Enem X vestibular

O ministro da Educação quer modificar o Enem para que ele substitua o vestibular

O ministro da Educação quer modificar o Enem para que ele substitua o vestibular

O governo federal lançou a proposta de modificações no Enem para que ele passe a servir como uma alternativa aos vestibulares das universidades federais do país. A ideia é que o aluno faça a prova e possa escolher, de acordo com a sua pontuação, entre cinco cursos de uma mesma universidade ou de até cinco instituições diferentes. O discurso demagógico se completa com “uma ferramenta para democratizar o acesso dos estudantes à universidade” e ainda a chance de os alunos escolherem faculdades de qualquer parte do país facilmente.

Na teoria, a proposta é boa, pois o vestibular é um modelo perverso. Mas acho que eu perdi alguma coisa… É razoavelmente simples de se concluir que deve acontecer o contrário disso. Essa história só seria verdadeira se a qualidade do ensino fosse homogênea em todo o país, e isso não é verdade nem entre as escolas particulares. Que dizer então das escolas públicas?

No final das contas, o processo vai acabar elitizando ainda mais o ensino superior federal. Os melhores cursos, quase sempre localizados nas instituições paulistas e cariocas, acabarão ocupados por alunos da rede particular de ensino do Sudeste, onde está a grande maioria das melhores escolas. E hoje a ajuda que o atual Enem representa na pontuação dos vestibulares tradicionais, que beneficia alunos da rede pública, deixaria de existir, pois o Enem seria o próprio vestibular.

Há ainda um outro ponto a ser considerado: o Enem, desde que foi criado, se propõe a traçar um perfil amplo da formação do aluno, indo muito além do conteúdo e concentrando-se principalmente na aquisição de competências esperadas do Ensino Médio. Pelo novo modelo, as atuais 63 questões passariam a 200, para acomodar a verificação de conteúdo, o que contraria essa proposta original.

As universidades devem ainda dizer se aceitam o novo formato: elas têm autonomia para rejeitar a proposta. O governo federal tem pressa -inclusive porque o ministro da Educação, Fernando Haddad, tem pretensões eleitorais. Diante disso, afirmou que as universidades que adotarem o novo sistema receberam mais verbas para assistência estudantil. E por falar em política, Paulo Renato Souza, que acabou de assumir a secretaria de Educação paulista e criou em 1998 o Enem (quando foi ministro da Educação de FHC), já declarou publicamente que desaprova o novo formato.

O governo Lula não tem exatamente se destacado no campo da educação. Em algumas semanas, devemos começar a ver a adesão das universidades. Se tudo correr como pretende o governo, pode ser o início do fim do vestibular. A conferir.

Limites do “uso justo”

O CEO do Google insiste na queda de braço do "uso justo" contra os executivos da indústria de mídia

O CEO do Google insiste na queda de braço do "uso justo" contra os executivos da indústria de mídia

No último dia 7, Eric Schmidt, CEO do Google, colocou o dedo na ferida: o Google News mais ajudaria que atrapalharia jornais, revistas e outras fontes de informações. Não é bem o que eles pensam. Na verdade, cresce o coro de executivos da mídia que acha que o serviço se apropria indevidamente de seus conteúdos para gerar a sua página de notícias automática. O Google rebate, afirmando que faz apenas “uso justo” (“fair use“) desse material alheio e que os jornais se beneficiam grandemente do tráfego que ele lhes gera, já que usa apenas pequenas porções de textos e imagens, remetendo os internautas aos sites de origem das notícias.

O discurso de Schmidt aconteceu em plena reunião anual da Associação de Jornais da América e foi seguido de perguntas relativamente comedidas da platéia, formada por líderes da indústria. O momento estava cheio de ganchos para a fala do CEO: a mídia -especialmente jornais dos EUA- está atravessando uma crise sem precedentes, com a bancarrota de vários títulos tradicionalíssimos, o Google começou a veicular anúncios no Google News e a Associated Press resolveu endurecer na proteção dos direitos de propriedade intelectual do material que ela distribui.

Essa discussão não é nova: em março de 2005, a France Presse processou o buscador, pedindo US$ 17,5 milhões de indenização pelo uso de seu material no Google News. O processo foi arquivado dois anos depois com um acordo entre as partes. Os detalhes não foram revelados, mas o Google News pôde continuar publicando material da agência francesa. Um ano antes disso, um acordo semelhante já havia sido firmado com a Associated Press (que nem chegou a processar o Google). E essa briga também remete a outro assunto que já rendeu acalorados debates, mas anda em baixa: o “deep linking“, que significa um site apontar diretamente para matérias ou artigos de outros sites, ignorando suas home pages. Exatamente como fazem os links nesse post, por exemplo.

A discussão atual gira em torno do que é “uso justo” do material de terceiros. Assim como no Brasil, nos EUA é legalmente aceitável usar porções limitadas de produtos alheios (até mesmo de concorrentes), dentro de condições específicas. Um exemplo clássico é o uso de até três minutos de imagens esportivas geradas por emissoras de TV nos programas jornalísticos de outros canais.

Porém, como acontece sempre que existe um juízo de valor envolvido, o limite entre “uso justo” e uso indevido é tênue. O próprio Schmidt disse no evento que isso depende da escola que o jurista seguir, mas fez questão de acrescentar que, na dúvida, a balança deve pender para o lado do consumidor. Nas entrelinhas, jogou a batata quente no colo dos donos de jornais: se não concordassem, poderiam ser taxados de anacrônicos e  contrários aos interesses dos internautas.

Os executivos, por outro lado, sentem-se pressionados para manter suas operações -mais que rentáveis- vivas em meio à crise. Muitos pensam em fechar o seu conteúdo, indo na contra-mão da indústria, outros estudam a adoção de micropagamento ou de outros modelos alternativos. Nesse cenário de incertezas, o Google News pode, em suas visões, ameaçar o “controle” dos produtores de conteúdo.

Então vem o Google e argumenta que, qualquer que seja o modelo de negócios adotado, ele é o maior parceiro do produtor de conteúdo, pois nada lhe geraria mais tráfego individualmente que o Google News e sua tradicional busca. E ele tem razão. Estudo realizado pela empresa de pesquisas Hitwise Intelligence mostra que, de todo o tráfego dos sites de notícias em março, 21,69% foi gerado pelo Google e outros buscadores. Os executivos da mídia sabem disse e declaram que não querem perder um “parceiro” tão importante.

Apenas não querem fornecer o conteúdo para que ele crie as páginas que lhes geram esse tráfego…

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