Outra maneira de encarar a intangibilidade do amor

“Apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.” Isso é matéria-prima recorrente para poetas, psicólogos e qualquer um que se proponha a tentar entender a mente humana. Mas é possível se apaixonar por um software? E ainda ser correspondido?

A frase é do filme “Ela” (“Her”, 2013), em cartaz nos cinemas brasileiros e cujo trailer pode ser visto acima. Esse post não é uma crítica cinematográfica, e prometo tentar não fazer “spoilers”, mesmo porque recomendo fortemente que você o assista. Quero “apenas” discutir o que é necessário para que alguém ame e seja amado, uma das inúmeras questões levantadas por este surpreendente filme de Spike Jonze.

Não é difícil entender por que o protagonista, Theodore (Joaquin Phoenix), se apaixona por Samantha, a persona que habita o novo sistema operacional de seu computador, movida por uma inteligência artificial estupenda em um futuro próximo. Ela é praticamente a encarnação da mulher perfeita, exceto pelo fato de que não tem um corpo. Aparece apenas na voz de Scarlett Johansson. Como diriam os psicólogos, ela é a materialização (ops, ato-falho) das projeções mais íntimas de Theodore.

Não, Samantha não faz cegamente tudo o que seu “dono” quer. Pelo contrário, ela é incrivelmente “humana”, com sensações e emoções, que você pode até questionar se são reais ou não, pois Samantha é um programa. Mas todos esses sentimentos estão alinhados com os de Theodore, de uma maneira como ele nunca encontrou em nenhuma mulher real, nem mesmo em sua ex-mulher, com quem cresceu junto. De repente, parece que todos na sala de cinema estão apaixonados também, e ele e Samantha seriam feitos um para outro.

Talvez fossem até demais. Como ela sabe de tudo sobre ele? Bem, Samantha tem a sua disposição todos os rastros digitais deixados por Theodore: seus e-mails, suas registros em todo tipo de redes sociais, seu trabalho… virtualmente todo tipo de informação parametrizada ou desconexa de sua vida, guardada para sempre na Internet. E, graças à autorização de Theodore, Samantha teve acesso a tudo isso, para lhe oferecer “alguém” que atendesse a todas as suas necessidades, de uma maneira tão possível quanto seria para uma “pessoa”.

De forma alguma, estou querendo transformar Samantha em uma espécie de “cybermonstro”, que manipulou Theodore a partir de seus dados. Admito que, por alguns segundos, enquanto assistia ao filme, eu pensei que o fabricante daquele sistema operacional estaria com a mão sobre a vida de todos os seus usuários, de uma maneira assustadoramente completa. Será que Samantha, tão meiga e dedicada, compartilhou toda essa informação valiosa e pessoal de Theodore com seus criadores? Mesmo depois de ela se apaixonar por ele?

Definitivamente essa não é a proposta do filme, mas –ok– ele me fez pensar no Facebook, no Google e em tantas empresas que parecem nos conhecer cada vez mais, às vezes aparentemente melhor que nós mesmos. Compartilhamos até nossos desejos mais íntimos com seus algoritmos, em troca de uma experiência digital mais e mais eficiente e até mesmo prazerosa. Estamos metidos nisso. E felizes.

Não é a primeira vez que a ficção recria emoções absolutamente humanas em máquinas. A belíssima refilmagem de 2003 de “Battlestar Galactica”, com seus cylons “humanos”, capazes de amar e serem mais religiosos que os verdadeiros humanos, a série derivada “Caprica” (2009), com avatares idênticos às pessoas que representam puramente criados a partir dos “rastros digitais” deixados por elas, ou os replicantes do cult “Blade Runner” (1982) são bons exemplos. Há até o divertido “Amores Eletrônicos” (1984), em que um computador se apaixona por uma bela violoncelista (você pode assistir ao filme completo, legendado em português).

Todos esses filmes e seriados questionam não apenas o que é a humanidade, mas também o que é o amor e quem tem o direito de sentir isso. Poderíamos argumentar que algo que nos torna humanos é justamente o fato de nunca encontrarmos uma pessoa cujos sentimentos estejam completamente alinhados a nós mesmos, ao contrário de Theodore e Samantha. Duas pessoas diferentes nunca serão totalmente compatíveis. Mais que isso: nós mudamos continuamente e de maneira independente daqueles que eventualmente já chamamos de nossa cara-metade.

Mas talvez estejamos caminhando para um futuro como o de “Caprica”, “Galactica” ou “Blade Runner”, em que os algoritmos oferecerão às máquinas as nossas virtudes e os nossos defeitos, nossos desejos e nossos medos, nossas crenças e nossas incertezas.

E então, afinal, talvez elas amem verdadeiramente.

Bônus musical:

Selecionei duas músicas de “Ela” e de “Amores Eletrônicos”, que, para mim, sintetizam essas histórias. Divirtam-se!

  • “Ela”:

“The Moon Song”

“Photograph”

  • “Amores Eletrônicos”:

“Electric Dreams”

“Love Is Love”

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Uma resposta

  1. […] foi brilhantemente ilustrado no filme “Ela” (“Her”, 2013), de Spike Jonze. Para quem não viu o filme (que recomendo fortemente), ele conta […]

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