O impresso digital da Folha e seus assinantes

As diferentes Folhas na Internet: a Online, a "na Web" e a Digital

As diferentes Folhas na Internet: a Online, a "na Web" e a Digital

No último domingo (13), a Folha lançou a versão digital do jornal impresso. Para quem ainda não viu a novidade, não se trata da transposição do texto e algumas imagens do jornal para páginas Web, que ajudei a criar em 1995 e que (inacreditavelmente) ainda continua no ar, ou da Folha Online, um outro veículo, com vida própria na Internet. O lançamento é uma reprodução fiel na tela das páginas do jornal, incluindo fotos, artes e até anúncios.

 

O diário da Barão de Limeira se vale da tecnologia Digital Pages, da empresa Futureway, que ganhou destaque com sua adoção há alguns anos pela revista Info, da Abril, e que também está presente no principal concorrente da Folha, o Estadão. Apesar de, a princípio, ser interessante ver na tela o jornal, especialmente para quem não pode colocar as mãos nele, considero isso contraditório: por que ver na Internet notícias “velhas”, do dia anterior? Além disso, não é possível acomodar na tela uma página standard com boa leitura: é preciso dar um zoom e ficar arrastando com o mouse a janela para se ler o conteúdo, um processo moroso.

Esse pessoal está dando uma nova dimensão a um termo que eu cunhei lá pelos idos de 2003: o “impresso digital”, ou seja, a publicação na Web de conteúdo sem tirar proveito dos recursos que essa mídia oferece. Esse mal atinge principalmente casas de comunicação de produtos impressos. Cheguei a escrever um artigo no Observatório da Imprensa em 2005 sobre o assunto.

Murilo Bussab, diretor de Circulação do jornal, justifica o novo produto como uma tentativa de “atender um público que busca aliar as vantagens do jornal impresso, como hierarquização de notícias, diagramação, infográficos e fotografias, com a velocidade, praticidade e interatividade que a internet e os meios eletrônicos permitem.” Me desculpem, mas esse senhor não quer ver o que acontece no mundo. Suas notícias “velhas” são liberadas apenas às 5h30 do dia seguinte e justamente NÃO aproveitam os benefícios da Internet. Exatamente o oposto do que alardeou.

Mas o que mais me assusta nessa iniciativa da Folha não é o seu impresso digital, e sim seu modelo de negócios. Assim como acontece com a velha Folha na Web, a novidade em breve será uma exclusividade para assinantes (o produto está aberto por 30 dias). Ao invés de procurar modelos alternativos para garantir a continuidade do título, insistem em um modelo moribundo internacionalmente, que está matando o jornal impresso também no Brasil. A própria Folha, ainda o diário de maior circulação no país, está agora com uma tiragem média de “apenas” 297 mil exemplares. É muito pouco para um veículo que já rompeu a marca de um milhão em tiragem média. Vivo cercado de jornalistas e cada vez menos vejo colegas assinando veículos, especialmente impressos.

O que a Folha espera? Que fechar seu conteúdo a assinantes aumente a tiragem de sua versão distribuída em árvores mortas? Essa visão de que se é dono de um produto premium e que liberá-lo na Web diminuirá seu valor é um duplo equívoco histórico que as grandes casas de comunicação insistem em cometer. Pior que isso: especialmente nos EUA, onde a crise na mídia bateu com mais força, os executivos estão endurecendo e fechando seu conteúdo. Eles se recusam a aceitar o fato de que existe muita gente produzindo conteúdo tão bom (ou melhor) quanto o deles na Web. E de graça.

Ironicamente, há duas semanas recebi uma ligação do telemarketing da Folha me oferecendo a assinatura do jornal, pela qual pagaria apenas a “taxa de envio” nos primeiros três meses. Curiosamente, ela era praticamente o valor de uma assinatura “cheia”. Oras, de duas uma: ou estão dando de graça o seu produto ou estão me enrolando. Receio que seja uma combinação das duas coisas. O Estadão, por sua vez, lança uma campanha em que o assinante diz quanto quer pagar pela assinatura no primeiro mês.

No final, estamos pagando pelo papel jornal. Só o papel. Nas entrelinhas dessas campanhas de assinatura, o conteúdo já virou commodity. A Folha de S.Paulo deveria olhar mais para sua irmã REALMENTE digital -a Folha Online- e tratar de aprender algo com ela.

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7 Respostas

  1. […] mera transposição de conteúdo da “mídia de origem” (basicamente impresso ou TV) para a Web, como se vê majoritariamente […]

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  2. O fato é que hoje você pode ficar muito bem informado sem assinar jornal. Eu ainda tenho o pensamento antigo, de que é legal pegar o material pra ler em qualquer lugar, mas temos cada vez mais tempo com acesso ao computador, e é um aparelho que está ficando mais prático.
    Sinceramente, não sei como, mas tem que mudar. Como vc disse, essa visão de ter o conteúdo digital como apoio do impresso não cola mais, é coisa do início da internet.

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    • Lembro-me de quando dava aula na Metodista há alguns anos -você há de se lembrar disso- e destacava que uma das coisas que mantinham o impresso vivo era sua portabilidade. Afinal, não dava para levar o computador -nem mesmo um notebook- para leitura no ônibus… ou na privada!
      Mas agora temos Kindles, iPhones e afins.
      Com isso, o diferencial do meio impresso desaparece. Mais que isso: hoje não só é possível ler o conteúdo digital com conforto em qualquer lugar, como já é possível baixá-lo em qualquer lugar, por wifi ou 3G. Daqui a pouco, serão as bancas de jornal que estarão a perigo…

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  3. O Paulo tem toda a razão.

    Invés de perder tempo em colocar no ar a versão digital do jornal impresso, a Folha deveria pensar em novo modelo de negócio para tornar o seu produto mais atraente e interessante para os leitores.

    A internet já deu provas de que é mais ágil na divulgação das notícias.

    Agora, resta às empresas de comunicação batalhar novos formatos, sem meramente reproduzir as manchetes das notícias veiculadas no dia anterior pelos sites. E, ainda, quem sabe, repensar o formato de apresentação do conteúdo e os modelos de comercialização de espaço para anunciantes e de venda do jornal para os leitores.

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    • Pois é, Denise. Na verdade, se formos a fundo, o buraco fica mais embaixo. O produto jornal perde cada vez mais sua relevância diante da Internet, mais até que as revistas, pois ainda tem a maior parte do seu conteúdo focado em hard news. Mas hard news com notícia “velha”? Na Internet? Podemos questionar então -afinal- qual é o papel que o jornal deve assumir (sem trocadilhos).
      “Metros” e “Destaks” acharam um nicho -mais comercial que editorial- interessante. Tanto que estão roubando fatias publicitárias dos jornalões. Sua principal força é a distribuição, que casa perfeitamente com seu estilo editorial. As pessoas leem, logo as agências anunciam.
      É uma sinuca de bico para Folha, Estado e companhia. A demora em encontrar a saída se reflete em sua tiragem cadente. Mas estou certo que “aliar-se” à Internet é melhor que resistir a ela.

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  4. O colega jornalista que me desculpe, mas me deu um prazer enorme passar os olhos pelas páginas já datadas. Assim posso ver as manchetes da Folha impressa. Se a matéria me interessar, procuro a atualização na Folha On-line. Eu gostei. =)

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    • Hehehe, é um ponto, mas, para ler as manchetes, já bastava a reprodução da capa da Folha existente em http://www.uol.com.br/fsp . De todo jeito, existe uma coisa onde de fato a Folha Digital funciona muito bem: a consulta a edições anteriores do jornal, algo bastante útil. Em vidas passadas, fiz muita pesquisa em microfilme e no volumosos arquivos da mesma Folha, e isso era lento e desajeitado. Nesse ponto, a Folha Digital traz enormes vantagens, exceto para quem quiser passar pela experiência sensorial de sujar os dedos na tinta da impressão 😉

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