A Internet está mudando seu jeito de falar

Foto: reprodução

Nesta semana, as linhas do tempo do Facebook de muita gente foram invadidas por um confuso Vincent Vega, personagem vivido por John Travolta em Pulp Fiction. A cada aparição, ele estava em um lugar diferente e inusitado, como em um ponto de ônibus, em um quadro do artista Escher, em um clipe da banda A-Há ou no planeta Tatooine. Trata-se de um “meme”, fenômeno cultural típico das redes sociais. Junto com “emojis”, “emoticons” e afins, eles estão moldando a maneira como as pessoas se comunicam e se expressam.

Para quem não sabe o que são, “emoticons” –junção dos termos em inglês “emotion” e “icon”– são sequências de caracteres usados para acrescentar algo de linguagem corporal a um texto escrito. Por exemplo, : – ) é um rosto feliz (experimente inclinar a cabeça para a esquerda). Eles se popularizaram com sistemas online nos anos 1980 e, com o avanço da tecnologia, surgiram versões gráficas 🙂 a partir de 1997. Chamados de “smileys”, os pequenos desenhos acabaram se combinando com os símbolos japonses “emojis” –junção dos termos em japonês “e” (imagem) e “moji” (letra)– criados originalmente para celulares da NTT DoCoMo. Com os smartphones, as “carinhas” se popularizaram de vez, sendo até mesmo incorporadas aos seus teclados. E já são mais de mil! Já os “memes de Internet” são imagens que se popularizam entre os internautas, que as usam para transmitir ideias ou fazer piadas, acrescentado textos ou alterando o visual, como no caso do Travolta confuso acima.

Usuários de smartphones e de redes sociais, especialmente os mais jovens, encaram essas novas formas de comunicação de maneira totalmente integrada ao cotidiano. Tanto que elas já extrapolaram os limites do mundo digital, sendo reproduzidas até na TV e no cinema. A publicidade também está tirando proveito disso, como nas campanhas do Itaú (exemplo abaixo):

 

 

Muita gente já encara os emojis como novas letras, ou pelo menos ideogramas, a exemplo do formato dos alfabetos orientais. E isso não é piada!

O ponto é: quem não entende –e usa– os símbolos na sua comunicação pode ser considerado um novo tipo de analfabeto?

 

Sai a “letra de mão”; entram as “carinhas”

Paralelamente à inclusão desses novos símbolos de compreensão universal nos “alfabetos” das pessoas, há um movimento pedagógico que propõe que a escrita cursiva, a chamada “letra de mão” deixe de ser ensinada às crianças nas escolas.

A justificativa: as crianças vivem em um mundo onde todo o conteúdo é escrito com letras do tipo bastão, as “letras de forma”. Além disso, todas as formas de entrada de texto digitais –smartphones, tablets, computadores e até TVs– oferecem basicamente essa opção. Dessa forma, a “letra de mão” estaria ultrapassada e seria desnecessário conhecê-la. Em grande parte das escolas brasileiras, a alfabetização já se dá com letras bastão, partindo para a letra cursiva lá pelo terceiro ano do Ensino Fundamental, quando a coordenação motora está mais refinada e o processo de alfabetização está praticamente concluído.

Quem me conhece sabe que sou um liberal e, entre outras coisas, defensor ferrenho da língua viva. Mas acho que tudo na vida deve ser encarado com equilíbrio.

Apoio, portanto, o uso de memes e emojis na comunicação. Acredito que podem até mesmo extrapolar textos informais, sendo usados, por exemplo, em material jornalístico. Claro, não em todos: não estou sugerindo que encontremos “carinhas” nas páginas de economia do Estadão, por exemplo. Mas em outros veículos, com uma proposta mais jovem, eles são não apenas aceitáveis, como bem-vindos.

Quanto à eliminação da letra cursiva nas escolas, não vejo com bons olhos. Entendo perfeitamente a justificativa da proposta, e as coisas realmente acontecem assim. Mas a “letra de mão” continua existindo, inclusive nas telas digitais, como opção de formatação. É uma competência que não deve ser perdida, nem que seja para que as crianças consigam entender materiais escritos assim depois. Porém é mais que isso!

Afinal, a tecnologia nos oferece a oportunidade de enriquecer nossa comunicação, sem precisarmos empobrecê-la em outro canto.

A “letra de mão” deve ser abandonada?

Nos EUA, 40 Estados devem parar o ensino das "letras de mão" a seus alunos

Nos EUA, 40 Estados devem parar o ensino das "letras de mão" a seus alunos

Comecei a escrever cedo: aos quatro anos. Isso só foi possível por interesse meu e disposição dos meus pais, que respondiam pacientemente cada uma das minhas infindáveis perguntas sobre o som resultante da combinação de duas letras quaisquer. A ferramenta que viabilizou isso foi um conjunto de letrinhas plásticas multicoloridas, relativamente comuns na época. Elas tinham uma característica crítica para essa construção do conhecimento: eram todas maiúsculas “de forma”, que facilitam a compreensão das correspondências entre fonemas e grafemas.

Se, por um lado, isso antecipou minha alfabetização, por outro me causou um problema quando cheguei no antigo primário, quando a professora exigia que eu escrevesse em letra cursiva, as chamadas “letras de mão”. O resultado foi uma letra feia, que só fazia piorar com as malfadadas aulas de caligrafia. Minha letra só melhorou quando cheguei à faculdade, e me foi dada a “graça” de poder escrever com letras bastão –as tais “de forma”.

Me permiti esse pequeno relato pois me lembrei do meu caso quando li reportagem que informa que os EUA estão prestes a abandonar o ensino da letra cursiva às crianças (leia as três retrancas no Estadão aqui, aqui e aqui). Resumidamente, conselhos de educação de 40 dos 50 Estados norte-americanos consideram a “letra de mão” ultrapassada e desnecessária, já que os alunos cada vez mais escrevem apenas em teclados. E estão dispostos a pagar o preço de formar pessoas incapazes de ler documentos históricos, por exemplo.

Interessante observar que o argumento é menos pedagógico e mais utilitário. Aliás, o utilitarismo é típico da educação dos EUA. Observando nossa realidade, o que temos hoje em nossas escolas, impulsionada pelo Construtivismo, é a alfabetização com letras bastão, partindo para a letra cursiva lá pelo terceiro ano do Ensino Fundamental, quando a coordenação motora está mais refinada e o processo de alfabetização está praticamente concluído.

Juntando essas duas linhas com a minha experiência pessoal, não posso defender a proposta norte-americana. As crianças devem saber interpretar um texto escrito com “letra de mão”, mesmo que sejam textos antigos. Além do mais, a escrita cursiva nunca desaparecerá totalmente, nem que seja em convites ou documentos solenes. Porém, uma vez que já a tenham dominado, deve lhes ser dado o direito de escolher a forma preferida de escrever suas palavras. E sem ter que esperar até a faculdade para isso.

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