Morre outra vítima da imprensa

 

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa - Foto: reprodução

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa

Na quinta, foi divulgada a morte de Icushiro Shimada, ex-dono da Escola Base e vítima de um erro generalizado da imprensa, que destruiu as vidas de sua família e de seus sócios e funcionários. O assunto virou um case que é estudado nas faculdades de jornalismo, mas profissionais e veículos continuam escorregando na ética e publicando denúncias sem a devida checagem. E as redes sociais só fizeram piorar esse comportamento.

Para quem não se lembra, em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do IML informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”. Isso foi suficiente para o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocar a imprensa e botar a boca no trombone, condenando os envolvidos sem qualquer julgamento. Iniciado no Jornal Nacional, o denuncismo se espalhou por toda a imprensa da época, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não embarcaram por acharem que não havia provas.

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável - Foto: reprodução

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Eles faliram e tiveram que se mudar, pois chegaram a ser ameaçados de morte em telefonemas anônimos. Porém, quando a investigação foi concluída, “surpresa” geral: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito e os acusados para sempre foram condenados pela imprensa, por mais que tenham sido inocentados pela Justiça. Pediram indenizações do Estado e de veículos de mídia; algumas delas foram pagas depois de longos recursos, outras ainda não. Shimada morreu pobre, vítima de um infarto no último dia 16 de abril, assim como sua mulher, que morreu de câncer em 2007.

O comportamento profissional irresponsável e vergonhoso desse caso deveria ser suficiente para que casos assim não voltassem a acontecer. Não me refiro apenas a algo com essa magnitude, que não acontece tanto (mas desgraçadamente ainda acontece), mas também a falhas supostamente menores (mas não menos antiéticas) que estão no noticiário todos os dias.

A busca pelo “furo”, uma notícia exclusiva capaz de aumentar a audiência de um veículo, é como uma corrida por uma medalha de ouro. É legítima e bem-vinda. Mas não pode ser justificativa para atropelos. Mas é justamente isso que acontece: tudo parece ter virado uma “fonte confiável”. E, quando a blogosfera explodiu, lá pelo ano 2000, veículos começaram a usar até blogs obscuros como fonte. À medida que as redes sociais ficaram mais importantes, elas começaram a ocupar esse espaço.

Um caso recente que ilustra bem isso foi o do tal jornalista dinamarquês que teria vindo ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo, mas “desistiu de seu sonho” e voltou para seu país depois de se deparar com as nossas mazelas sociais. Esse assunto resultou em longos debates no Facebook (até aí, tudo bem) e chegou a pautar vários veículos, que compraram a historinha como verdade (aí tudo mal!) e publicaram vários artigos (inclusive algumas toscas bravatas nacionalistas). Mas a história não era séria (pelo menos, não totalmente): um resumo da confusão pode ser visto neste post (que, por sinal, teve que ser atualizado após a publicação).

Pressões por dar logo uma notícia, especialmente quando ela é bombástica, sempre existiram, e muitas vezes vêm de fora da Redação. Quando seus concorrentes já estão falando no assunto, fica ainda pior, principalmente em veículos em tempo real, como a mídia online, a TV e o rádio. Mas essa pressão não pode servir de muleta para deslizes. Isso foi muito bem explorado no trecho abaixo, da série da HBO “The Newsroom”:

 

 

Como dizia Gabriel García Márquez, “a pressa é ingrediente desse ofício”, assim como a pressão. Quem não consegue realizá-lo eticamente nessas condições não está apto para o jornalismo. Se a imprensa continuar realizando seu trabalho dessa forma, acabará vítima de si mesma.

Veja exemplo de antijornalismo

Capas de Veja, O Globo e Folha sobre o resultado do julgamento dos Nardoni, e de Veja, condenando-os dois anos antes - Imagem: reproduções

Capas de Veja, O Globo e Folha sobre o resultado do julgamento dos Nardoni, e de Veja, condenando-os dois anos antes

“Agora, Isabella pode descansar em paz”. Alguém pode me dizer exatamente o que quer dizer a capa da Veja desta semana, reproduzida ao lado? É mais um exemplo do grotesco antijornalismo praticado por esse semanário que insiste em desonrar continuamente a sua própria história.

Mas, agora que o casal Nardoni finalmente foi condenado pela Justiça, passando de acusados a culpados perante os olhos da lei, como Veja poderia agir diferentemente, se ela própria já os havia condenado na capa de 23 de abril de 2008, também reproduzida ao lado. Porém agora ela não está sozinha: O Globo destinou obscenos 47% de sua capa do dia seguinte ao assunto, com uma manchete espalhafatosa e uma foto dos populares comemorando o resultado como a conquista da Copa do Mundo.  Chamadas semelhantes abriram publicações por todo o país. Apenas como comparação, a Folha, apesar de chamada de seis colunas no alto da capa, conseguiu ser um pouco mais “equilibrada”.

Não estou defendendo os Nardoni. Eles foram julgados e condenados pela Justiça e, para mim, isso é tudo o que preciso saber, mesmo diante da trágica morte da menina. Meu objetivo aqui não é discutir o processo, e sim como a mídia, como um todo, transformou o caso em um verdadeiro circo de horrores, iniciado com as primeiras conclusões da investigação policial (que não condena ninguém) e teve seu ápice ao longo dessa semana, com os acontecimentos ocorridos no fórum de Santana.

Veja e toda a turma de coleguinhas agiu de maneira irresponsável ao espetacularizar o caso (que, diga-se de passagem, acontece aos montes nas periferias das grandes cidades, sem que “ninguém” fique sabendo), antecipando-se ao resultado da Justiça. Provocando a massa cinzenta: alguém já pensou o que seria a vida desses dois no caso de uma improvável absolvição? Mais que isso, apesar de todo o trabalho da promotoria e da defesa, os jurados, que são “gente como a gente”, já chegaram ao tribunal com uma enorme carga de “informação” sobre os acusados, pois foram bombardeados com isso pela mesma mídia. Não seria exagero, portanto, dizer que a imprensa teve papel determinante na condenação do casal.

“Vim do Estado do Piauí para ver a justiça ser feita no Estado de São Paulo!” “Vim da minha cidade do interior, porque lá não tem essas coisa (sic) de morte, de assassinato!” “Ora, ora, ora! O júri é aqui fora!” “Pega lá, pega lá, pega lá! Pega lá para nóis linchá (sic)!” “Vamos arrancar o pescoço desse desgraçado!” Frases ditas pelos populares à porte do fórum de Santana… Os mesmos que avançaram sobre os camburões que conduziram os já condenados a presídios em Tremenbé e –pasmem!– sobre o carro de familiares dos condenados.

Quem são essas pessoas e por que elas estão se prestando a isso? Por que Veja e os demais veículos não respondem isso e explicam também o seu papel na redução da nossa sociedade à barbárie? Em nome da liberdade de imprensa e do direito à informação, valores que –sim– devem ser preservados, transformam cidadãos em animais para vender mais exemplares.

Capa do Notícias Populares em que chama a Escola Base (inocentada pela Justiça) de "escolinha do sexo" - Imagem: reprodução

Capa do Notícias Populares em que chama a Escola Base (inocentada pela Justiça) de "escolinha do sexo"

Seria menos pior se algo assim nunca tivesse acontecido antes. Mas infelizmente não é a primeira, nem a segunda (nem a décima) vez que isso acontece. Pelo jeito, os coleguinhas não aprendem com os seus erros, nem mesmo os mais bizarros, como o do caso da Escola Base, que aconteceu a exatos 16 anos. Assim como agora, todos os veículos (exceto o extinto Diário Popular, justiça seja feita) noticiaram, julgaram e condenaram seis pessoas por suposto abuso sexual de crianças que estudavam na escolinha de classe média do bairro da Aclimação (São Paulo), que chegou a ser chamada, em manchete do finado Notícias Populares, de “escolinha do sexo” (reproduzida acima). Assim como agora, a fonte da imprensa foi a polícia. Mas, diferentemente de agora, os acusados foram inocentados: as fissuras anais infantis não foram causadas por abuso sexual, e sim por diarréia. Exatamente o que meus coleguinhas repetiram de novo nesse caso: uma grande cagada!

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