Internet, essa “coisa malvada”

O Culto do Amador, que sugere que a Internet vai acabar com tudo

O Culto do Amador, que sugere que a Internet vai acabar com tudo

A Veja desta semana publicou uma resenha sobre o livro “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a ferrenho crítico da Internet. Na obra, tenta demonstrar como a Internet e especialmente o que se convencionou chamar de Web 2.0 se transformaram em um Caixa de Pandora do século XXI, capaz de, como diz logo na capa, “destruir nossa economia, cultura e valores”.

Pelo raciocínio de Keen, a possibilidade de qualquer indivíduo ser capaz de publicar conteúdo na Internet é aterrador. Essa liberdade toda destruiria coisas boas que nossas sociedades construíram ao longo da História, colocando um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. E mais: a rede aparece como destruidora do direito autoral e até como responsável pela crise dos jornais nos EUA.

Bem, como diria uma velha professora, “calma com o andor, que o santo é de barro”. A Internet é uma ferramenta que de fato nos dá poder para amplificarmos tudo o que somos. E isso vale para o bem e para o mal. Mas o bem e o mal não foram criados pela Internet: colocamos nela apenas o que somos (toda a sociedade). A Grande Rede funciona apenas como um espelho disso.

Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a crítico da Internet

Andrew Keen, que passou de empreendedor digital a crítico da Internet

Keen cita a Wikipedia como o exemplo acabado da vitória da massa ignorante sobre os especialistas. E isso é absolutamente tendencioso! Não quero parecer um deslumbrado que acha que a Wikipedia é a “perfeição pelas mãos de todos”, mas todas as enciclopédias erram. O autor não citou (talvez tenha se esquecido) estudo feito pela Nature, a revista científica mais séria do mundo (e conduzida por especialistas), que concluiu que a Wikipedia e a Enciclopédia Britannica possuem proporcionalmente a mesma incidência de erros e imprecisões. Também conta meias verdades quando diz que as pessoas navegam completamente anônimas, livres para cometer todo tipo de crime e barbaridade.

Qual seria a “solução” para isso? Aceitar a idéia que Elton John teve em 2007, propondo o fim da Internet, pois ela estaria “destruindo a indústria musical e as relações interpessoais”? Acho que não. Gosto das músicas dele e lamento que ele esteja vendendo menos CDs, mas sempre temos -todos nós- que nos adaptar a mudanças. A Internet é só mais uma.

Para arrematar, Keen compara a Web 2.0 ao conceito de que, se um grupo de macacos batucasse infinitamente sobre máquinas de escrever, eventualmente comporiam uma obra coerente algum dia. Bom, prefiro 30 obras coerentes de um milhão de macacos que apenas uma feita por cem biólogos do zoológico. É um direito dos macacos e eles têm algo a dizer.

Mas talvez eu seja um pouco suspeito ao defender macacos 😉

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13 Respostas

  1. […] ideia já foi debatida aqui nesse blog, há pouco mais de um ano, por motivo do lançamento do livro “O Culto do Amador”, do cientista […]

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  2. […] Não é a primeira vez que a Internet é acusada de ser “a destruidora da civilização” por dar voz a qualquer um. Em 2007, isso chegou a render um livro, “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Na obra, ele afirma que a liberdade oferecida pela Internet destruiria a sociedade por colocar um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. Isso já foi inclusive discutido neste blog. […]

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  3. […] ideia já foi debatida aqui nesse blog, há pouco mais de um ano, por motivo do lançamento do livro “O Culto do Amador”, do cientista […]

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  4. […] ideia já foi debatida aqui nesse blog, há pouco mais de um ano, por motivo do lançamento do livro “O Culto do Amador”, do cientista […]

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  5. A internet assim como todos os fenômenos sociais, partem de um boom desregulado para em determinado momento precisar ser reestruturado com base na importância que adquiriu na sociedade. Grande exemplo disso é a crise economica atual. Não há dúvida que os efeitos da internet no mercado fonográfico, editorial, educacional, etc. possuem caractéristas benéficas e maléficas, a questão não é a existência ou não da internet e sua importância, e sim a criação de um marco regulatório. Que deve haver um regulação isso é fato, como fazê-lo sem descaracterizar como ferramenta de inclusão e socializãção é um dos principais desafios. A lei do Azeredo por exemplo presta pra nada, mas abre a discussão. Temos a Conferência Nacional de Comunicação esse ano, é a oportunidade do país absorver a internet como realidade social.

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    • A lei do Azeredo é uma aberração de proposta. Ela não só demonstra um desconhecimento desse admirável mundo novo, como ainda abre perigosíssimos precedentes para transformá-lo em um Admirável Mundo Novo, aquele proposto pelo Aldous Huxley.
      A Internet não está acima das leis, o que aliás cria um problema insólito, já que ela é mundial e as leis diferem de país para país. Entramos na discussão de onde julgar um crime cometido na Internet: no país onde está o autor do delito, no da vítima ou no do servidor (os três podem estar debaixo de leis conflitantes sobre o mesmo tema). Teremos que apelar sempre para cortes internacionais?
      As idéias de Breen também me parecem inadequadas. Na verdade, mais que criar novas leis, deveríamos nos preocupar em criar mecanismos para aplicar as já existentes aos crimes online. Como disse, a Internet faz parte da sociedade: não está fora ou acima dela. Código Civil, Código Penal, Lei de Direitos Autorais, Código de Defesa do Conumidor, Estatuto da Criança e do Adolescente, e por aí vai já definem todos os problemas encontrados na rede. Precisamos apenas aprender a usá-los nessa nova realidade.
      Só não se pode impedir, por definição, as mudanças em nome da proteção do status quo.

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      • Concordo, marco regulatório não necessáriamente é uma lei repressiva. É somente regulamentação para tornar o veículo estruturado justamente com mecanismos q viabilizem a aplicação das leis tb no mundo virtual.
        Mas pra isso tem q rolar muita discussão, por isso citei a Conferencia.

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  6. Vc me entendeu!

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  7. É sempre muito mais fácil criticar novos modelos do que tentar se adaptar….
    Agora fiquei curiosa para ler a resenha que a Veja fez…o que será que ela diz sobre o livro?? Vou ler já.
    BTW: adoro seu blog 😉
    Beijos.

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    • Faz parte da natureza humana querer manter o status quo: só saímos da nossa zona de conforto quando sentimos a água bater na bunda. O que me intriga no senhor Andrew Keen é que ele fez o “caminho contrário”. Ele foi um pioneiro da Web, visionário até, entrando no negócio de música digital em 1995 (!!!), antes de isso virar o que virou.
      Tamanha foi a decepção dele para “virar a casaca” dessa forma? É uma coisa para se estudar: valeria uma entrevista muito interessante. Você se habilita? 😉

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      • Também gostaria de saber quais foram as frustrações do senhor Keen….se descobrir, me conta?!

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  8. Heheh um post “primata”, digamos assim 😛

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