Então como deve ser o jornal do futuro?

No meu último post, comentei a minha decepção diante do “jornal do futuro” que a Folha de S.Paulo tanto propagandeou e finalmente lançou no dia 23 de maio. Depois da grande campanha de marketing, anunciando uma nova forma de se ler jornal, inclusive fazendo referência a downloads e ao iPad, esperei que a Folha pudesse, afinal, criar algo inovador, pelo menos no caminho do que realmente deveria ser um “jornal do futuro”, ainda que não tivesse chegado lá. Mas realmente a coisa não passava de um simples golpe publicitário, como já expliquei.

O post teve boa repercussão e várias pessoas vieram falar comigo sobre o que, afinal, deveria ser um “jornal do futuro” (insisto nas aspas). Para mim, algumas características seriam essenciais:

  • noticiário personalizado a partir da reorganização do material segundo critérios de relevância do usuário (e não apenas “leitor”), explicitamente informados com antecedência ou coletado a partir da navegação e das relações desse usuário com outros conteúdos e outras pessoas;
  • conteúdo realmente multimídia e interativo (concebido assim desde a pauta);
  • experiência informativa expandida com recursos de toda a Web, e não apenas com produtos da publicação ou de produtos da mesma empresa;
  • possibilidade de participação efetiva do usuário, muito além dos comentários observados hoje em alguns sites;
  • fim do “conteúdo fechado a assinantes”, adotando novos modelos de negócios que privilegiem usuários pagantes sem penalizar os não-pagantes;
  • produção de um produto jornalístico que transcenda diferentes mídias, tirando proveito do que cada uma tem de melhor, a despeito da mera transposição de conteúdo da “mídia de origem” (basicamente impresso ou TV) para a Web, como se vê majoritariamente hoje.

Hoje troquei rapidamente algumas palavras com Beth Saad (@bethsaad), a partir de um twit seu que justamente levantava a discussão da leitura de notícias no iPad, dando link para um texto que fazia referências ao uso de applications para uma experiência mais rica nisso. Interessante que, há algumas semanas, venho debatendo isso com Everson Siqueira (@eversonsiqueira) o uso dos mesmos apps para criar produtos editoriais mais ricos para essas novas plataformas, além de simples e-books. Um exemplo interessante é o Alice for iPad.

Algo que não vi ainda ninguém fazendo para valer é alterar os seus meios de produção para separar o conteúdo da forma, a exemplo que os desenvolvedores da Web já vêm fazendo há alguns anos, com a popularização do uso de CSS. Basicamente a ideia é produzir o conteúdo apenas uma vez, publicando-o sem qualquer espécie de formatação e enriquecimentos, que seriam acrescentados dinamicamente no momento da “saída”, seja no papel, seja na Web, seja em um smartphone, seja em um e-reader, seja no que mais aparecer por aí. Dessa forma, o conceito de transposição de mídias dá lugar a um “write once, run many” (sim, emprestei o slogan do Java, que ilustra bem o conceito).

Tenho ventilado aqui e ali a ideia. Admito que é bastante ousada. Mas, combinada aos itens acima, pode finalmente produzir o jornal do futuro (agora sem as aspas).

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Uma resposta

  1. […] Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior. […]

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