Enfim separados

AOL e Time Warner, uma das fusões mais festejadas e catastróficas do mundo dos negócios, anunciaram a separação formal para que a primeira tente retomar o brilho perdido

AOL e Time Warner, uma das fusões mais festejadas e catastróficas do mundo dos negócios, anunciaram a separação formal para que a primeira tente retomar o brilho perdido

Hoje foi oficialmente anunciado o fim de um dos mais conturbados casamentos do mundo dos negócios: a America Online e a Time Warner irão oficialmente se separar. No processo, que deve ser concluído até o fim do ano, a segunda, já dona de 95% da AOL, comprará do Google os 5% restantes, convertendo tudo em ações da “nova” companhia online, que volta a ser negociada na Nasdaq.

A união durou quase uma década. Ela foi celebrada pouco antes do estouro da “bolha ponto-com”, que fez o valor dos papéis da então recém-criada AOL-Time Warner despencar, provocando a ira dos acionistas vindos do centenário grupo de mídia. Mas, muito além disso, o que tinha tudo para ser uma fusão de interesses empresariais brilhante demonstrou-se uma catástrofe corporativa por diversos motivos que não cabem aqui nesse post.

Pelo discurso oficial, a cisão dará a AOL a chance de tentar retomar pelo menos parte do seu brilho do passado. A empresa já foi maior que toda a Internet, criadora de conceitos que permeiam o nosso dia-a-dia, como mensagens instantâneas, e abriu a porta do mundo online para uma multidão em vários países. Ainda hoje, seus diferentes sites acolhem mais de 100 milhões de usuários únicos por mês, atingindo, de alguma forma, 91% da audiência online doméstica e representando o quarto destino na Internet mais visitado nos EUA. E, acreditem se quiser, ainda têm uns 10 milhões de usuários pagantes pelo serviço de acesso (!!).

Por outro lado, sua imagem ficou totalmente arranhada depois da fusão. A empresa é vista como um dinossauro digital, grande e lento, incapaz de inovar e que, por isso, come poeira dos concorrentes, mais notadamente do Google. A idéia é que, livre das amarras da Time Warner, um pessoal também não exatamente conhecido pela inovação ou arrojo em seus produtos, a empresa consiga ser mais ágil.

Algumas coisas já vêm acontecendo nesse sentido. O modelo de negócios, que à época da fusão privilegiava a assinatura de acesso, hoje migrou para a publicidade online dirigida. Por isso a empresa não pára de comprar sites e abrir outros tantos. Paralelamente, muitas cabeças estão sendo trocadas, e algumas das mais importantes vieram justamente do Google, inclusive o novo diretor de publicidade e estratégia, Jeff Levick, e o novo CEO, Tim Armstrong.

Se Armstrong, que tem nome de astronauta, conseguir reverter a espiral para baixo, ganha as estrelas merecidamente. A questão é saber se o divórcio  não veio tarde demais.

Colocando mais lenha na banheira

O problema não está nos livros em si, e sim no fato de eles seram indicados para crianças de nove anos de idade

O problema não está nos livros em si, e sim no fato de eles seram indicados para crianças de nove anos de idade

Pouco mais de uma semana da barulheira causada pela distribuição –seguida de recolhimento– do livro “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” (da Via Lettera) a alunos da 9 anos da rede estadual de ensino, outra obra, distribuída a alunos da mesma faixa etária, está causando mais dor de cabeça ao tucanato de José Serra. Dessa vez, a polêmica gira em torno de “Poesia do Dia: Poetas de Hoje Para Leitores de Agora” (Ática). Se o primeiro era uma coletânea de quadrinhos recheada de palavrões e até insinuações ao PCC, a reunião de poesias abusa de ironias adultas.

Assim como no primeiro caso, o problema não está nas obras, e sim em sua distribuição a crianças, que dificilmente conseguiriam processar adequadamente frases como “nunca ame ninguém: estupre.” Por mais que faça parte do poema “manual de auto-ajuda do supervilão”, o que podemos esperar de uma criança de 9 anos ao ler isso?

No dia 22, Marcelo Tas fez um post em seu blog sugerindo que toda a gritaria em torno de “Dez na Área” é puritanismo demais. Na verdade, ele comentava artigo de Xico Sá na Folha que pregava a mesma coisa. Sugerem que palavrões e futebol estão intimamente ligados. Nas palavras do Xico, “em uma pelada, mesmo de criança, fala-se mais palavrões do que na última casa de tolerância da Vila Mimosa”.

Sim, pode ser. E de fato as crianças estão amadurecendo cada vez mais rápido, inclusive na boca suja. Mas tenho um filho de oito anos, que não é nenhum santo imaculado. Mas não acredito que, dentro de um ano, ele dirá “chupava ela todinha!” (que aparece nos referidos quadrinhos), sabendo ou não o que estaria dizendo.

Ademais, como já disse acima, a culpa não é das obras, e sim do fato de elas serem oferecidas à molecada na escola. A linguagem da turma mudou, mas tudo tem limites. Não proponho que a escola seja careta –pois ela já é bem chata– mas o material didático pode ser moderno sem ser grosseiramente inadequado.

A culpa não é de José Serra, mas é de seus subordinados. Ele quer ser presidente, mas, para isso, é bom que já vá preparando o discurso para rebater o que a oposição lhe dirá sobre esses (e outros) episódios ligados à educação estadual no seu mandato

Não quero mais brincar de computador por aluno

A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

A Comsat, que representa a Encore, quer melar o pregão que venceu e que ainda pode lhe render mais de R$ 82 milhões

Parece bizarro, e talvez seja mesmo! A Comsat, representante no Brasil da indiana Encore, que ganhou em dezembro a licitação para a venda ao MEC de 150 mil laptops educacionais do modelo Mobilis, protocolou ontem uma ação no TCU (Tribunal de Contas da União) pedindo o cancelamento do pregão que venceu. Jackson Sosa, procurador da empresa, disse ao jornal Valor Econômico que eles “cansaram” de tentar dar prosseguimento à fase de testes de homologação do produto e que o Ministério da Educação estaria ignorando a companhia. “Não nos interessa mais levar esse processo adiante”, afirmou.

Sei… Você jogaria fora uma fatura de mais de R$ 82 milhões? É o que a Comsat está dizendo que quer fazer. Mas como escrevi em outro post aqui, no dia 5 de maio, o Mobilis teria sido rejeitado nesses mesmos testes, realizados pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Se isso se confirmasse, o que poderia acontecer a qualquer momento, o segundo colocado no pregão, no caso a CCE, com seu Classmate CM52C, seria chamada. Por outro lado, se o pregão for cancelado, todo mundo volta ao zero.

O MEC se defende e diz que já concluiu a sua análise, mas ainda assim enviou os equipamentos para o Inmetro para uma segunda opinião. E o tempo vai passando… Apesar de o computador por si só não resolver os problemas da combalida educação brasileira, a proposta do projeto UCA (Um Computador Por Aluno), versão tupiniquim do programa One Laptop Per Child, idealizado por Nicholas Negroponte, é bem-vinda e pode sim render bons frutos, especialmente à população carente, cujos filhos dificilmente têm acesso à informática. Ainda que não seja usado didaticamente, a simples inclusão digital já cria cidadãos melhores. Assim sendo, espero que o pregão seja mantido, mas que a CCE seja chamada logo! Não quero negar eventuais direitos da Comsat, mas esse seu comportamento é no mínimo suspeito, típico de quem quer ir para a casa com a bola só porque está perdendo na pelada.

Palavrões… didaticamente

Além dos palavrões e das frases de cunho sexual, a obra também menciona o PCC mais de uma vez

Além dos palavrões e das frases de cunho sexual, a obra também menciona o PCC mais de uma vez

“Chupava ela todinha!” Isso pode não causar a você repúdio, mas faz parte de um livro que o Governo do Estado de São Paulo distribuiu às escolas de sua rede para ser usado por alunos de nove anos de idade, no terceiro ano do Ensino Fundamental. Ao todo, foram comprados 1.216 exemplares de “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” (da Via Lettera), uma coletânea de quadrinhos para o público adolescente e adulto que tem o futebol como pano de fundo.

Além do uso recorrente de palavrões e expressões de cunho sexual e de duplo sentido, a grupo criminoso PCC também é mencionado em histórias, o que deixaria José Serra de cabelos em pé, se ele tivesse para tanto. Mas o governador estrilou, disse que essa compra era “um horror”, prometeu punir os responsáveis pela escolha. Classificou essa mancada como mais grave que o material recheado de erros distribuído a toda a rede no início do ano, cujo mais notório foi um mapa da América do Sul com dois Paraguais (e os dois em posições erradas). Pela completa inadequação à faixa etária, diria que é mesmo! E olha que os Paraguais custaram a cabeça da ex-secretária Maria Helena Guimarães de Castro, que caiu no dia 27 de março, sendo substituída pelo Paulo Renato. Apesar disso e das ameaças do tucano, a secretaria se resumiu a emitir uma notinha burocrática, onde prometia apenas recolher os livros (que custaram aos cofres estaduais R$ 35 mil) e abrir sindicância interna.

Como disse Caco Galhardo, um dos autores do livro, à Folha, “o cara que escolheu não leu o livro”. Realmente é uma das poucas explicações plausíveis para uma coisa dessas ter passado. Ou então é sabotagem! As editoras de livros riem quietinhas de novo, pois, apesar de o Governo Federal continuar comprando seus livros didáticos a todos os alunos do país anualmente, elas não nutrem exatamente simpatia pela iniciativa do Governo de São Paulo de distribuir material complementar, especialmente o que o próprio governo produz (como no caso das obras com os Paraguais). Agora, interesses econômicos à parte, elas têm razão, pois produzir material didático não é para qualquer um: é um trabalho extremamente detalhado e exaustivo, que envolve grandes equipes e muito tempo e dinheiro. E, mesmo com todo o investimento das editoras, muitas obras são recusadas ano após ano pelas comissões avaliadoras. Ver essas mancadas grotescas depois de tudo isso é de lascar!

Another one bites the dust… now

Tucson não foi grande o suficiente para manter dois jornais impressos diários, a mesma conversa ouvida em Denver no fim de fevereiro

Tucson não foi grande o suficiente para manter dois jornais impressos diários, a mesma conversa ouvida em Denver no fim de fevereiro

No dia 16 de março, publiquei aqui no Macaco Elétrico um post comentando a notícia de que o Tucson Citizen fecharia as suas portas no dia 21 daquele mês, depois de agonizar por dois meses atrás de um comprador que acabou não aparecendo. Bem, na verdade o fim ainda foi prolongado por outros dois meses, até que a edição final fosse publicada apenas neste sábado, dia 16 de maio, 138 anos, sete meses e um dia após a primeira edição.

“Mudanças dramáticas em nossa indústria combinadas com dificuldades econômicas particularmente nessa região tornaram inviável a produção de dois jornais impressos diários em Tucson”, sentenciou Bob Dickey, presidente da divisão de publicações comunitárias da Gannett Co., proprietária do Citizen. Discurso semelhante já havia sido usado pela E.W. Scripps Co. ao anunciar o encerramento das operações do seu Rocky Mountain News, de Denver, no dia 26 de fevereiro, a míseros 55 dias de completar 150 anos de jornalismo. Lá, sobrou o The Denver Post, da MediaNews Corp, que acaba de anunciar que pretende restringir o conteúdo online de seus 53 jornais a usuários pagantes.

De volta a Tucson, a equipe do Citizen (e até mesmo alguns cidadãos) ainda procura uma maneira de manter o veículo vivo, mesmo que seja apenas online. Parece a repetição da história de ex-funcionários do Rocky que tentaram captar para si os espólios do finado em uma nova publicação exclusivamente digital, o InDenverTimes.com. Para isso, propuseram um modelo de assinaturas que não vingou, pois mais parecia um “patrocínio” de cidadãos simpatizantes que um modelo de negócios bem montado. Apesar do fracasso, ainda não desistiram e procuram agora outro modelo. Espero que sejam bem-sucedidos, servindo de inspiração aos colegas de Tucson e de todo mundo.

A turma do conteúdo fechado bate o bumbo

Singleton engrossou o coro dos que querem restringir o conteúdo online a pagantes

Singleton engrossou o coro dos que querem restringir o conteúdo online a pagantes

Primeiro foi Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal. Agora foi a vez de William Dean Singleton, presidente do conselho da Associated Press e CEO da MediaNews Corp, que publica 53 jornais nos EUA. Os dois são as mais proeminentes vozes do coro cada vez mais forte de publishers que pregam que não é mais possível oferecer de graça do seu conteúdo na Internet.

Isso contraria o senso comum vigente, que prega que novos modelos de negócios sejam perseguidos para compensar as quedas nas receitas publicitárias das edições impressas dos veículos. Apesar de a publicidade online estar aumentando, ela não cobre o rombo deixado pelas perdas do impresso.

No dia 7 de maio, Murdoch afirmou publicamente que a News Corp está desenvolvendo um sistema de micropagamento para que os internautas tenham a possibilidade de pagar individualmente por artigos ou serviços de seus veículos online, começando justamente pelo WSJ. No dia seguinte, Singleton enviou um memorando aos funcionários do MediaNews Corp pregando o mesmo caminho. O memorando foi republicado no mesmo dia na coluna de Jim Romenesko no site do Poynter Institute’s.

“Nós continuamos a praticar uma injustiça com nossos assinantes de impressos e a criar a percepção de que nosso conteúdo não tem valor ao colocar online todo o nosso conteúdo impresso de graça”, escreveu Singleton. “Isso não apenas erode nossa circulação impressa, desvaloriza a essência de nosso negócio –o grande jornalismo local que nós (e só nós) produzimos diariamente.”

Nesse momento de crise, é grande a chance dessa tendência de retrocesso vingar. Sem fazer muita força, parece mesmo que faz sentido. Mas, se você concorda com eles, permita-me discordar: acredito que se trata de um movimento de recrudescimento em torno da incapacidade de se adaptar a uma nova realidade econômica. Não estou dizendo, de forma alguma, que empresas ou profissionais trabalhem por amor à arte, pois nem relógio funciona de graça. Mas, ao fechar o conteúdo para tentar fechar o balanço, as empresas perdem a chance de levar seus produtos jornalísticos a um novo patamar, transformando-os em algo muito melhor para seus consumidores e as próprias companhias.

Modelos alternativos já existem e vêm sendo discutidos aqui mesmo nesse blog. Mas todos eles representam mudanças substanciais em questões essenciais das companhias. Admito que não são fáceis para qualquer um, principalmente para quem tem muito a perder. Espero, entretanto, que a inovação vença a resistência.

Download de filmes: legal, mas caro (e, por isso, tolo)

A Saraiva largou na frente no download de filmes no Brasil, mas os preços altos podem matar a bela iniciativa

A Saraiva largou na frente no download de filmes no Brasil, mas os preços altos podem matar a bela iniciativa

A Livraria Saraiva anunciou hoje um serviço inédito no Brasil, que permite aos internautas fazer downloads de cópias legais de filmes com qualidade de DVD. Batizado de Saraiva Digital, imita serviços internacionais (mais notadamente o iTunes) e permite que o usuário alugue ou compre os filmes. A diferença entre as duas modalidades, além do preço (entre R$ 3,90 e R$ 6,90 no caso de aluguel), reside no fato de que, no modelo de aluguel, o filme não roda mais depois de 24 ou 48 horas e apenas a modalidade de compra permite queimar o filme em um disco.

Parabenizo a Saraiva pela iniciativa: acho que estão no caminho certo! Mas esses preços… Acompanhem o meu raciocínio:

O usuário será obrigado a baixar o filme, o que, de cara, já exige uma banda (bem) larga e muitas horas de download. Até aí, tudo bem, especialmente para aqueles que já são adeptos dos torrents da vida, baixando filmes ilegalmente. Depois, se quiser gravar em disco, precisa somar o custo da mídia. No final, ficará com um DVD com aspecto de pirata, sem extras, encarte, caixinha, nada.

Pois bem: entrei no novo serviço e vi o filme Juno, belíssima história. O download para compra sai por R$ 34,90. A Saraiva.com me entrega o DVD original, com tudo o que o download não me dá, no dia seguinte por… R$ 34.90. Ok, vamos ver outro filme: O Homem de Ferro, aventura com um dos super-heróis mais cafajestes (pelo menos o seu alter-ego) e divertidos que existem. Na Saraiva Digital, a compra me custa R$ 39,90, enquanto, na Saraiva.com, sai por… R$ 39,90! Procurei então na Americanas.com, concorrente direta da Saraiva.com. E esse mesmo DVD me era oferecido por R$ 19,90.

Aí fica difícil, né? Não sou tão desesperado a ponto de PRECISAR ver o filme imediatamente, sem poder esperar até o dia seguinte para a entrega do DVD e todas as suas vantagens sobre o download. Isso sem falar que a segundo opção não é instantânea, pois ela vai levar umas cinco horas fácil para ser concluída.

Uma das razões do sucesso do iTunes, que o transformaram no maior vendedor de músicas do mundo (superando o Wall Mart), é que o usuário pode comprar, com muita facilidade, apenas as faixas musicais que ele quer, sem precisar levar o álbum inteiro. Além disso (e isso é crítico), cada uma sai por míseros US$ 0,99. Esse valor é baixo o suficiente para “sair na urina” do cartão crédito.

Como disse, a Saraiva mandou bem com a iniciativa. Mas tem que ficar mais barato. Não apenas que a concorrência, mas que ela própria.

WSJ abraça o micropagamento enquanto rejeita Kindle

Murdoch não está surdo aos movimentos do mercado: adotará o micropagamento e deve lançar seu próprio e-reader em breve

Murdoch não está surdo aos movimentos do mercado: adotará o micropagamento e deve lançar seu próprio e-reader em breve

Enquanto a indústria de mídia discute e discute qual será o seu modelo de negócios do futuro, especialmente para o impresso, o The Wall Street Journal anunciou que está criando um sistema de micropagamento que permitirá que pessoas que não assinem o seu serviço acessem notícias e artigos individualmente, pagando por cada um. Além disso, lançará um serviço Premium que oferecerá o serviço noticioso da Dow Jones. Em tempo: o WSJ é dono de um dos poucos bem-sucedidos casos de assinatura paga na Web, com mais de um milhão de usuários desembolsando US$ 100 por ano pelo acesso.

Rupert Murdoch, dono da News Corporation, que, por sua vez, é dona do WSJ, anunciou que o modelo deve ser ampliado para todos os jornais do grupo. Para o mogul das comunicações, a era do conteúdo online grátis logo acabará. Murdoch lidera a resistência dos descontentes com o jeito que a notícia virou commodity com a Internet e condena serviços como o Google News, que cria publicações agregando conteúdos de diferentes fontes.

A metralhadora giratória não poupa nem o Kindle, que acaba de ter uma terceira versão –a DX– anunciada e vem ganhando manchetes como uma possível maneira de se distribuir os “jornais do futuro”. Tanto que o The New York Times –concorrente da News Corp– é uma das estrelas de seu portfólio. “Não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”, disparou Murdoch recentemente.

Isso não quer dizer que ele seja contra os e-readers, como o produto da Amazon. Na verdade, o próprio empresário já ventilou que seu conglomerado de mídia estaria desenvolvendo o seu próprio equipamento. Claro, ele não quer dividir a sua margem com outros: o mercado especula que a Amazon fique com 70% do valor das assinaturas de periódicos baixados e lidos pelo Kindle. Nesse sentido, a resistência de Murdoch é compreensível. Mas a News Corp terá força para, por si só, criar uma alternativa viável de produto? De todo jeito, teria que se associar a algum concorrente da Amazon, pois, por mais que confie na qualidade e relevância de seu conteúdo, ele não é suficiente para abocanhar uma fatia significativa desse mercado. A própria Sony, que já está na estrada com o Reader, pena para fazer frente ao Kindle.

Claro, são apostas.Murdoch está fazendo as deles corajosamente, mas muita água ainda vai passar por baixo dessa ponte. Ele está certo em se posicionar logo e, se as suas idéias se transformarem no modelo vencedor, a News Corp aumentará a sua influência de uma maneira decisiva.

Para Bezos, Kindle pode salvar jornais em um mundo com menos papel

Bezos sugere que os jornais "migrem" para seu Kindle a preços mais baixos

Bezos sugere que os jornais "migrem" para seu Kindle a preços mais baixos

Jeff Bezos é um sujeito singular. Ele ficou milionário apostando no comércio eletrônico já em 1994, quando o termo ainda nem havia sido criado. Graças a sua visão de futuro, transformou a Amazon não apenas na maior livraria do mundo (sua origem), mas também na maior vendedora de música e na maior loja de departamentos. Agora ele quer repetir a dose com seu e-reader, o Kindle. Ele espera se firmar como líder no nascente (e cada vez mais explosivo) mercado de livros digitais. Mas também começa a oferecer uma possível saída para a combalida indústria de mídia.

No dia 6 de maio, deu uma nova cartada nessa direção, anunciando o Kindle DX, terceira versão do produto, que vem a público apenas dois meses depois do lançamento do Kindle 2, que continuará sendo vendido. A novidade traz recursos muito interessantes, como a possibilidade de conexão por redes WiFi (e não mais apenas por conexões de celular 3G), o dobro de memória (4 GB, suficientes para guardar, de uma só vez, uma média de 3.500 livros) e a possibilidade de se ler os textos na vertical ou na horizontal, simplesmente rotacionando o equipamento, como acontece com o iPhone. Mas o que chama mais a atenção é a sua tela de 9,7 polegadas, o dobro da do Kindle 2 e quase o tamanho de uma folha de revista. Ok, custa mais caro: US$ 489 contra US$ 359 do Kindle 2.

De todos os recursos do Kindle DX, o que mais chama a atenção é o tamanho da sua tela

De todos os recursos do Kindle DX, o que mais chama a atenção é o tamanho da sua tela

A telona é muito bem-vinda para ler as versões de revistas e jornais para o e-reader. Já estão disponíveis assim as edições diárias de 37 jornais e 28 revistas de seis países, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Mas o que mais chama a atenção é que essas assinaturas digitais podem custar até metade da assinatura do mesmo conteúdo impresso!

Isso faz todo o sentido, já que se elimina o gigantesco custo da impressão. Neste blog mesmo, já havia comentado o interessante exercício feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider, que calculou (grosseiramente) que um Kindle 2 custaria metade que o necessário em papel para se imprimir um ano do The New York Times para cada um de seus assinantes. O mesmo jornal anunciou que, até junho, oferecerá assinaturas a preços reduzidos para as cidades onde não há distribuição da versão impressa.

Não sei se Bezos conseguirá repetir seu sucesso com o Kindle, apesar de o produto estar sendo bem recebido. A concorrência está se mexendo (o principal rival é o Reader, da Sony), mas há rumores de que a Apple está preparando o seu produto e que a News Corp, de Rupert Murdoch também entraria nesse mercado. Mas a idéia de os jornais terem, como alternativa, “migrarem” para essa nova plataforma é sem dúvida nenhuma interessante.

(Nenh)um Computador por Aluno

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O equipamento indiano deve ser desclassificado por não atender às especificações do edital, mas ninguém se lembra de treinar os professores?

O leilão para compra de 150 mil notebooks educacionais para 300 escolas públicas de todo país deve fazer água de novo. Dessa vez, o modelo Mobilis, da indiana Encore, foi extra-oficialmente rejeitado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação, por não atender às especificações.

O mercado aguarda agora a confirmação oficial do MEC, mas a Comsat, representante da Encore no Brasil, já promete recorrer. Se se confirmar a desclassificação, a segunda colocada, a CCE, vence o pregão. Cada Mobilis foi oferecido a R$ 553, enquanto o Classmate da CCE, batizado de CM52C, sairia por R$ 666,60 a unidade. Muito acima, portanto, dos US$ 100 sugeridos por Nicholas Negroponte quando instituiu o programa One Laptop Per Child, que gerou no Brasil o Um Computador Por Aluno (UCA), “motivador” do referido pregão.

Na verdade, o buraco é mais embaixo. Não quero diminuir a importância de iniciativas como o UCA. Muito pelo contrário: acredito plenamente que o uso consciente de tecnologia pode auxiliar –e muito– o processo educacional. Mas as escolas são bastiões contra novidades, infelizmente. E, na linha de frente da resistência, estão os professores, despreparados e desmotivados. Completando esse quadro, estão desencontros do próprio governo –que promove patacoadas como liberar acesso à Internet a escolas que não têm computadores– e dos gestores das escolas –que mantém equipamentos trancados com medo de que sejam quebrados pelo uso ou até mesmo roubados.

Tenho conversado com muitos professores e gestores de escolas sobre o uso da tecnologia. Falo também com pesquisadores e empresários do setor no Brasil e lá fora. Está muito claro que de nada adianta despejar computadores em escolas com o perfil acima. Os alunos até seriam beneficiados em um processo de inclusão digital, pois, muito mais que seus mestres, eles são bem adaptados à cybercultura, mesmo em comunidades mais carentes (dentro de limites, claro).

Mas as máquinas não seriam ferramentas pedagógicas. Isso só acontecerá com software realmente educacional (pouco disponível no Brasil) –e não uns arremedos na tela de material impresso– e com o preparo dos professores e das escolas. E aí está o grande desafio, pois não é só transformar o professor em um apertador de botões. Ele continua sendo o principal ator do processo. A tecnologia pode ser uma formidável aliada na sala de aula, mas só depois de o professor se apropriar dela, trazendo-a para a sua aula, o seu dia a dia.

Buffett: perdas sem fim para os jornais

Podre de rico, Buffett acha que jornalismo e papel-jornal não são mais a mesma coisa

Podre de rico, Buffett acha que jornalismo e papel-jornal não são mais a mesma coisa

O segundo homem mais rico do mundo, Warren Buffett, disparou na reunião anual de acionistas da Berkshire Hathaway que não pagaria absolutamente nada pela maioria dos jornais dos EUA. “Existe a possibilidade de eles simplesmente terem perdas sem fim”, disse. Buffett é dono da empresa de investimentos Berkshire, que, por sua vez, é dona do The Buffalo News e grande investidora do The Wall Street Journal.

O raciocínio do bilionário é simples: os jornais (e não o jornalismo) já não seriam mais essenciais ao público. Enquanto eram, também o eram para os anunciantes. Mas agora as notícias podem ser entregues por uma grande variedade de formas, mais notadamente a Internet. Logo, as receitas publicitárias vêm despencando. Mas o empresário fez questão de classificar isso como uma “tragédia nacional”, pois os jornais garantiram, até aqui, “que os governos fossem mais honestos que eles seriam sem os jornais.” As declarações foram publicadas em um post no blog MarketBeat, do The Wall Street Journal.

O Midas que, entre seus primeiros trabalhos, ainda criança, entregava jornais, dissociou publicamente a notícia da mídia que a carrega, algo que ainda é difícil para muita gente. Os vendedores de peixe nas feiras livres agradecem a esses últimos: assim têm garantida a embalagem de seu produto.

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