categoria completamente nova –e muito mais rica– de veículo de comunicação, algo pelo qual as pessoas voltariam a achar razoável pagar. O que não dá é continuar querendo ganhar isso no grito.

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