O que se aprende com a entrevista de um megatraficante a um ator

Sean Penn (à esquerda) aperta a mão de “El Chapo” durante a entrevista - Foto: reprodução

Sean Penn (à esquerda) aperta a mão de “El Chapo” durante a entrevista

A recente entrevista de Sean Penn com o megatraficante “El Chapo” causou enorme gritaria no meio jornalístico, por subverter muitas regras do ofício. Mas qualquer pessoa pode aprender algo com o episódio.

Para quem não sabe do que se trata, a edição do dia 9 da revista RollingStone, famosa pelo noticiário do show biz, trouxe uma bombástica entrevista feita pelo ator americano Sean Penn com o mexicano Joaquín Archivaldo Guzmán Loera, conhecido como “El Chapo”, o maior traficante de drogas da Terra. Ele já havia fugido da prisão duas vezes, mas acabou sendo preso um dia antes de a entrevista ser publicada.

A entrevista a Penn, realizada em outubro, foi a primeira concedida por “El Chapo” desde 1993. Foi também a primeira vez que ele admitiu publicamente qual é seu negócio (naquele ano, disse que era apenas um fazendeiro vítima de um mal-entendido). Mas, apesar de ter um inegável interesse jornalístico, a entrevista não chega a trazer grandes novidades sobre aquele que era o bandido mais procurado do mundo. E aí reside o primeiro motivo para o descontentamento dos jornalistas (vale lembrar: eu sou jornalista).

De fato, as perguntas de Penn foram simples, quase simplórias. Nenhuma delas era contundente, desconfortável, capaz de tirar uma grande revelação do líder do Cartel de Sinaloa. Por isso, li e ouvi muitos colegas dizendo que Penn não se preparou para a entrevista, foi conivente e até egocêntrico. Em nenhum momento o entrevistador colocou o entrevistado na parede. Mas falar é fácil: quem espremeria “El Chapo” em seu próprio quartel-general?

Constatei uma inveja velada em muitos dos detratores de Penn. Afinal, ele conseguiu uma entrevista que muita gente gostaria de ter feito, mas que ninguém teve coragem de buscar, em grande parte pela violência que o narcotráfico mexicano dispensa à imprensa local. Cavou os contatos, especialmente a atriz mexicana Kate del Castillo, uma “amiga” do traficante, que intermediou o encontro. E foi para a boca do leão. Que estava manso, é verdade, mas ainda era um leão com todos os dentes.

Daí vem a segunda cisma: acusam o ator de ter feito uma peça de propaganda e chamado de jornalismo. Isso seria reforçado porque a revista submeteu o texto à pré-aprovação do traficante. As críticas foram mordazes, como se Penn tivesse jogado pedra na cruz. Mas ninguém mencionou que essa prática é mais comum que se admite.

Então o que torna o “crime” do ator pior que o dos jornalistas?

 

O que podemos aprender?

Sean Penn não é um jornalista profissional. É um ator.

Mas o que ele fez foi, sim, jornalismo. Poderia ter sido melhor? Talvez. Mas considero as críticas um tanto exageradas.

Primeiramente porque conseguir a entrevista, a despeito das limitações, foi memorável. E isso só foi possível porque o ator combinou sua reputação com trabalho e coragem, mas também bateu de frente com tabus, como o caso de submeter seu texto a pré-aprovação.

Bancando aqui o papel de “advogado do diabo”, “El Chapo” teria concedido a entrevista se essa exigência não fosse atendida? Além disso, a revista afirma que o traficante não pediu qualquer alteração, mas e se tivesse pedido? Seria o caso de jogar tudo fora para não atender a demanda? É uma questão ética delicada, mas está longe de ser rara, como quer fazer parecer a turma que está batendo o bumbo. Passa a ser uma decisão editorial sacrificar uma parte para salvar o resto, que ainda pode ter um enorme interesse jornalístico.

Profissionais de todas as áreas enfrentam dilemas morais várias vezes em sua carreira. E isso acontece porque somos humanos e não controlamos todas as partes envolvidas no processo, que às vezes têm interesses conflitantes metidos no meio de objetivos comuns.

Para casos como esse, regras surgem para criar zonas de conforto, que tiram dos envolvidos o peso da decisão. Isso pode ser muito perigoso, pois também limita a criatividade e a ousadia para feitos grandiosos. Por isso, não podemos nos submeter cegamente a elas. Isso não quer dizer, de forma alguma, romper com a ética, mas sim analisar os fatos sem a influência da uma maioria acomodada.

Outra coisa que podemos aprender é não nos rendermos ao corporativismo. Muitos colegas também encheram a boca para criticar o texto de Sean Penn, que consideraram de baixa qualidade. É um fato que ele não ganhará o Nobel de Literatura por esse trabalho, mas já vi muitos textos de jornalistas profissionais e formados em faculdades de comunicação que são ainda piores. Muito piores.

Se Sean Penn fosse jornalista, a gritaria teria sido menor? Provavelmente sim, e isso é horroroso!

Se a questão anterior era sensível, essa é o fim da picada!

Vivemos em um mundo em que as formas da aprendizagem e de profissionalização estão sendo subvertidas pela tecnologia e por novas gerações que não aceitam rótulos do que são ou do que podem fazer, ditados por alguém que se ache no direito de apontar o dedo, qualquer que seja seu motivo anacrônico.

Por isso, concluo que Sean Penn é um ator que fez uma incrível reportagem, ofuscando um monte de jornalistas. Esses deveriam parar de rogar praga e tentar aprender algo com esse caso. Todos nós podemos aprender! Pelo menos a agir pensando com nossas cabeças e sem nos escudarmos no corporativismo. O mundo ficará melhor quando todos praticarem isso.

 

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