(Nenh)um Computador por Aluno

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O leilão para compra de 150 mil notebooks educacionais para 300 escolas públicas de todo país deve fazer água de novo. Dessa vez, o modelo Mobilis, da indiana Encore, foi extra-oficialmente rejeitado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação, por não atender às especificações.

O mercado aguarda agora a confirmação oficial do MEC, mas a Comsat, representante da Encore no Brasil, já promete recorrer. Se se confirmar a desclassificação, a segunda colocada, a CCE, vence o pregão. Cada Mobilis foi oferecido a R$ 553, enquanto o Classmate da CCE, batizado de CM52C, sairia por R$ 666,60 a unidade. Muito acima, portanto, dos US$ 100 sugeridos por Nicholas Negroponte quando instituiu o programa One Laptop Per Child, que gerou no Brasil o Um Computador Por Aluno (UCA), “motivador” do referido pregão.

Na verdade, o buraco é mais embaixo. Não quero diminuir a importância de iniciativas como o UCA. Muito pelo contrário: acredito plenamente que o uso consciente de tecnologia pode auxiliar –e muito– o processo educacional. Mas as escolas são bastiões contra novidades, infelizmente. E, na linha de frente da resistência, estão os professores, despreparados e desmotivados. Completando esse quadro, estão desencontros do próprio governo –que promove patacoadas como liberar acesso à Internet a escolas que não têm computadores– e dos gestores das escolas –que mantém equipamentos trancados com medo de que sejam quebrados pelo uso ou até mesmo roubados.

Tenho conversado com muitos professores e gestores de escolas sobre o uso da tecnologia. Falo também com pesquisadores e empresários do setor no Brasil e lá fora. Está muito claro que de nada adianta despejar computadores em escolas com o perfil acima. Os alunos até seriam beneficiados em um processo de inclusão digital, pois, muito mais que seus mestres, eles são bem adaptados à cybercultura, mesmo em comunidades mais carentes (dentro de limites, claro).

Mas as máquinas não seriam ferramentas pedagógicas. Isso só acontecerá com software realmente educacional (pouco disponível no Brasil) –e não uns arremedos na tela de material impresso– e com o preparo dos professores e das escolas. E aí está o grande desafio, pois não é só transformar o professor em um apertador de botões. Ele continua sendo o principal ator do processo. A tecnologia pode ser uma formidável aliada na sala de aula, mas só depois de o professor se apropriar dela, trazendo-a para a sua aula, o seu dia a dia.

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